REGÊNCIA: NAMORAR, CONDENAR, PRECISAR, LEMBRAR

 

--- O verbo namorar é intransitivo? Está correto eu dizer: José namora com Maria? G., Itajubá/MG

 

A regência gramatical do verbo namorar é SEM a preposição, e é essa a exigida em alguns concursos. Em outros termos: de acordo com a norma-padrão, o verbo namorar é transitivo direto. Mas modernamente, por analogia e tendo por modelo casar com e noivar com, também se usa o verbo namorar preposicionado (transitivo indireto). Portanto, ambas as regências devem ser aceitas como corretas:

 

José namorou muitas moças.

 

José namora com Maria.

 

Como intransitivo – isto é, sem complemento verbal – o verbo namorar pode ser utilizado no sentido de “andar de galanteios, ter namorado(a)”:

 

Maria namorou uma única vez na vida.

  

--- Sempre tive dúvida quanto à regência do verbo condenar. Ele pede a preposição em ou a? Assim, qual seria a construção correta: O juiz condenou-o AO ou NO pagamento de R$ 1.000,00? Gabriela S. de Souza, Florianópolis/SC

 

No sentido de “sentenciar, proferir sentença condenatória contra”, este verbo é transitivo direto (de pessoa) e indireto: condenar alguém A. Exemplos: O juiz o condenou ao pagamento de mil reais/ condenou-o à prisão perpétua / foi condenado a degredo / condenou a ré a dois anos de prisão / condenou-as ao cumprimento de pena compatível com o crime perpetrado.

 

A preposição EM pode ser usada apenas com complemento de tempo especificado: O juiz condenou-o em 20 meses de prisão/ em nove anos de prisão. Se não mencionar número específico e em qualquer dos outros casos, portanto, empregue a preposição A.

  

--- Precisar é transitivo direto, indireto ou bitransitivo? Eu preciso dinheiro ou preciso de dinheiro? Preciso estudar ou preciso de estudar? Márcio da Silva Florencio, Joinville/SC

 

é tudo isso, Márcio. E todos os seus exemplos estão corretos. Contudo, o mais usual no Brasil contemporâneo é:

 

-- usar a preposição quando o complemento verbal é um substantivo ou pronome:

 

Preciso de dinheiro. Preciso de você.

 

-- omitir a preposição quando o complemento é um verbo no infinitivo:

 

Preciso ir. Precisamos sair já.

 

E lembro que já não se fala em bitransitivo, mas em “transitivo direto e indireto”.

 

--- Tenho dúvidas acerca do uso do verbo lembrar. Sei que quando o verbo é transitivo direto, não cabe “lhe”, e sim “o”. Ex.: eu o conheço ao invés de eu lhe conheço. Mas na frase: Lembro-lhe que as precauções foram tomadas, devo colocar Lembro-o que as precauções foram tomadas? Carlos Augusto Albuquerque, São Paulo/SP

 

O verbo lembrar pode ter objeto direto de pessoa e indireto de coisa – você lembra alguém de alguma coisa: (1) Devo lembrá-lo de que todo cuidado é pouco.

 

E também pode ter objeto direto de coisa e indireto de pessoa (não necessariamente nessa ordem) – você lembra alguma coisa a alguém: (2) Devo lembrar-lhe que sua missão ainda não terminou.

 

Acontece que a preposição DE pode ser omitida na frase (1), conforme ensina Celso Luft no seu Dicionário Prático de Regência Verbal: “A seqüência lembrar-se de que... faculta a elipse da preposição: ‘Não se lembra a sogra que já foi nora’ (Prov.), i. é., ...de que já foi nora.” Então, é essa omissão da preposição que pode dar a falsa noção de dois objetos diretos na frase “Lembro-o que as precauções foram tomadas”, que apesar de tudo continua correta.


* Maria Tereza de Queiroz Piacentini - Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros "Só Vírgula", "Só Palavras Compostas" e "Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades" - www.linguabrasil.com.br

 
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