Regressão, barbárie e ofuscamento: as bases da dialética do esclarecimento

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Resumo: Trata o presente artigo, a partir de uma leitura da obra “A Dialética do Esclarecimento” dos autores expoentes da chamada Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, acerca de três conceitos basilares na referida obra, com foco na explanação destes conceitos e construção crítica efetuada pelos autores a partir de uma estrutura epistemológica, de uma organização social ocidental, pautadas em essência no capitalismo do século XX. Assim, ao discutir os conceitos de regressão, barbárie e ofuscamento, o texto explana aos leitores as bases da dialética do esclarecimento e possibilita o aprofundamento de diversos outros temas correlacionados a questão, como a situação dos trabalhadores, a estrutura social e a indústria cultura hodierna.

Palavras-Chave: Dialética do Esclarecimento . Regressão. Barbárie. Ofuscamento.

Abstract: This current article, from a reading of "The Dialectic of Enlightenment" the authors called exponents of the Frankfurt School, Max Horkheimer and Theodor Adorno, about three basic concepts in that work, focusing on explanation of these concepts construction and criticism made ​​by the authors from an epistemological structure of a Western social organization, in essence ruled in twentieth-century capitalism. Thus, when discussing the concepts of regression, barbarism and blurring, the text explains to readers the basics of the dialectic of enlightenment and enables the deepening of several other topics related to question, as the situation of workers, social structure and culture industry today.

Keywords: Dialectic of Enlightenment. Regression. Barbarism. Obfuscation.

Sumário: Introdução. 1- O conceito de esclarecimento. 2- As bases da Dialética do Esclarecimento: Regressão, Barbárie e Ofuscamento. Comentários à guisa de conclusão. Referências.

Introdução

Podemos afirmar que as noções de “regressão”, “barbárie” e “ofuscamento’ são a base para a compreensão de todo um edifício conceitual que marca a crítica à razão instrumental e a concepção da dialética do esclarecimento.

A frase pode até soar como um exagero linguístico, mas basta uma revisão nas obras que marcam o debate sobre as principais correntes teóricas que fazem uma crítica ao modernismo para que vislumbre a tomada de posição dos mais diversos autores do século XX em relação a especificidades históricas , especialmente a segunda metade do citado século,  e as novas dinâmicas sociais que marcam o período e que também diz respeito ao desenvolvimento de novas formas de tecnologia e comunicação.

Para melhor compreender este panorama, se faz necessária duas revisões: uma história e outra conceitual.

A primeira revisão diz respeito à necessidade de se compreender rapidamente a trajetória da Escola de Frankfurt que marca a fundamentação de uma teoria crítica e da dialética do esclarecimento.

Criado oficialmente em 03 de fevereiro de 1923 com o nome de “Instituto de Pesquisa Social”, vinculado à Universidade de Frankfurt, teve por fundamento a ideia de um grupo de estudiosos da Alemanha, a partir de uma semana de estudos marxistas realizados na Turíngia em 1922, de elaborar um trabalho de documentação e teorização dos movimentos operários na Europa.

Dentre os primeiros estudiosos vinculados ao instituto, destacam-se Friedrich Pollock, Felix Weil (filho de um produtor de trigo alemão, que mantinha seus negócios na Argentina e financiava as atividades do Instituto), Georg Lukács e Carl Gruenberg.  Este último seria o primeiro diretor do Instituto e seria posteriormente substituído por Max Horkheimer, em 1930, momento em que o Instituto converteu-se em real centro de pesquisas sobre análises críticas do capitalismo, com a divulgação de seus estudos através da “Revista de Pesquisa Social”, em substituição à antiga editoração que trava do arquivo da história do socialismo e do movimento operário. É neste período que agregam-se ao Instituto nomes que formarão a geração mais conhecida da Escola de Frankfurt como: Adorno, Marcuse, Walter Benjamin, Fromm, entre outros articulistas.

Em 1933, com a ascensão do nazismo, o Instituo em Frankfurt é fechado por atividades consideradas hostis ao Estado, tendo ainda sido confiscados mais de 60.000 volumes de livros de sua biblioteca (FREITAG, 2004, p. 23).

A partir da perseguição nazista, diversos membros do Instituto são obrigados a deixar a Alemanha, marcando assim um período de produção nos Estados Unidos (1933-1950), É nesse momento, marcado pelos horrores da guerra, do holocausto e do anti-semitismo que fundamentaram a perseguição a diversos estudiosos que compunham o quadro do Instituto (como Walter Benjamin, judeu, que suicidou-se após uma frustada tentativa de fuga) que Adorno e Hokheimer elaboram “A Dialética do Esclarecimento” sobre o qual versa este trabalho.

1- O conceito de esclarecimento:

Já a segunda revisão, de caráter conceitual, visa compreender o ponto inicial da dialética do esclarecimento e versa, sobre a compreensão do que é “esclarecimento”.

A base essencial para essa compreensão do que significa “esclarecimento” pode ser encontrada em um texto denominado “Resposta à pergunta: o que é o Aufklärung?(KANT, 2005, p. 27). redigido pelo filósofo alemão Imannuel Kant em 1783, seis anos antes da Revolução Francesa que apregoava os princípios da Igualdade , Liberdade e Fraternidade.

No celebre texto, Kant explicita o conceito de esclarecimento (Aufklärung) como o processo pelo qual o homem atinge a sua maturidade e emancipação intelectual, superando a ignorância e preguiça de pensar e criticando o processo de inculcação de prevenções nos intelectualmente menores pelos intelectualmente maiores (padres, governantes, superiores hierárquicos e etc..).

Observador dos acontecimentos que antecedem a revolução francesa, Kant defende a supremacia da razão e da liberdade sobre a menoridade intelectual, a incapacidade de servir-se do próprio entendimento. Para isso é preciso ter coragem para procurar o conhecimento e examinar sempre o que lhe é transmitido, abandonando-se assim a preguiça, a covardia e o comodismo. Assim, os homens atingiriam, pela razão, a sua emancipação e maioridade (Muendigkeit).

Por outro lado, os frankfurtianos, em especial Adorno e Horkheimer, embora compartilhem da noção de que o esclarecimento está diretamente atrelado a um processo de racionalização pelo qual os homens libertam-se do receio de uma natureza desconhecida, na qual fundamentam aspectos míticos e ocultos para explicar o decorrer de suas vidas, em favor de um processo de conhecimento e controle dos acontecimentos da natureza, operando assim numa desmitologização, ou ainda “desencantamento do mundo”, também assumem um posicionamento contrário à ideia ilusória de que o projeto do iluminismo garantiu a emancipação do homem.

É imperioso acrescentar que indo além das previsões de Kant quanto a liberdade pelo esclarecimento, que também vincula-se a toda uma tradição do século XVIII que atrela o conhecimento à emancipação (Iluminsimo) os frankfurtiniamos rompem a barreira do otimismo e estabelecem uma posição crítica e cética sobre as relações entre o conhecimento, a ciência e evolução da sociedade. Reconhecem assim que a razão transformou-se em mera técnica, convertendo-se em razão instrumental, e portanto, repressiva, voltando-se contra suas vertentes emancipatórias, defendida a cabo pelos autores do Século das Luzes, e perpassando todo o pensamento filosófico de Kant a Hegel.

2- Os conceitos de regressão, barbárie e ofuscamento:

É a partir dessa visão crítica que Adorno e Horkheimer irão conceber sua dialética do esclarecimento, e em especial, irão pontuar as questões da regressão, da barbárie e do ofuscamento. Esta visão crítica pode ser muito bem contemplada no prefácio de “A dialética”, quando Adorno e Hrokheimer (1985, p. 08) afirmam “ o que nos propusemos era de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade , em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano está se afundando numa nova espécie de barbárie.”

Compreendidos estes dois momentos, podemos então passar as três categorias que marcam o discurso sobre a dialética do esclarecimento e como estas categorias interagem entre si na formação de uma crítica da modernidade.

O sentido da regressão a que referem-se Adorno e Horkheimer traduz-se na busca pelo sentido da ciência e não apenas na sua atividade. Para eles, a perda da inocência em face dos costumes e a transformação da opinião pública em mercadoria, levaram a autodestruição do esclarecimento. Essa autodestruição não foi causada pelo retorno a mitologias pagãs, ou outras mitologias modernas, mas no próprio pensamento esclarecedor que ao adotar um caráter extremamente pragmatizado perde sua capacidade de superação e também sua relação com a verdade. Daí porque se torna um conhecimento paralisado e paralisante das massas movidas apenas pela educação tecnológica a desprovidas de qualquer compreensão do pensamento teórico atual.

Se por um lado o progresso econômico, construído a partir da maior produtividade econômica alcançada pelo capitalismo, poderia derivar em um mundo mais justo, por outro lado, tem possibilitado que uma parcela da sociedade ainda detenha não somente os meios de produção econômica, mas os meios de produção tecnológica e comunicativa, de modo que ainda que haja a elevação do padrão de vida das classes inferiores, estas continuam subjulgadas ao continuarem aquiescendo com a indústria de bens culturais distribuídos unicamente para fins de consumo. Fica evidente que o esclarecimento vincula-se a uma questão ideológica e na técnica de produção de difusão devidamente calculada. Assim, o progresso converte-se constantemente em regressão. Nos dizeres de Adorno e Horkheimer (1985, p.11):“Por outro lado, a adaptação ao poder do progresso envolve o progresso do poder, levando sempre de novo àquelas formações recessivas que mostram que não o malogro do progresso, mas exatamente o progresso bem-sucedido que é culpado de seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão”.

O que temos aqui então é um circulo vicioso em que o mito tornou-se esclarecimento, e essa é a marca da razão (como defendiam os Iluministas), mas esta mesma razão transformou-se numa razão instrumental, desprovida da emancipação, e retornando ao estado mitológico de doravante.

Esse retorno um estágio mitológico é evidenciado na noção de ofuscamento interpretada a partir da Odisseia de Homero, especificamente em seu duodécimo canto, que retrata a astúcia de Ulisses para desvencilhar-se do canto das sereias. Com vistas a evitar a catástrofe que poderia ser causada pelo encatamento das sereias, que tombavam os navios ao garantir que esses fossem estraçalhados contras os rochedos, Ulisses determina que lhes amarrem ao mastro do navio e utiliza cera para vedar os ouvidos de seus marinheiros, evitando assim que atendam suas ordens de desatrelarem-no, bem como evitam sejam eles também encantados pelo canto das criaturas maravilhosas. Para garantir que escaparão, Ulisses determina que seus marinheiros continuem a remar incansavelmente.

No conto mitológico evidenciam-se então duas marcas para o alcance da civilização: a obediência e o trabalho. As chances de escapar estão diretamente vinculadas a obediência cega às ordens do senhor. Os trabalhadores só tornam-se práticos na medida em que concentram-se, olhando para frente sempre. Na outra extremidade, mas não menos importante na formação do processo de ofuscamento está o papel do senhor que deve também tornar-se inerte a qualquer consequência, devendo garantir a impossibilidade de que qualquer manifestação sua em favor da modificação do plano incialmente traçado seja ouvida.

Transmutando a mitologia nos processos de dominação marcados pelas relações de trabalho, o resultado é cíclico e marcado pela noção de que nem o senhor pode abandonar-se, e tampouco participa da relação de trabalho em si. Dessa feita, a divisão de trabalho reforça a imaturidade (ausência de esclarecimento) dos proletários, nutrido a hipermaturidade da sociedade, e causando o empobrecimento da experiência em favor de uma produção do conhecimento pautada na unanimidade. Concluem os autores (ADORNO, HORKHEIMER, 1985. p. 47):“A regressão das massas que hoje se fala nada mais é senão a incapacidade de poder ouvir o imediato com os próprios ouvidos, de poder tocar o intocado com as próprias mãos : a nova forma de ofuscamento  que vem substituir as formas míticas superadas”.

É nesse contexto que a racionalidade instrumental saí de sua concepção teórica e transforma-se em horror concreto. Somente com a compreensão de que é com a essência do esclarecimento (entendido aqui como sinônimo de uma razão instrumental) que se pode compreender o processo de dominação que torna possível a busca por uma análise do processo de barbárie que marca a ultima metade do século XX. Conforme explicita Francis Wolff (2004, p. 35):“Talvez exista algo pior, uma barbaria maior ainda. Um povo, uma nação, um homem, pode chegar ao cúmulo da barbárie dando mostras, por outro lado, de um refinamento ou de uma polidez extremos (sendo civilizados, no primeiro sentido), e de uma altíssima cultura (sendo civilizados, no segundo sentido). È o caso da Alemanha nazista e das condições em que ocorreu um dos crimes mais bárbaros da história, o extermínio de judeus e ciganos. Que esse genocídio tenha ocorrido no país de Goethe e Schiller, de Kant e Hegel, de Bethoven e Schubert, ou seja, algumas das sumidades da civilização ocidental, só acrescenta mais horror à barbárie. Havia, é claro, torturadores nazistas sanguinários e ignorantes. Mas não era o perfil dominante. Foi um crime desproporcional, mas cometido racionalmente, industrialmente, por burocratas frios e militares polidos”.

O que se pode depreender dos conceitos colacionados até aqui é que toda a fundamentação da dialética do esclarecimento apresentada por Adorno e Horkheimer têm por objetivo entender e buscar explicar, dentro de uma sociedade em colapso, não somente a atividade da ciência, mas o seu sentido.

3- Comentários à guisa de conclusão:

Essa discussão será o mote das mais diversas produções dos autores que se vincularam a Escola de Frankfurt ou que partem da teoria da razão crítica para analisar a relação entre razão, conhecimento e sociedade moderna. A razão e seu movimento dialético ocuparam boa parte dos discursos travados por autores como Adorno, Popper, que em 1961 discutiram sobre o positivismo e a dialética, passando por Habermas e Luhmann, quando da discussão sobre a razão sistêmica e a razão comunicativa e continua em tempos hodiernos, com autores que sacodem o establishment como Sloterdijk, e seu trabalho mais incômodo denominado “As regras do parque humano” ou ainda o esloveno Slavoj Zizek e seu “Homo otarius”. Ambos continuam a discutir sobre a teoria crítica e como a idéia da razão iluminista materializou-se na moderna sociedade burguesa, com o diferencial da ironia e das metodologias pouco ortodoxas[1].

Dessa feita, o discurso é atualíssimo. Marca da contemporaneidade, a ausência de referenciais seguros (perda do sentido) de conhecimento e emancipação impõem a retomada de um pensamento crítico que discuta, ainda que em meio a uma constante modificação dos meios de cultura e tecnologias, sobre até que ponto somos capazes de nos considerarmos emancipados pela razão, e portanto, livres. Em meio a uma enxurrada de informações, em grande parte assépticas e politicamente corretas, como possibilitar um discurso esclarecedor?

Longe de encerrar a discussão sobre o esclarecimento e a relação entre a razão crítica e a razão instrumental, Adorno e Horheimer construíram as bases para a elaboração e continuidade de todo o arcabouço teórico existente hodiernamente sobre a questão.

 

Referências Bibliográficas.
ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. RJ: Zahar. 1985.
FREITAG, Barbara. A teoria crítica ontem e hoje.5ª ed. SP: Brasiliense, 2004.
KANT, Immanuel. Textos Seletos. 3ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005
MARQUES, José Oscar de A. “Sobre as Regras para o parque humano de Sloterdijk”. Natureza humana, v. IV, n. 2, 2002.
WOLFF. Francis. Quem é bárbaro?. In: NOVAES, Adauto (org). Civilização e Barbárie. Cia. Das Letras: São Paulo, 2004.
 
Nota:
 
[1] Os métodos pouco convencionais e a fala ácida desse autores tem lhes valido grandes críticas por parte do maisntream filosófico-político atual. Sloterdijk publicou cartas no jornal Die Zeit acusando publicamente Habermas de difundir nos meios acadêmicos mensagens denegrindo as idéias defendidas por Sloterdijk.  Habermas, em resposta, afirmou seu desinteresse pelas idéias de Sloterdjik. Embora nunca tenham se encontrado, Peter Sloterdijk firmou-se como um dos mais atuantes provocadores de Habermas, ainda que essa provocação tenha se convertido num monologo. (sobre a matério no Die Zeit consultar: MARQUES, José Oscar de A. “Sobre as Regras para o parque humano de Sloterdijk”. Natureza humana, v. IV, n. 2, 2002. Disponível em: http://www.unicamp.br/~jmarques/pesq/Sobre_as_regras_para_o_parque_humano.pdf. Acesso em: 05.04.2012.

Informações Sobre o Autor

Flávia L. G. Marçal Pantoja de Araújo

Profa. Assistente da Universidade Federal do Oeste do Pará, vinculada ao Programa de Ciências Jurídicas. Doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Pará. Consultora da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos –SDDH


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