Ecologia e arte: breves considerações

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Nenhum homem é uma ilha, inteiro e completo em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo. Se um torrão for levado pelo mar, a Europa ficará menor e incompleta, tanto quanto se um promontório o tivesse sido, da mesma forma como se a propriedade de um amigo ou a sua própria tivesse sido. A morte de qualquer homem diminui-me a mim, pois eu sou parte da humanidade, e por isso digo-lhe: nunca procure saber por quem o sino dobra; ele dobra por você. (John Donne [1572-1631], Meditação XVII)


O presente artigo faz reflexões a respeito da questão ecológica, estabelecendo contraponto ao enfoque adotado pelos meios de comunicação, concluindo pela importância da recuperação do sentido real da ecologia, ressaltando que, em face desse objetivo, a arte concorre decisivamente, pois gera condições para que o homem aperfeiçoe o seu processo cognitivo, no sentido da cultura.


Vivemos dias difíceis ultimamente. Notícias veiculadas nos meios de comunicação dão conta da destruição da camada de ozônio, da devastação da Amazônia onde queimadas criminosas consomem vastas extensões de terras, muitas vezes do tamanho de alguns países da Europa, visando adequar a terra para a pecuária ou para o plantio de culturas economicamente viáveis, os rios agonizam dramaticamente, os cartões-postais da nação, como as praias do Rio de Janeiro, são degradados pela poluição, as minorias são violentamente discriminadas e violentadas nas grandes cidades, tal qual o índio Pataxó queimado nas ruas da Capital Federal e, no nosso quintal, um navio* de aluguel derrama, impunemente, ácido sobre o nosso manancial hídrico, flora e fauna marinha. São notícias que vendem, notícias que dão lucro, que informam mas não mais sensibilizam o homem moderno quanto à gravidade do momento que passa a humanidade. (*) Alusão ao caso Bahamas no porto de Rio Grande/RS.


A notícia que também pode ser sinônimo de informação, perdeu o seu sentido original de servir como ilustração e alerta. Atualmente, a notícia é tida como um produto, objeto de compra e venda, ou mercadoria que ajuda a vender outros produtos. Os variados meios de comunicação não mais têm a informação como objetivo de fundo. Em realidade, a informação transformou-se em mais um dos vários produtos dos meios de comunicação, que formatam a notícia de modo que seja atrativa para o gosto do consumidor. E mais, de acordo com a melhor estratégia capitalista, este produto deve ainda possuir o predicado de arrastar, na sua esteira, outras mercadorias aptas para o ávido consumo dos ouvintes, telespectadores, leitores, internautas etc… Tanto é assim que a mídia, representada pela maioria dos meios de comunicação, transformou-se um poderoso outdoor onde, misturado com a informação, que também é objeto de consumo, anunciam-se os mais diversos produtos, que podem variar de bens até idéias.


Como exemplo desta prática, vale referir que, na mídia televisiva, os horários de custo mais elevado, para a produção de anúncios publicitários, são aqueles que medeiam os tele-jornais, levados em horário nobre, onde, diariamente, cenas de catástrofes ecológicas e miséria humana se alternam com eloqüentes apelos visando o induzimento ao consumo.


O perigo desta estratégia de veiculação combinada, envolvendo informação e marketing, resulta, dentre outras conseqüências danosas, na banalização da violência contra a natureza e, finalmente, na grande ameaça à ecologia, em face da não apreensão do que nela é essencial. A banalização da agressão à natureza consubstancia-se, de modo concreto, na medida em que os meios de comunicação garantem, para uma catástrofe ecológica a mesma linearidade enfática de um acontecimento corriqueiro. Assim, a morte de um rio ou o incêndio criminoso de uma reserva ecológica são, vulgarmente, apresentados como fatos normais e distantes, descolados da realidade do homem. Logo, por mais nefastos que sejam tais incidentes, da forma que são apresentados, não têm o condão de causar estranheza, não chocam e, portanto, não informam no sentido pedagógico do termo.


Quanto à ameaça de desagregação da ecologia com a sua essência, é importante trazer à lembrança o alerta de Manuel Antônio de Castro[1] que aponta para o grande interesse dos meios de comunicação em face da questão ecológica, sobretudo porque é um assunto que gera consumo. Neste sentido, o referido autor alude que a mídia, de um modo geral, tende a dar um enfoque equivocado para a questão, destacando demais uma certa concepção neo-romântica[2] da natureza, desviando a atenção dos seus aspectos verdadeiramente essenciais.


Aprofundando mais sobre o tema, Castro afirma que: “A ecologia não é, primordialmente, um problema econômico e político, mas sim, um problema de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com as coisas. Na problemática dessas relações advém a dimensão econômica e política.”  Para consolidar o seu entendimento, de que “a ecologia implica o sentido do homem e do universo em seu ser”, o autor passou a buscar o significado da palavra ecologia. Assim, percorrendo e confrontando os vários significados possíveis dos termos gregos Oikos: habitação, família, raça, derivado de oikizein: instalar, construir, fundar  e Logia: dizer, anunciar, ler, ordenar, constatou que em nenhum momento a palavra natureza surge como sinônimo de ecologia. Ao revés, depreendeu que o significado que mais se aproxima do termo ecologia é habitação.


Portanto, é de se concluir que a habitação como sinônimo de ecologia deve ser construída, fundada, em face do conjunto de atividades e produções do homem. Tais atividades e produções, que resumem tudo que o homem faz, pensa, sente e crê, caracteriza a cultura. Através de sucessivos atos culturais o homem demarca o seu espaço, define e ocupa o seu lugar no contexto universal, enfim, vai edificando a sua habitação.


A essência da ecologia, que os meios de comunicação ameaçam em nome de uma análise neo-romântica e simplória da natureza, consiste, fundamentalmente, na busca constante da compreensão do homem ante a sua habitação. Em outras palavras, consiste na eterna busca de harmonização do homem com o seu tempo, com a sua conjuntura.[3]


A cultura é a grande ferramenta que gera o conhecimento e possibilita que o homem descubra a sua essência ecológica, não apenas se identificando com as coisas da natureza, mas deixando estas serem para articulá-las numa habitação.


A ecologia na sua essência está ligada ao conhecimento e à cultura, que por sua vez conecta-se com o sentido das palavras habitar, cultivar e cultuar. A busca da noção de ecologia como habitação determina a necessidade de que o homem, tendo como vetores a cognição e a cultura, se reconheça a partir do contraste vital com o seu semelhante. Vital, porquanto o homem necessita da vivência alheia para o fim de, na diferença, definir a sua própria identidade, se motivar a ausência do outro corre o risco de perder o paradigma e inviabilizar a sua existência[4].


Ainda em face deste contexto de procura da essência da ecologia como habitação, há que se destacar a arte como sendo um elo catalisador do processo cognitivo humano e, portanto, gerador de cultura.  A arte, no dizer de Rogel Samuel[5], embora se configure por meio de uma percepção sensível, transitória, ganha perenidade, porque seu verdadeiro significado se aloja no permanente que a obra dissimula. Opera-se uma síntese que avoca o sensível e o trans-sensível, o transitório e o permanente. Nesse sentido, e ainda segundo o referido autor, a obra-de-arte funciona, pois, numa provocação do intelecto humano, e pode ser considerada fenômeno, permanente e transferível.


Logo, num contraponto ao enfoque equivocado que os meios de comunicação destinam à ecologia é de se concluir pela importância da recuperação do seu significado real e, em face desse objetivo, cumpre também atentar que a arte concorre decisivamente, pois gera condições para que o homem aperfeiçoe o seu processo cognitivo, trabalhando com abstrações e concretizações[6], no sentido do alcance da cultura, sustentáculo essencial da habitação. 


 


Bibliografia consultada:

CANDIDO, A. 1964. Os parceiros do rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos meios de vida. -Rio de Janeiro: José Olympio (Coleção Documentos Brasileiros, 118).

CASTRO, Antônio de Castro. Ecologia: A Cultura como Habitação. In SOARES,   Angêlica (org).   Ecologia  e  Literatura. -Rio de Janeiro: Tempo-Brasileiro, 1992.

DIEGUES, Carlos Antônio.   O mito moderno da natureza intocada. – São Paulo: HUCITEC, 1996.

GUATTARRI, Félix. As três Ecologias; tradução Maria C.F. Bittencourt.-Campinas, SP: Papirus, 1990.

PESSOA, Fernando,   1888 – 1935.  Ficções  do  interlúdio / 4:  poesias de Álvaro de Campos. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

REIGOTA, Marcos.  O que é educação Ambiental.  –  São Paulo: Ed Brasilense, 1996.

SAMUEL, Rogel (org) .  Manual de Teoria Literária; Arte e Sociedade.-  Petrópolis: Vozes, 1984.

 

Notas:

1 CASTRO, Antônio de Castro. Ecologia: A Cultura como Habitação. In SOARES, Angêlica (org). Ecologia e Literatura. Rio de Janeiro: Tempo-Brasileiro, 1992.

[2] “Em minha opinião, a ecologia ambiental, tal como existe hoje, não fez  senão iniciar e prefigurar a ecologia  generalizada que aqui preconizo e que terá por finalidade descentrar radicalmente as lutas siciais e as maneiras de assumir a própria psique. Os movimentos ecológicos atuais têm certamente muitos méritos, mas penso que na verdade, a questão ecosófica global é importante demais para ser deixada a algumas de suas correntes arcaizantes e folclorizantes, que às vezes optam deliberadamente por recusar todo e qualquer engajamento político em grande escala. A conotação da ecologia deveria deixar de ser vinculada à imagem de uma pequena minoria de amantes da natureza ou de especialistas diplomados. Ela põe em causa o conjunto da subjetividade e das formações de poder capitalísticos – os quais não estão de modo algum seguros que continuarão a vencê-la, como foi o caso na última década.”

GUATTARRI, Félix. As três Ecologias; tradução Maria  C.F. Bittencourt.–Campinas, SP: Papirus, 1990.

[3] “Magia, medicina simpática, invocação divina, exploração da fauna e da flora, conhecimentos agrícolas fundem-se num sistema que abrange, na mesma continuidade, o campo a mata, a semente, o ar, o bicho, a água e o próprio céu. Dobrado sobre si mesmo pela economia de subsistência, encerrado no quadro dos agrupamentos vicinais, o homem aparece ele próprio como segmento de um vasto meio, ao mesmo tempo natural, social e sobrenatural.”

CANDIDO, A. 1964. Os parceiros do rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos meios de vida. Rio de Janeiro: José Olympio (Coleção Documentos Brasileiros, 118).   

[4] Ele era o dono da tabacaria.

  Um ponto de referência de quem sou.

  Eu passava ali de noite e de dia.

  Desde ontem a cidade mudou.

PESSOA, Fernando, 1888–1935.  Ficções do interlúdio/4: poesias de Álvaro de Campos.– Rio  de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

[5] SAMUEL, Rogel (org) .  Manual de Teoria Literária; Arte e Sociedade. Petrópolis: Vozes, 1984.

[6] Abstrações        Concretizações

   imaginário>        forma

   mito>                  rito

   inconsciente>   consciente

   língua>               linguagem            

Informações Sobre o Autor

Francisco José Soller de Mattos

Advogado no Rio Grande/RS
Professor de Direito civil na Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG/RS
Especialista em Direito Civil e Empresrial – INPG
Mestre em Eucação Ambiental pela FURG/RS


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