A geração do usar e jogar fora: a mercantilização da felicidade e suas implicações ambientais

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Resumo: O presente estudo tem por objetivo analisar a atual situação da sociedade de consumo, onde as pessoas são forçadas a consumir excessivamente. A pesquisa foi realizada com amparo no direito ambiental e na filosofia, visando demonstrar as consequências ambientais do consumismo e sua relação com a felicidade e a qualidade de vida dos indivíduos. Para isso, a metodologia aplicada foi a bibliográfica, embora haja uma escassez de livros a esse respeito, trazendo informações históricas, técnicas e filosóficas acerca do tema.

Palavras-chave: consumismo; felicidade; obsolescência programada; sustentabilidade;

Abstract: This study aims to analyze the current situation of the consumer society, where people are forced to consume excessively. The research was conducted with support in environmental law and philosophy, aiming to demonstrate the environmental consequences of consumerism and its relationship to happiness and quality of life of individuals. For this, the methodology applied was the literature, although there is a shortage of books in this regard, bringing historical information, technical and philosophical on the subject.

Keywords: consumerism; happiness; planned obsolescence; sustainability;

Num passeio aos shoppings ou qualquer outro ponto comercial de qualquer cidade que tenha uma população ávida pelo consumo, nota-se que ir as compras se tornou uma terapia para aqueles que buscam a cura dos males da sociedade contemporânea.

Mas porque essa multidão estoura o limite do cartão de crédito, faz financiamentos e empréstimos a perder de vista para comprar algo um pouco mais novo e um pouco antes do necessário?

O dogma por trás do consumismo é mais antigo do que se possa imaginar.  

A obsolescência programada está inserida na sociedade desde os anos 20 sobre os reflexos da revolução industrial, que nesta época se encontrava em sua segunda fase – século XIX até 1945 – e hoje nos encontramos na terceira fase, que é conhecida como o pós Segunda Guerra Mundial.

Nesta fase as indústrias passaram a desenvolver produtos em grande escala e com a vida útil reduzida para aumentar as vendas.

Novos métodos de construção passaram a ser utilizados visando apenas que os produtos tivessem a qualidade inferiorizada, reduzindo sua durabilidade, forçando engenheiros e designers da época a ir de encontro aos seus valores e objetivos.

O primeiro vilão da Obsolescência programada foi a lâmpada.

O documentário espanhol Comprar, Tirar, Comprar – em Portugal, A Conspiração da Lâmpada – trata sobre a obsolescência programada. O documentário viaja para alguns países da Europa e para os Estados Unidos a fim de entrevistar pessoas envolvidas de alguma forma com essa que se tornou uma das bases da economia moderna. (DANNORITZER, 2015).

O documentário informa que em 1924, reuniram-se em Genebra poderosos fabricantes de lâmpadas vindos de todo o planeta. Entre eles, a alemã Osram, a holandesa Philips e a espanhola Teta, para formar o primeiro cartel mundial, denominado Phoebus.

O cartel consistia em criar um plano estratégico para redução da vida útil das lâmpadas, com o intuito de se manterem no mercado mundial, obrigando todos os fabricantes a se adequarem a nova norma, caso contrário, eram multados severamente.

Como surtiu efeitos positivos nos lucros após a diminuição da vida útil das lâmpadas, Phoebus passou a diminuir ainda mais a durabilidade das lâmpadas, passando de 2500 horas, para 2000 horas, e em seguida para 1500 horas de duração, até que na década de 40, as lâmpadas passaram a durar apenas 1000 horas.

Nas décadas seguintes vários modelos de lâmpadas foram desenvolvidas, garantindo a durabilidade de até cem mil horas, porém nunca chegaram a ser comercializadas e alguns inventores foram até ameaçados de morte se ousassem a comercializá-las.

Após a fabricação de lâmpadas com a vida útil reduzida, quase todos os demais produtos passaram a ser fabricados com a tecnologia voltada para durar menos.

Com a nova ideia posta em prática, sempre haveria espaço no mercado para novos produtos e manteria o equilíbrio da economia e ainda, asseguraria emprego à população.

Todavia naquela época não se pensava em sustentabilidade, porque os recursos naturais para produção em massa eram abundantes e era inimaginável esgotá-los.

Hoje a obsolescência programada é uma das maiores causadoras de impacto ambiental que ocorre por todo o planeta. Além da exploração dos recursos há o problema do descarte inapropriado desses novos produtos pouco duráveis.

Todavia, os problemas não param por aí.

Na atualidade, as pessoas são facilmente influenciadas pelo consumo excessivo. Todos querem ter o celular de última linha, as roupas das grandes grifes, o carro do ano com mais tecnologia.

Veja-se, ainda que haja a fabricação de produtos construídos para durarem menos, há um dogma enraizado na sociedade que induzem as pessoas se desfazerem dos produtos que já possuem – e que ainda funcionam – para adquirir produtos mais novos.

É a venda da felicidade através do consumo. 

Não é difícil ver-se excluído da sociedade por não ter o tênis da marca em evidência, por não possuir o smartphone do momento ou apenas por dirigir um veículo com mais de dez anos de uso.

Acontece que os grandes líderes da indústria e até mesmo o governo fomenta a ideia de que a felicidade das pessoas está internamente ligada ao poder de compra.

Não é difícil o governo reduzir os impostos para induzir as pessoas a comprarem veículos ou eletrodomésticos novos, e veicularem informações positivas sobre o governo e que aumentando o poder de compra da população, serão estes mais felizes.

A indústria bombardeia a sociedade diariamente nos veículos de comunicação para que adquiram cada vez mais os seus “inovadores produtos” imprestáveis, utilizando para isso, o mais alto poder de persuasão e investimentos milionários em publicidade e propaganda.

Todos os dias escutam-se as tão conhecidas frases clichês: seja feliz, e adquira já! Torne sua vida mais fácil, compre agora! Mais tranquilidade para sua família, utilize nossos produtos! Não fique fora dessa!

A comercialização da felicidade a todo custo.

Todo o indivíduo já presenciou a ansiedade alheia ou até mesmo a sua própria, que é a sensação sentida quando se quer muito comprar algo. Este objeto se materializa como a realização de um sonho naquele instante.

Quando chega o dia da grande aquisição, o sentimento não poderia ser outro, é só felicidade. Errado!

A felicidade que é demonstrada ao se adquirir um produto tão desejável é na verdade apenas mera satisfação momentânea, e não reflete diretamente na felicidade como qualidade de vida.

Quantos arrependimentos de compra vivenciados? Quantos objetos foram para o lixo ou se encontram guardados no sótão por perderem sua utilidade?

A qualidade de vida, e por consequência sua felicidade, envolve muito mais do que o simples comprar, mas sim envolve o bem espiritual, físico, mental, psicológico e emocional, além de relacionamentos sociais, como família e amigos e também a saúde, educação, poder de compra, habitação, saneamento básico e outras circunstâncias da vida.

O Grupo de Qualidade de Vida da divisão de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde – OMS, coordenada pelo Dr. Marcelo Pio de Almeida Fleck, médico psiquiatra, definiu qualidade de vida como: "a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações" (WHOQOL GROUP, 1994).

Embora haja diversos instrumentos de medida de qualidade de vida, a OMS desenvolveu um projeto de estudos internacional e o resultado deste projeto foi a elaboração do WHOQOL-100, um instrumento de avaliação de qualidade de vida composto por 100 itens, divididos em seis domínios e 24 subdomínios (WHOQOL GROUP, 1994), quais sejam:

I – Domínio físico: 1. Dor e desconforto; 2. Energia e fadiga; 3. Sono e repouso.

II – Domínio psicológico: 4. Sentimentos positivos; 5. Pensar, aprender, memória e concentração; 6. Auto-estima; 7. Imagem corporal e aparência; 8. Sentimentos negativos.

III – Nível de Independência: 9. Mobilidade; 10. Atividades da vida cotidiana; 11. Dependência de medicação ou de tratamentos; 12. Capacidade de trabalho.

IV – Relações sociais: 13. Relações pessoais; 14. Suporte (Apoio) social; 15. Atividade sexual.

V- Ambiente: 16. Segurança física e proteção; 17. Ambiente no lar; 18. Recursos financeiros; 19. Cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade; 20. Oportunidades de adquirir novas informações e habilidades; 21. Participação em, e oportunidades de recreação/lazer; 22. Ambiente físico: (poluição/ruído/trânsito/clima); 23. Transporte.

VI- Aspectos espirituais/Religião/Crenças pessoais: 24. Espiritualidade/religião/ crenças pessoais.

É com base nestes dados e nas respostas dadas pelos indivíduos é que se pode aferir a qualidade de vida de determinados grupos na sociedade em geral.

Veja-se que o poder de compra também está inserido na pesquisa, mas não é o divisor de águas para determinar o quão feliz é o sujeito, logo não se pode dizer que a felicidade está relacionada ao quanto o indivíduo possui de riquezas, nem mesmo o seu poder de compra.

É o que ensina um dos maiores pensadores da atualidade, o sociólogo polonês Zygmunt Balman, ao falar em uma entrevista a respeito de frustrações, tédio e do que chama de substitutos de satisfação: […] “lojas vendem alívio de curto prazo, substitutos das satisfações que buscamos e precisamos, como viagens que oferecem fuga e descanso momentâneo. No entanto, por mais que nos aventuremos pelo mundo das compras ou façamos viagens exóticas, aquilo que procuramos continuará ausente”. (BALMAN, 2015).

Para Balman, há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz: uma é a liberdade e a outra é segurança.

Entretanto ressalta que ainda não existe uma fórmula de ouro – a mistura correta desses valores – uma vez que quando se tem muita segurança, perde-se a liberdade, e quanto se tem muita liberdade, entrega parte de sua segurança. Sempre haverá o ganhar e perder.

Balman ressalta que as pessoas são infelizes porque não possuem um planejamento de vida. O sujeito não sabe o que fará no ano seguinte, se quer tem metas para alcançar até que o ano próximo bata a sua porta.

O tédio e o desanimo são circunstâncias que ocorrem devido a falta de capacidade individual de estruturar os caminhos a serem percorridos ao longo da vida, que aos poucos ao alcançar pequenas vitórias ou realizações pessoais, o indivíduo pode ser feliz de fato.

Aonde se quer chegar com este emaranhado de informações é que a vida que se leva atualmente é insustentável. A uma, porque o planeta não tem recursos naturais suficientes para manter este modelo de sociedade por mais muito tempo. A duas, porque a atual sociedade individualista e consumista não prospera com relação a felicidade e qualidade de vida dos indivíduos.

Após a criação da Organização das Nações Unidas – ONU, em 1945, houve apenas quatro conferências mundiais em que se discute meio ambiente e sustentabilidade.

A primeira foi a Conferência Mundial sobre Homem e o Meio Ambiente em 1972, em Estocolmo, na Suécia.

Vinte anos depois, em 1992, no Rio de Janeiro, a segunda conferência mundial tratou sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida como ECO-92. Trouxe consigo a criação da Agenda 21, que consiste em ações para execução no século 21, assinada por 179 países.

Em 2002, acontecia a terceira conferência em Joannesburgo, na África do Sul, intitulada Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, conhecida como Rio+10, marcada pelo objetivo de rever as metas propostas pela Agenda 21.

E por fim, a quarta e última Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a chamada Rio+20, ocorrida no Rio de Janeiro em 2012, que renovou o compromisso político com o desenvolvimento sustentável.

As conferências tem grande importância para as questões ambientais, pois é por meio destes encontros que se pode levar um pouco de informação sobre as parcerias e metas acordadas pelos países integrantes.

Porém, já se sabe quais são as causas e os causadores dos danos ambientais e já se conscientizou a população sobre o seu dever de cidadão em cuidar do meio ambiente.

Por que ainda não existe a solução para o problema?

O fato é que devemos sim consumir menos! Mas infelizmente apenas se discute a respeito de conscientização, e não sobre o que realmente importa, que é o custeio e o incentivo a pesquisa científica voltados a amenizar os impactos ambientais pelas indústrias e acabar de vez com o dogma de que a felicidade e qualidade vida são sinônimos de consumo. Em outras palavras, resta saber quem vai pagar a conta.

As indústrias devem olhar a natureza como modelo de produção sustentável, renovável. Veja o exemplo: no outono, as folhas das árvores secam e se desprendem, caindo sobre a terra, rios e mares. Está singela folha seca não irá poluir, pois servirá de nutriente para outros organismos. A própria natureza cuida de ensinar o que se deve fazer.

Economicamente isto tem um alto custo. Mas veja-se que o faturamento das indústrias não ficará prejudicado, bastando que este custo efetivamente seja repassado ao consumidor.

Atualmente, o que se repassa como custo aos consumidores é a mão de obra e os custos normais de produção, não se coloca o custo real dos recursos naturais utilizados até que o produto chegue até a prateleira das lojas.

Explico. Veja-se outro exemplo: o petróleo utilizado para fornecimento de energia possui um valor comercial. Todavia o custo desse recurso natural é muito maior que seu valor comercial. Primeiramente porque a natureza levará determinado tempo para repor aquilo que lhe foi retirado e em segundo lugar, depois de sua utilização, irá poluir. É o valor gasto para reverter essa poluição causada e o tempo de regeneração da natureza que será o real custo do recurso natural.

A contabilização do custo real dos recursos naturais é uma medida que deve ser adotada pelas indústrias para assim continuarem a obter lucros e manter os empregos aos cidadãos, sem afetar o meio ambiente.

Mas como serei feliz consumindo menos?

Imagine seus netos, bisnetos e tataranetos, nos próximos cem anos, sofrendo com a escassez de alimento e água. Tente explicar a eles o modelo de vida que você levava. Vivendo sobre a abundância de recursos naturais, todavia desperdiçados devidos aos caprichos desnecessários que a sociedade à época possuía. É esta a herança que irá deixar?

Os seres humanos necessitam buscar novas formas de reencontrar sua identidade, sua inclusão sob o aspecto cultural, que antigamente se dava com o contato com a terra, a vivência próxima com a comunidade.

Antes de inventar os televisores e os smartphones, pasmem, as pessoas se sentavam no conforto de suas casas para conversarem, compartilharem seus anseios, sonhos e metas.

O reencontro aquelas antigas satisfações pode substituir a ânsia pelo consumo inconsciente, a história nos mostra que sempre foi assim. De repente o simples ato de plantar uma flor, uma reunião familiar no final de semana ou um passeio com seu cão poderá lhe trazer mais felicidade do que uma visita ao shopping.

Mas com o intuito de não esgotar o tema e racionalizar o mesmo em sociedade, este autor não poderia finalizar este trabalho sem que o leitor reflita sobre uma pergunta que não quer calar: se a felicidade está nos bens que consumimos, porque ainda somos tão infelizes?

Referências
BAUMAN, Zygmunt. Vida Liquida. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2007.
BRASIL. Rio +20. Disponível em <http://www.rio20.gov.br> Acesso em 07/05/2015.
DANNORITZER, Cosima. Documentário Comprar, Tirar, Comprar. Arte France, Televisão Espanhola e Televisão Catalunia. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=JVRjnvv5UNk> Acesso em 07/05/2015.
REVISTA SCIENTIFIC AMERICAN MENTE E CÉREBRO. Entrevista Zigmunt Balman. Disponível em <http://www2.uol.com.br/ vivermente/artigos/lojas_vendem_alivio__a_curto_prazo-html> Acesso em 07/05/2015.
RIO GRANDE DO SUL. WHOQOL Group. Disponível em <http://www.ufrgs.br/psiquiatria/psiq/whoqol.html> Acesso em 07/05/2015.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Editora Martin Claret, 2006.

Informações Sobre o Autor

Cleyton Eduardo de Souza

Advogado graduado pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI


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