Culpa do senhor radar

O homem deve pensar, pode divergir, mas, antes de tudo deve ser
tolerante. Das idéias, nem sempre convergentes, brota a imensa variedade de
pensamentos que norteiam a humanidade e lhe abrem o caminho da verdade.

Diariamente,
lêem-se, nos jornais e na mídia em geral, reclamações e violentas agressões ao
radar, móvel ou imóvel, também chamados de pardais. Não há um dia sequer que as
colunas do leitor não estejam recheadas com essas falsas e hipócritas lamúrias.
Vez ou outra, rarissimamente, alguém, com bom senso, se lembra de defender dos
ataques inflamados esses “maléficos caça níqueis”, como andam dizendo por aí!

Culpam-se as
autoridades e estes instrumentos sofisticados e modernos, frutos do
desenvolvimento científico e tecnológico, e o próprio Código de Trânsito
Brasileiro e a legislação complementar, pelas penalidades, atravancamento de
trânsito e, pasmem, pela impossibilidade de os infratores, maus motoristas e
criminosos em potencial, pagarem as multas que merecem, pois – vociferam – se o
fizerem, ficarão sem o leitinho das suas pobres criancinhas!

Argumentam, em seu
favor, que não podem arcar com esse pesado ônus, já que ficarão sem seu
instrumento de trabalho – o carro – ou, então, metade de seus salários terá o
destino inglório de cobrir essa injusta e maldita pena. Os mais aquinhoados, de
qualquer forma, não se importam de pagar esse tributo aos “deuses do mal”, mas
põem-se a lamentar ou vomitam seu mau humor sobre os outros. Ou, ainda,
fazem-se de pobres vítimas. Coitadinhos!

É o absurdo dos
absurdos. É de estarrecer. Ninguém teria que pagar a multa nem ser penalizado,
se não violasse, flagrantemente, a lei, ou choramingar porque não foi avisado
de que o pardal existe em determinado local, para, então, o imprudente
apressadinho diminuir a velocidade e, logo em seguida, aumentá-la e correr
doidamente.

Basta ter paciência
e reparar nos malucos do trânsito. Só faltava esta.

É como dizer à
criança “não bata no irmãozinho, porque o papai está aqui, ao seu lado”. Vale
dizer, se o papai sair, pode bater, porque ninguém verá nem há vigilância.

Infelizmente, esta
é, senhoras e senhores, a mentalidade insana que domina nossa sociedade. É
preciso acabar com essa neurastenia e com a impunidade, de uma vez por todas.
Não há que contemporizar com a ilegalidade.

Lembro-me de que,
há anos, recém-chegado a Brasília, levei meu automóvel, um velho e saudoso
fusca, ao Coqueiro, o mago das regulagens, e seu jovem filho, que já prometia
alçar-se às alturas do profissionalismo de seu pai, enquanto dirigia o veículo,
para testá-lo, disse, com toda a simplicidade:

– Dotô, está vendo
aquele cara, correu tanto, cometeu suas imprudências, costurou todo mundo e lá
está ele paradinho, no sinal, esperando, e nós, afinal, chegamos ao mesmo
lugar, e estamos só um pouquinho atrás dele e viemos com toda a segurança!

Respondi-lhe,
atordoado, pela inusitada observação:

– É, você tem
razão, meu rapaz, eles correm, correm, avançam os sinais, ultrapassam
indevidamente, fazem suas barbeiragens, por que e para que?

Quanta sabedoria,
quanta verdade numa só frase, num só pensamento, simples, sem bordado, sem
malícia. Jamais me esquecerei dessas sábias palavras. Tão singelas, mas tão
esquecidas por tantos outros.

Afinal, se o limite máximo da
velocidade não condiz com a realidade, há meios legais de se peticionar às
autoridades competentes para que analisem a viabilidade de elevá-lo e, então,
façam a devida alteração. Se não tomarem conhecimento, existem remédios legais
para sanar isto. Se a arrecadação é ilegal, pelo modo que se faz, corrija-se
esta. Se há corrupção, como se alega, que se responsabilizem os corruptos e
corruptores, para que sejam punidos.

Sem duvida, o Ministério Público
haverá de agir contra essas autoridades e maus gestores da coisa publica,
porque leis existem aos milhares. Basta que sejam bem aplicadas, com extremo
rigor e justiça, sem contemplação. Não é necessário encherem-se os baús com
novos diplomas que falam a mesma língua, sob pena de não serem levadas a sério.
Aprimorem-se e cumpram-se as já existentes.

 O que não pode é o motorista, simplesmente,
violar a lei impunemente e ainda desejar o beneplácito pelo mal que pratica ou,
simplesmente, procurar os maus políticos que dão guarida a seus instintos, em
véspera de eleições ou porque também comungam de suas idéias e atos. E quem
passa vexame é o fiel cumpridor da lei. Chamam-no de bobo, trouxa, boboca. Até
parece!

Há de se exclamar:
Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?” (Até quando, ó
Catilina, abusarás de nossa paciência?”)


Informações Sobre o Autor

Leon Frejda Szklarowsky

escritor, poeta, jornalista, advogado, subprocurador-geral da Fazenda Nacional aposentado, especialista em Direito do Estado e metodologia do ensino superior, conselheiro e presidente da Comissão de Arbitragem da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Distrito Federal, juiz arbitral da American Arbitration Association, Nova York, USA, juiz arbitral e presidente do Conselho de Ética e Gestão do Centro de Excelência de Mediação e Arbitragem do Brasil, vice-presidente do Instituto Jurídico Consulex, acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (diretor-tesoureiro), da Academia de Letras e Música do Brasil, da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal, da Academia de Letras do Distrito Federal, da Associação Nacional dos Escritores, da Academia Brasileira de Direito Tributário e membro dos Institutos dos Advogados Brasileiros, de São Paulo e do Distrito Federal, Entre suas obras, destacam-se: LITERÁRIAS: Hebreus – História de um povo, Orquestra das cigarras, ensaios, contos, poesias e crônicas. Crônicas e poesias premiadas. JURÍDICAS: Responsabilidade Tributária, Execução Fiscal, Medidas Provisórias (esgotadas), Medidas Provisórias – Instrumento de Governabilidade. Ensaios sobre Crimes de Racismo, Contratos Administrativos, arbitragem, religião. Condecorações e medalhas de várias instituições oficiais e privadas.


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