Sociologia

 

Uma nova visão sobre as ciências naturais e as ciências sociais

Carla Rocha Ferreira
 
 

Resumo: O livro “Um Discurso Sobre as Ciências” de Boa Ventura de Souza Santos trata da intervenção no debate sobre a ciência e apresenta uma crítica profunda ao estudo da teoria positivista. O presente artigo traz como objetivo levantar algumas questões referentes à relação entre ciências Naturais e ciências humanas, descrever o que levou o paradigma dominante a uma crise e delinear o paradigma emergente, que não será apenas um paradigma científico, mas também um paradigma social, já que surge numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência. Para isso, o citado autor, que tem se debruçado sobre essas questões analisou a crise do modelo civilizacional como um todo, ou, para utilizar as suas palavras, do paradigma da modernidade. Delimitando o estudo, fez-se uma olhada panorâmica para o campo das ciências cujos argumentos surgem a partir de explicações e colocações de Boaventura e suas aplicações e posturas quanto ao método científico. Este paradigma científico está presente nas obras de Copérnico, Kepler, Galileu, Newton, Bacon ou Descartes. O desafio está em perceber que os progressos científicos dos últimos trinta anos foram mais profundos que toda a evolução científica tinha alcançado desde o seu nascimento- séc. XVI.

Palavras-chave: Paradigma Dominante. Modernidade. Método Científico. Ciências.

Abstract: The book "A Discourse on the Sciences" by Boa Ventura de Souza Santos deals with intervention in the debate about science and presents a deep criticism to the study of positivist theory. This article aims to raise some questions regarding the relationship between Natural Sciences and the humanities, to describe what led the dominant paradigm to a crisis and to outline the emerging paradigm, which will not only be a scientific paradigm but also a social paradigm, already Which emerges in a society itself revolutionized by science. To that end, the aforementioned author, who has studied these questions, analyzed the crisis of the civilizational model as a whole or, to use his words, the paradigm of modernity. Delimiting the study, a panoramic survey was made for the field of sciences whose arguments arise from explanations and positions of Boaventura and its applications and postures as to the scientific method. This scientific paradigm is present in the works of Copernicus, Kepler, Galileo, Newton, Bacon or Descartes. The challenge lies in realizing that the scientific progress of the last thirty years has been deeper than all scientific evolution had achieved since its birth-century. XVI.

Keywords: dominant paradigm. Modernity. Scientific Method. Science.

Sumário: 1. Introdução. 2. Referencial teórico. 2.1 O paradigma dominante. 2.3. A crise do paradigma dominante. 2.4. O paradigma emergente. Conclusão. Referências.

1. INTRODUÇÃO

A análise do Discurso é um campo de estudo fundado na França, nos fins do ano de 1960. Vários fatores influenciaram o seu surgimento, os principais podem ser encontrados nos intensos debates filosóficos em torno da epistemologia, ou seja, do estudo do conhecimento.

Boaventura tenta explicar, enunciando e relacionando as mais importantes correntes de pensamento dentro dos séculos XVI – XX, que o mundo passa sempre um período de transição em busca de um novo senso comum. Além disso, conhecer o sujeito epistêmico que transforma o meio em que vive, busca o real conhecimento, é guiado pelas verdades que descobre, veio a despertar meu interesse para a leitura, a fim de realizar este artigo.

Para também entender a razão pela qual um objeto tão abstrato como o conhecimento se vai desenvolvendo, até atingir níveis cada vez mais complexos como a ciência, e da ciência à tecnologia, deve-se conhecer os elementos que a conformam. As ciências precisam, de alguma maneira, legitimar ou provar que as conclusões às que chegaram são verdadeiras. As condições se apresentam nos campos de estudo; por um lado a natureza que leva um ritmo que se repete constantemente sob certas condições, e por outro lado temos ao homem cuja vontade e movimentos são mutantes e diferentes entre as diversas pessoas; põem em tela de juízo a ideia sobre um mesmo método científico que pode servir para ambas as ciências.

Comecemos por entender alguns elementos que nos ajudariam a conhecer mais sobre as ciências, sobre o nascimento de um paradigma, ou seja, de um padrão dominante que atinge uma crise e posteriormente emerge após romper o senso comum. Nada melhor que a obra de Boaventura para estudar sobre esse assunto. O título indica que se trata de ciências, que no texto aparecem divididas em duas grandes categorias: as ciências naturais e as ciências sociais. O livro é constituído por três partes: a primeira sobre “O paradigma dominante”; a segunda sobre “A crise do paradigma dominante”; a terceira sobre “O paradigma emergente”.

O livro “Um Discurso Sobre as Ciências” trata-se, portanto, da intervenção no debate sobre a ciência e apresenta uma crítica profunda ao estudo da teoria positivista. O discurso fica por vezes denso, mas dissolve-se na proximidade de uma solução, no final de cada capítulo. Nunca se sente uma ruptura de ideias, enquanto o autor transforma o seu discurso científico num discurso cada vez mais próximo do discurso literário, um discurso natural. Assim, este livro transforma-se numa criação muito sincera e justa feita por um criador que consegue com facilidade reunir muitas idéias, opiniões, pensamentos, para depois realizar o seu próprio pensamento que atravessa um processo de justificação bem defendido.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 O paradigma dominante

No princípio do livro, o autor apresenta as ideias de Jean Jacques Rousseau sobre a evolução das ciências e das artes, a necessidade de responder às perguntas simples de uma maneira complexa. A evolução científica moderna tornou-se mais visível nessa altura e tudo que se encontra hoje em dia é apenas o produto de um pensamento simples, mas eficaz. Qual é o papel da ciência dentro da felicidade pessoal? Será que o desenvolvimento tecnológico traz consigo mais felicidade? A resposta é dada pelo autor apenas de uma maneira geral.

Boaventura fala ainda sobre a desconfiança do novo pensamento científico em relação às experiências imediatas, sobre a luta dos protagonistas do novo paradigma contra o dogmatismo (aquilo que crê como verdadeiro e indiscutível), a autoridade, e a importância do termo “quantificar” na ciência. Mais à frente, é dito que o cientista é uma pessoa ignorante com características humanas negativas, idéia propagada também ao grau menor.  Pode-se afirmar que o livro tem uma perspectiva histórica bem clara, começando com as teorias de J. J. Rousseau, passando por várias correntes e idéias posteriores e tratando uma problemática do novo tempo.

No percorrer da história até Ernest Nagel, os pensadores não tinham identificado todos os obstáculos que impediam que as ciências sociais se desenvolvessem de forma mais acelerada do que as ciências naturais. A resposta encontra-se nos critérios de cientificidade diferentes entre as duas ciências. Ao contrário das ciências naturais, as ciências sociais:

“não dispõem de teorias explicativas que lhes permitam abstrair do real para depois buscar nele, de modo metodologicamente controlado, a prova adequada, não podem estabelecer leis universais porque os fenômenos sociais são historicamente condicionados e culturalmente determinados, não podem produzir previsões fiáveis porque os seres humanos modificam o seu comportamento em função do conhecimento que sobre ele se adquire, os fenômenos sociais são de natureza subjetiva e como tal não se deixam captar pela objetividade do comportamento, as ciências sociais não são objetivas porque o cientista social não pode libertar-se, no ato de observação, dos valores que informam a sua prática em geral e, portanto também a sua prática de cientista (SANTOS, pág. 20/21).”

Estes elementos são analisados como sendo o resultado do maior avanço das ciências naturais, e acabam por constituir também a base da concepção de Thomas Kuhn sobre o caráter pré-paradigmático. Neste contexto de incerteza das propostas estratégicas, torna-se muito relevante para quem esteja interessado na praticabilidade das coisas a observação do autor sobre as estratégias das análises no início do livro (9/10): (I) começa a deixar de fazer sentido a distinção entre ciências naturais e ciências sociais; (II) a síntese que há de operar entre elas tem como polo catalisador as ciências sociais; (III) as ciências sociais terão de recusar todas as formas de positivismo lógico ou empírico ou de mecanicismo materialista ou idealista com a consequente revalorização do que se convencionou chamar humanidades que estudos humanísticos; (IV) esta síntese não visa uma ciência unificada nem sequer uma teoria geral, mas tão-só um conjunto de galerias temáticas onde convergem linhas de água que até agora concebemos como objetos teóricos estanques; (V) à medida que se der e o conhecimento vulgar tenderá a desaparecer e a prática será o fazer e o dizer da filosofia da prática.

2.2 A crise do Paradigma Dominante

O segundo capítulo confirma a teoria do autor sobre o desconhecimento e autodesconhecimento. Nesta medida, é interessante ver o próprio autor como se fosse o seu objeto de estudo: consegue tratar muito bem as condições teóricas que desenvolvem a crise do paradigma dominante, explicando detalhadamente a teoria da simultaneidade de acontecimentos distantes de Einstein e a importância desta nova teoria em relação a Newton, bem como a mudança radical da visão clássica sobre a física para uma nova compreensão da matéria e da natureza, mas não consegue lidar da mesma forma com as condições sociais.

 O tratamento das condições sociais releva retrospectivamente acontecimentos trágicos da industrialização da ciência. O autor destaca os efeitos da industrialização da ciência sobre a comunidade científica bem como sobre a investigação capital-intensiva.

Emerge a crise do paradigma dominante, à medida que as ciências naturais se aproximam das ciências sociais, estas se aproximam das humanidades. O autor descreve, sucintamente, sendo “o resultado interativo de uma pluralidade de condições” sociais e de condições teóricas (Santos, pág.24).  Na conclusão do capítulo transparece o conflito interno do autor aliado sobre a idéia dessa crise paradigmática da ciência moderna. O otimismo na busca do conhecimento aparece como uma luz num mundo tendencialmente preocupado com o presente. É interessante a metáfora utilizada para descrever a crise do paradigma da ciência moderna. Boaventura de Sousa Santos associa a crise com:

“o retrato de uma família intelectual numerosa e instável, mas também criativa e fascinante, no momento de se despedir, com alguma dor, dos lugares conceituais, teóricos e epistemológicos, ancestrais e íntimos, mas não mais convincentes e securizantes, uma despedida em busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o otimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde finalmente o conhecimento volte a ser uma aventura encantada (SANTOS, pág.35)”.

Extraída do contexto, esta frase poderia ser vista como um modelo aplicável a qualquer caso individual, no sentido em que abrange conceitos que existem desde sempre de uma forma muito compreensível e com perspectiva positivista. O autor explica a maneira como o conhecimento científico rompe com o conhecimento do senso comum quando começa a ser associado a termos como “quantificar”, “dividir e classificar” e “leis”, que implicam ideias de estabilidade e de circulação das coisas.

O argumento exposto no texto é que a ação humana é radicalmente subjetiva e que a ciência social será sempre uma ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais. A ligação entre estes elementos encontra-se na necessidade de reprimir a natureza subjetiva humana para obter um maior progresso científico, que implica uma atitude estritamente objetiva.

Reflexo de tudo isto é o limite que se estabelece entre o estudo do ser humano e o estudo da natureza, o que se deve em grande medida ao fato de a relação sujeito/objeto ser dicotômica. Aliás, o autor retoma, mais adiante, esta ideia “com olhos mais abertos” e expõe que a necessidade de criar novos objetos para satisfazer as próprias necessidades implica um outro tipo de relação entre o sujeito e o seu objeto, uma relação de continuidade em que o objeto vai ser visto como uma continuação do sujeito, uma projeção material ou imaterial do pensamento.

2.3 O Paradigma Emergente

Inicia-se um novo paradigma, intitulado de “paradigma emergente”, cujo autor anuncia como sendo um “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”

Segundo o autor, todo o conhecimento científico-natural é científico-social, uma vez que:

“A distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais começa a deixar de ter sentido e utilidade. Esta distinção assenta numa concepção mecanicista da matéria e da natureza a que contrapõe, com pressuposta evidência, os conceitos de ser humano, cultura e sociedade (SANTOS, pág.37)”.

Então é proposto um novo modelo de ciência a partir da relação entre ciências naturais e ciências sociais, rompendo assim, com o modelo totalitário das ciências naturais. As teorias, apontadas pelo autor, possuíam em sua essência uma semelhança universal, a de sustentarem os seus estudos, a natureza do homem, em valores matemáticos, os quais explicariam o mundo, racionalmente garantindo a previsibilidade fenômeno lógica da natureza.

A análise de Boaventura do percurso das ciências evidencia que são as ciências naturais que “esboçam” uma aproximação às ciências sociais e que “não há natureza humana porque toda a natureza é humana (Santos, pág.44)”. Historicamente, o percurso se repete, isto é, começa-se sempre por querer conhecer o mundo, buscando o conhecimento do mundo. Indagações, questionamentos, dúvidas e aí surgem perguntas sobre o próprio ser.

A segunda proposta de paradigma emergente diz que todo o conhecimento é local e total. Total porque “tem como horizonte a totalidade universal de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm” (Santos, pág.47), todavia, sendo total, é também local pela forma como é elaborado, partindo da totalidade universal. Segundo o autor, “constitui-se em redor de temas que em dado momento são adotados por comunidades interpretativas concretas como projetos de vida locais” (Santos, pág.47), isto é, são exploradas as temáticas de determinados grupos de forma complexa e abrangente.

O autor demonstra que o conhecimento propagado pela ciência moderna estava pautado no avanço da especialização, isto é, quanto mais limitado é o objeto em que incide o estudo mais rigoroso será o conhecimento sobre o mesmo. Logo após, argumenta que não basta que o conhecimento seja adquirido de forma local, isto é, que sejam desenvolvidas análises, descrições e estudos sobre um único objeto ou em um único campo disciplinar, são necessários que haja uma associação sobre as possibilidades gerais de condições a serem “injetadas” naquele estudo. Esse compartilhamento revela-se pelas vias da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade.

A terceira proposta do novo paradigma que emerge é a de que todo o conhecimento é autoconhecimento. Dentre outras observações, apresenta-se a separação que a chamada ciência moderna (principalmente no campo das ciências naturais) fez entre o sujeito de investigação e objeto de investigação. O sujeito que investiga não se confundiria com o objeto que estaria por ser estudado, como no exemplo da antropologia que tinha como sujeito de investigação o europeu civilizado e como objeto de investigação o indivíduo “primitivo”.

Assim, toda a subjetividade da natureza humana que pudesse interferir nos resultados da pesquisa era afastada. Contudo, estes movimentos que distinguiam o sujeito do objeto nas ciências sociais vieram a eclodir no período pós-estruturalista (em que as relações definem os termos). O afastamento do sujeito torna-se contraditório ou inconcebível a partir do momento em que a mecânica quântica demonstra que o ato do conhecimento e o seu produto eram inseparáveis.

O quarto e último modelo de paradigma emergente proposto é aquele em que todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. A ciência moderna consagrou o homem enquanto “sujeito epistêmico” (sujeito pensante, crítico, que não aceita o que lhe é imposto) entretanto, repugnou-o enquanto sujeito empírico (sujeito que aprende as coisas vivendo, a partir das experiências), tal como a Deus. Isto é, um conhecimento objetivo, rigoroso e baseado em fatos que rejeitava a interferência dos valores humanos ou religiosos, ou seja, considerava o senso comum como sendo “superficial, ilusório e falso”. A ciência pós-moderna, tenta resgatar o valor e a importância do senso comum, objetivando, misturar a relação das pessoas com o mundo, pois como aponta o autor: “senso comum faz coincidir causa e intenção”; “é prático e pragmático”; “é transparente e evidente”; “é indisciplinar e imetódico”; “é retórico e metafórico; não ensina, persuade” (SANTOS, pág. 56).

Cabe frisar que todos os cidadãos comuns têm não só o direito, mas também o dever de conhecer o que fazem e pensam seus cientistas e filósofos, porque também eles são de certa forma, responsáveis por tudo o que se faz e acontece no meio da sociedade em que vivem. Os resultados da pesquisa científica sempre trarão impactos, ao mesmo tempo, positivos e negativos sobre a vida dos cidadãos. Assim, o senso comum, enfim, permitirá que as diversas formas de conhecimento interajam entre si, orientando as ações do ser humano e dando sentido à vida, ou melhor, “o saber viver”, ao ponto em que coincidem causa e intenção. É neste sentido que Boaventura sustenta que:

“A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida” (SANTOS, pág.57).

CONCLUSÃO

Para finalizar, concluiu-se que Boaventura sustenta, metodologicamente, através do contexto histórico das ciências, sejam elas naturais ou sociais, desde o início do século XVI, uma fase de transição entre “tempos científicos”. Para uma melhor compreensão, o autor utilizou de vários referenciais como Rousseau em que buscou respostas por meio de perguntas elementares e simples. Buscou, ainda, na teoria do movimento dos planetas de Copérnico, nas leis sobre a queda dos corpos de Galileu, Descartes, Bacon, entre outros. É daí, desse conflituoso estudo realizado por Boaventura, que ele vai defender uma “posição epistemológica antipositivista” e procura fundamentá-la “à luz dos debates que então se travavam na física e na matemática”.

O autor expôs que hoje as ciências naturais ainda são diferentes das ciências sociais, mas aproximam-se cada vez mais destas e é previsível, em futuro não muito distante, se dissolverem nelas. E isso graças a duas razões teóricas. Na medida em que se toma consciência dessa explicação, a concepção de como se relacionam esses dois tipos de ciência se transforma, as tendências de se afirmarem ou crerem em algo indiscutivelmente se esvaem e, desta forma, ciências sociais e as ciências naturais - cada qual mantendo suas peculiaridades e objetos específicos - caminham lado a lado na tentativa de propor a verdade a que elas tiveram acesso, visando à construção de um mundo que proporcione, a todos seus habitantes, condições de existência e qualidade de vida que sejam condizentes à sua dignidade e realidade.

Seguindo a visão do autor, pode-se concluir ainda que toda ciência, seja referente aos feitos humanos como aos fatos naturais, é práxis social (visa transformar o mundo). E, uma vez que o estudo da práxis social cabe às ciências humanas, cabe a estas explicar as ciências naturais. E, deste modo, embora elas sejam constituídas de modo distinto, tudo indica que não podem mais ser vistas como dois tipos totalmente separados de saber. Se for superado o paradigma de um conhecimento instrumentalista e dominador da natureza e do homem, serão mais importantes as semelhanças que as dessemelhanças, nesses dois tipos de pesquisa. E as ciências humanas não precisam desvirtuar seu objeto de estudo para se adequar a exigências que só se justifica dentro do paradigma moderno de ciência que, como o autor mostrou, deve ser superado.

Até hoje a filosofia, a ciência e a tecnologia se impuseram autoritariamente às nossas vidas; mas ciência é uma atividade social e, portanto, só se justifica enquanto está a serviço dessa sociedade e, com ela, discute as implicações de suas proposições. E após o positivismo, sobretudo, parte-se da pressuposta "superioridade", das ciências naturais para explicar a "precariedade" das ciências humanas ou sociais que, embora buscando seguir o modelo daquelas, nunca conseguem alcançar a objetividade, a neutralidade e seus notáveis resultados.

 Santos julga que, ao colocar a questão de saber se o estatuto científico das ciências humanas ou sociais é igual ou diferente ao das ciências naturais, este questionamento, da forma com foi colocado, não apenas é insolúvel, mas também constitui um obstáculo epistemológico ao avanço do conhecimento científico, tanto para as ciências sociais como para as ciências naturais. A preocupação da Ciência, abandonando a Metafísica medieval, se tornou um dos aspectos funcional e fundamentado no estudo dos fatos da Natureza. O mundo passou a ser visto como uma máquina passiva, um mecanismo cego de teor determinístico.

Hoje tudo o que é criado constitui prova do nosso conhecimento e, implicitamente, do nosso autoconhecimento. O autor reforça a idéia de importância da qualidade (seja a qualidade de vida ou a qualidade do conhecimento), e da relação criação científica / discurso científico. Boaventura de Sousa Santos elabora uma revisão e atualização da nossa forma de ver as ciências e, por outro lado, de as ciências se verem a si mesmas, numa visão caracterizada por uma permanente e restauradora efervescência intelectual.

 

Referências:
Ciências. Artigos. Duas diferenças fundamentais entre as ciências naturais e as ciências sociais. Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1469> acesso em 17 de julho, 2016.
Escola Secundária de Alberto Sampaio Notas de Apoio à disciplina de Sociologia. O método científico nas ciências sociais. Disponível em: <http://www.esas.pt/dfa/sociologia/metodo.html> Acesso em 17 de julho, 2016.
História do Brasil. Ciências Naturais e Sociais. Algumas definições sobre ciências. Disponível em: <http://encontreaqui.org/ciencias-naturais-sociais/ > acesso em 17 de julho, 2016.
O que é Epistemologia. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/o-que-e-epistemologia-scifilo/> acesso em 10 de julho, 2016.
SANTOS. Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as Ciências. 7ª edição-São Paulo: Cortez, 2010.
SlideShare. Teoria do conhecimento - UFBA. Disponível em: <http://www.slideshare.net/marta_cunha/tca-marta-4 > acesso em 10 de julho, 2016.
Universo Jurídico. Doutrinas. Uma breve análise do discurso sobre as ciências de Boaventura de Sousa Santos. Disponível em: <http://www.uj.com.br/publicacoes/doutrinas/default.asp?action=doutrina&iddoutrina=4204 > acesso em 16 de julho, 2016.
 

Informações Sobre o Autor

Carla Rocha Ferreira

Bacharel em Direito pela FURG

 
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Informações Bibliográficas

 

FERREIRA, Carla Rocha. Uma nova visão sobre as ciências naturais e as ciências sociais. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XX, n. 160, maio 2017. Disponível em: <http://ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=18919>. Acesso em nov 2017.


 

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Informações Bibliográficas

 

FERREIRA, Carla Rocha. Uma nova visão sobre as ciências naturais e as ciências sociais. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XX, n. 160, maio 2017. Disponível em: <http://ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=18919>. Acesso em nov 2017.