Espaço e tempo na sociedade em rede

0

Resumo: No presente trabalho será analisado o surgimento da sociedade em rede, a ascensão da tecnologia digital e a lógica de sua comunicação, bem como referendar que a transformação em curso estabelece novo paradigma cultural e social para a sociedade contemporânea, ao relativizar a noção de espaço e tempo do homem e alterar a percepção de mundo.

Palavras-chave: Sociedade em rede. Virtualidade real. Espaço de fluxos. Tempo intemporal.

Abstract: In this paper will analyze the emergence of the network society, the rise of digital technology and the logic of their communication and endorse the ongoing transformation establishes a new cultural and social paradigm for contemporary society, to relativize the notion of space and human time and change the perception of the world.

Keywords: Networked society. Real virtuality. Space of flows. Timeless Time.

Sumário: Introdução. 1. A cultura da virtualidade real. 2. O que é espaço e tempo?. 3. Espaço e tempo na contemporaneidade. 4. Espaço e tempo na sociedade em rede. 5. Espaço de fluxos. 6. Tempo intemporal. Conclusão.

Introdução:

A partir da segunda metade do século XX e início do século XXI, vivenciamos o desenvolvimento da era da informação e da sua consectária, a sociedade em rede[1], que se assenta na visão de mundo interligado digitalmente em escala planetária possibilitada pelas inovações tecnológicas como o microprocessador, a comunicabilidade por satélites, a comunicação mediada por computadores(internet) e a transmissão de dados via fibra ótica.

Estes novas conquistas tecnológicas estabeleceram novos paradigmas comportamentais e uma série de mudanças sociais e culturais comunicativas observadas na sociedade contemporânea conectada em rede, alterando as noções intuitivas de espaço e tempo da razão humana notadamente em decorrência da disponibilidade de amplo acesso ao fluxo de transmissão de conhecimentos e informações que trafegam no espaço cibernético de forma instantânea e remotamente para qualquer lugar do mundo.

1.  A cultura da virtualidade real

Quanto à dimensão da transformação tecnológica e sociocultural que a sociedade contemporânea está a experimentar com relação às novas possibilidades comunicativas, Manuel Castells[2] compara o estágio atual com o que representou para o homem o surgimento do alfabeto e da escrita fonética das línguas, esclarecendo os passos dados em sequência:

“Por volta do ano 700 a.C. ocorreu um importante invento na Grécia: o alfabeto. Essa tecnologia conceitual, segundo os principais estudiosos clássicos como Havelock, constituiu a base para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência como a conhecemos hoje. Tornou possível o preenchimento da lacuna entre o discurso oral e o escrito, com isso separando o que é falado de quem fala e possibilitando o discurso conceitual. Esse momento histórico foi preparado ao longo de aproximadamente três mil anos de evolução da tradição oral e da comunicação não-alfabética até a sociedade grega alcançar o que Havelock chama de um novo estado de espírito, “o espírito alfabético”, que originou a transformação qualitativa da comunicação humana. A alfabetização só se difundiu muitos séculos mais tarde, após a invenção e difusão da imprensa e fabricação de papel. No entanto, foi o alfabeto que no ocidente proporcionou a infra-estrutura mental para a comunicação cumulativa, baseada em conhecimento.

Contudo, a nova ordem alfabética, embora permitisse discurso racional, separava a comunicação escrita do sistema audiovisual de símbolos e percepções, tão importante para a expressão plena da mente humana. Ao estabelecer – implícita e explicitamente –uma hierarquia social entre a cultura alfabetizada e a expressão audiovisual, o preço pago pela adoção da prática humana do discurso escrito foi relegar o mundo dos sons e imagens aos bastidores das artes, que lidam com o domínio privado das emoções e com o mundo público da liturgia. Sem dúvida, a cultura audiovisual teve sua revanche histórica no século XX, em primeiro lugar com o filme e o rádio, depois com a televisão, superando a influência da comunicação escrita nos corações e almas da maioria das pessoas. (…)

Uma transformação tecnológica de dimensões históricas similares está ocorrendo 2.700 anos depois, ou seja, a integração de vários modos de comunicação em uma rede interativa. Ou, em outras palavras, a formação de um hipertexto e uma metalinguagem que, pela primeira vez na historia, integra no mesmo sistema as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação humana.  O espírito humano reúne suas dimensões em uma nova interação entre os dois lados do cérebro, maquinas e contextos sociais. Apesar de toda a ideologia da ficção científica e a publicidade comercial em torno do surgimento da chamada Infovia, não podemos subestimar sua importância. A integração potencial de texto, imagens e sons no mesmo sistema – interagindo a partir de pontos múltiplos, no tempo escolhido (real ou atrasado) em uma rede global, em condições de acesso aberto e de preço acessível – muda de forma fundamental o caráter da comunicação. E a comunicação, decididamente, molda a cultura porque, como afirma Postman “nós não vemos … a realidade … como ‘ela’ é, mas como são nossas linguagens. E nossas linguagens são nossos meios de comunicação. Nossos meios de comunicação são nossas metáforas. Nossas metáforas criam o conteúdo de nossa cultura. Como a cultura é mediada e determinada pela comunicação, às próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos são transformados de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico e o serão ainda mais com o passar do tempo. (…)

O surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo seu alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura. (…)

Afirmo que por meio da poderosa influência do novo sistema de comunicação, mediado por interesses sociais, políticas governamentais e estratégias de negócios, está surgindo uma nova cultura: a cultura da virtualidade real (…).”

Assim, em um primeiro estágio da comunicação humana embora a criação do alfabeto tenha propiciado o incremento da interação social e o desenvolvimento cumulativo do conhecimento ao longo da história, restava cindida a comunicação escrita do sistema audiovisual de símbolos e percepções sensoriais que complementam parte importante da expressão da mente humana e que ficavam restritas à fugacidade de performances de artes cênicas como teatro; dança; música, comédia; circos etc.

A partir do século XX, com advento da comunicação de massa iniciada com o rádio e predominantemente com a televisão, houve a superação da comunicação escrita para uma integração de vários modos de comunicação em uma nova modalidade de interação escrita, oral e audiovisual, a qual alterou o paradigma cultural surgido na Grécia antiga, gerando o que Manuel Castells chama de tensão entre a comunicação alfabética versus comunicação sensorial não-meditativa.

E que a evolução comunicativa seguiu se desenvolvendo e acabou por atingir o estado da arte neste início de século XXI com a conexão da sociedade em uma rede interligada de comunicação (escrita, oral e audiovisual) mediada por computadores, que espraia sua influência globalmente e induz o surgimento de uma “cultura de virtualidade real” caracterizada por integrar textos, imagens e sons no mesmo meio comunicativo, com possibilidade de interação entre as pessoas a partir de diversas fontes no tempo real ou atrasado.

  Aqui é importante observar que com as novas tecnologias da comunicação ínsitas à sociedade em rede, os usuários ultrapassam a categoria de meros receptores coletivos de conteúdo de comunicação de massa(rádio e tv); agora a interação comunicativa entre as pessoas nas mídias sociais digitais passa a alcançar intersubjetividade, ao possibilitar a troca de opiniões, discussões e debates sobre a informação recebida(“inputs”) na rede e influenciar(“outputs”) a propagação da mensagem para usuários conforme a performance da intervenção.

Não nos olvidando de destacar ainda que a diversidade mundial das fontes comunicativas, bem como o poder de penetração da mensagem multissensorial gerada(texto, som e imagem juntos), foi também engrandecido pela capilaridade do meio digital e seu poder de inserção, de propagar comunicação na velocidade de sinapses.

Mormente no tocante à formação da cultura da virtualidade real, pois parte-se do pressuposto de que todas as culturas decorrem de uma interação comunicativa que é necessariamente mediada por códigos ou elementos simbólicos[3]; e que no universo digital, ao contrário de nossa experiência histórica (cronológica), todas as manifestações culturais passadas, presentes e futuras acabam sendo representadas e que esta virtualidade(“colagens de imagens”) acaba por se transformar na realidade contemporânea. Na explicação de Manuel Castells[4]:

Então, o que é um sistema de comunicação que, ao contrário da experiência histórica anterior, gera virtualidade real? É um sistema em que a própria realidade(ou seja, a experiência simbólica/material das pessoas) é inteiramente captada, totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais no mundo do faz-de-conta, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência, mas se transformam na experiência. Todas as mensagens de todos os tipos são incluídas no meio porque este fica tão abrangente, tão diversificado, tão maleável, que absorve no mesmo texto multimídia toda a experiência humana, passado, presente e futuro, como naquele ponto único do Universo que Jorge Luís Borges chamou de ‘Aleph’[5]. (…)

O que caracteriza o novo sistema de comunicação, baseado na integração em rede digitalizada de múltiplos modos de comunicação é sua capacidade de inclusão e abrangência de todas as expressões culturais. Em razão de sua existência, todas as espécies de mensagens do novo tipo de sociedade funcionam em um modo binário: presença/ausência no sistema multimídia de comunicação. Só a presença nesse sistema integrado permite a comunicabilidade e a socialização da mensagem. Todas as outras mensagens são reduzidas à imaginação individual ou às subculturas resultantes de contato pessoal, cada vez mais marginalizadas. (…)

É precisamente devido a sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as forma de expressão, bem como a diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais.

A inclusão da maioria das expressões culturais no sistema de comunicação integrado baseado na produção, distribuição e intercâmbio de sinais eletrônicos digitalizados tem consequências importantes para as formas e processos sociais. Por um lado, enfraquece de maneira considerável o poder simbólico dos emissores tradicionais fora do sistema, transmitindo por meio de hábitos sociais historicamente codificados: religião, moralidade, autoridade, valores tradicionais, ideologia política. (…)

As sociedades ficam final e verdadeiramente desencantadas por que todos os milagres estão on-line e podem se combinados em mundos de imagens autoconstruídas.

Por outro lado, o novo sistema de comunicação transforma radicalmente o espaço e o tempo, as dimensões fundamentais da vida humana. Localidades ficam despojadas de seu sentido cultural, histórico e geográfico e reintegram-se em redes funcionais ou em colagens de imagens, ocasionando um espaço de fluxos que substitui o espaço de lugares. O tempo é apagado no novo sistema de comunicação já que passado, presente e futuro podem ser programados para interagir entre si na mesma mensagem. O espaço de fluxos e o tempo intemporal são as bases principais de uma nova cultura, que transcende e inclui a diversidade dos sistemas de representação historicamente transmitidos: a cultura da virtualidade real, onde o faz-de-conta vai se tornando realidade.”

Assim, além de alterar a apreensão da realidade, sobre a qual o homem organiza e planeja seu modo de viver, na cultura da virtualidade real os conhecimentos de espaço e tempo intuitivos ao homem são sobrepujados por uma meta-realidade de experiências (em sentido oposto ao de vivenciar) construídas digitalmente.

Esta meta-realidade espaço-temporal tem capacidade inclusive para construir um meio de atuação paralela à realidade ao levar pessoas a interagir e desenvolver identidades e idiossincrasias inerentes ao funcionamento da rede cibernética[6].     

  Em abordagem que se coaduna com as transformações sentidas na cultura da virtualidade real em um mundo globalizado, Tércio Sampaio Ferraz Junior[7] tem a acrescentar que a relativização da noção de espaço e tempo também se espraia para os demais subsistemas sociais envolvidos, pois:

“São múltiplos os sentidos da globalização, ora percebidos pelo modo como são afetados os subsistemas sociais(globalização econômica, política, jurídica, religiosa, cultural), ora pelos instrumentos de atuação(globalização tecnológica, organizacional, comunicacional), ora pela alteração das formas de apreensão da realidade, em que espaço e tempo parecem sobrepor-se(globalização territorial, de simultaneidade dos eventos em qualquer espaço).

É difícil encontrar nessa multiplicidade uma espécie de denominador comum. A tentativa mais corrente é a de enxerga-lo na ascensão da informação, como centro organizador de suas diferentes manifestações. A informação é vista, assim, como um meio de interconexão de quaisquer atividades humanas, capaz de gerar uma nova concepção antropológica: o homo “informaticus”. Na sua base está a concepção do ser humano como um ser que se comunica, sendo este o sentido de sua existência.”

Além do novo paradigma tecnológico simbólico, uma série de mudanças comportamentais ligadas à sociabilidade[8] e a cultura[9] está a influenciar a sociedade contemporânea que se comunica em rede, notadamente frente à relativização das balizas reflexivas de espaço e tempo pelas quais o homem organiza seu pensamento e se situa no mundo; em que exerce a sua facticidade; em que desenvolve suas relações pessoais.

2. O que é o espaço e o tempo?

Para Martim Heidegger[10] espaço e tempo estão ligados à reflexão sobre a finitude humana, onde cada época tem uma forma de lhe dar com os sinais dos tempos, de se situar com o passado, relacionando-o com o seu presente, a fim de interpretar os acontecimentos do mundo e obter um sentido para sua existência:

“(…) o modo como uma época (o hoje ocasional) vê e aborda o passado(o ser-aí próprio ou de qualquer outro passado), quer resguardando-o ou renunciando-o, é o sinal de como o presente se relaciona consigo mesmo, de como o ser-aí é ou está em seu ai. Tal consideração não é mais que uma formulação determinada de um dos caracteres fundamentais da facticidade, de sua temporalidade”[11]

Em sua exposição metafísica, Immanuel Kant aduz que espaço e tempo não são coisas nem impressões sensíveis; são conhecimentos “a priori”[12], inerentes às faculdades humana. Espaço e tempo, portanto, são potencialidades independentes e precedentes à experiência; são formas pressupostas mediadoras que permitem intuir as impressões sensíveis dos fenômenos, das coisas.

Para Immanuel Kant[13], referindo-se a espaço e tempo como propriedades de nosso espírito que:

“Que são, pois, tempo e espaço? São entidades reais ou são somente determinações ou mesmo simples relações das coisas? E essas relações seriam de tal natureza que eles não cessariam de subsistir entre as coisas, mesmo quando não fossem percebidos como objetos de intuição? (…)

1.° — O espaço não é um conceito empírico, derivado de experiências exteriores. Com efeito, para que eu possa referir certas sensações a qualquer coisa de exterior a mim (quer dizer, a qualquer coisa colocada em outro lugar do espaço diverso do que ocupo), e, para que possa representar as coisas como de fora e ao lado umas das outras, e por conseguinte como não sendo somente diferentes, mas colocadas em lugares diferentes, deve existir já em princípio a representação do espaço. Esta representação não pode, pois, nascer por experiência das relações dos fenômenos exteriores, sendo que estas só são possíveis mediante a sua prévia existência.

2.° — O espaço é uma representação necessária, “a priori”, que serve de fundamento a todas as intuições externas. É impossível conceber que não exista espaço, ainda que se possa pensar que nele não exista nenhum objeto. Ele é considerado como a condição da possibilidade dos fenômenos, e não como uma representação deles dependente; e é uma representação “a priori”, que é o fundamento dos fenômenos externos.

3.° — (…) O espaço é essencialmente uno; a variedade que nele achamos, e, conseqüentemente, o conceito universal de espaço em geral, fundam-se unicamente em limitações. Daqui se segue que o que serve de base a todos os conceitos que temos do espaço, é uma intuição “a priori” (que não é empírica). O mesmo acontece com os princípios geométricos, como quando dizemos, por exemplo, que a soma de dois lados de um triângulo é maior do que o terceiro, cuja certeza apodítica não procede dos conceitos gerais de linha e triângulo, mas de uma intuição “a priori”. (…)

1.° O tempo não é um conceito empírico derivado de experiência alguma, porque a simultaneidade ou a sucessão não seriam percebidas se a representação “a priori” do tempo não lhes servisse de fundamento. Só sob esta suposição podemos representar-nos que uma coisa seja ao mesmo tempo que outra (simultânea), ou em tempo diferente (sucessiva).

2.° O tempo é uma representação necessária que serve de base a todas as intuições. Não se pode suprimir o tempo nos fenômenos em geral, ainda que se possa separar, muito bem, estes daquele. O tempo, pois, é dado “a priori”. Só nele é possível toda realidade dos fenômenos. Estes podem todos desaparecer; mas o tempo mesmo, como condição geral de sua possibilidade, não pode ser suprimido. (…)

6 Corolários destes conceitos

a) O tempo não subsiste por si mesmo, nem pertence às coisas como determinação objetiva que permaneça na coisa mesma uma vez abstraídas todas as condições subjetivas de sua intuição. No primeiro caso, o tempo, sem objeto real, seria sem embargo algo real; no segundo, sendo uma determinação das coisas mesmas, ou uma ordem estabelecida, não poderia preceder aos objetos com sua condição, nem ser conhecido e percebido “a priori” por proposições sintéticas. (…)

b) O tempo é a forma do sentido interno, que quer dizer, da intuição de nós outros mesmos e de nosso estado interior. O tempo não pode ser determinação alguma dos fenômenos externos, não pertence nem a uma figura, nem a uma posição, pois ele determina a relação das representações em nossos estados internos. (…)

c) O tempo é a condição formal “a priori” de todos os fenômenos em geral. O espaço, como forma pura de todas as intuições externas, só serve, como condição “a priori”, para os fenômenos exteriores. Pelo contrário, como todas as representações, tenham ou não por objeto coisas exteriores, pertencem, não obstante, por si mesmas, como esse estado, sob a condição formal da intuição interna, pertence ao tempo, é o tempo uma condição “a priori” de todos os fenômenos interiores (de nossa alma) e a condição imediata dos fenômenos externos.

Se posso dizer “a priori”: todos os fenômenos exteriores estão no espaço e são determinados “a priori” segundo as relações do espaço, posso afirmar também em um sentido geral e partindo do princípio do sentido interno: todos os fenômenos em geral, quer dizer, todos os objetos dos sentidos estão no tempo, e estão necessariamente sujeitos às relações do tempo. O tempo é um pensamento vazio (nada) se fazemos abstração de nossa maneira de intuição interna, do modo como compreendemos todas as intuições exteriores em nossa faculdade de representar (mediante essa intuição), e tomamos, por conseguinte, os objetos tais como podem ser em si mesmos. (…)

O tempo, que não é senão uma condição subjetiva de nossa intuição geral(sempre sensível, quer dizer, só se produz quando somos afetados pelos objetos), considerado em si mesmo e fora do sujeito, não é nada. É, não obstante, necessária mente objetivo em relação a todos os fenômenos, e por conseguinte, também a todas as coisas que a experiência pode oferecer-nos.”

Assim, pela interpretação Kantiana, pode-se dizer que para que determinadas sensações sejam externas a mim e de onde me encontro no espaço, devo pressupor um noção de espaço(intuição externa); e para que estas sensações sejam representadas de forma simultânea, anterior ou posterior também devo pressupor uma representação cerebrina de tempo(intuição interna).

   Conforme comentário de Otfried Hoffe[14]:

“Espaço e tempo -esse o primeiro argumento, de caráter negativo – não podem derivar da experiência, já que subjazem a qualquer intuição externa ou interna. (…)

Entre as propriedades da percepção externa, encontramos cores, formas e sons, mas não o espaço. Analogamente, os processos psíquicos possuem determinadas qualidades que percebemos em sucessão temporal, sem que alguma destas sensações possua a qualidade do tempo. A este primeiro argumento negativo segue outro positivo: espaço e tempo são representações necessárias. Pois, podemos imaginar um espaço e um tempo sem objetos ou sem fenômenos, mas não que o espaço e tempo não existam. Mesmo na esfera da sensibilidade há algo que já existe ‘previamente’, e não só a partir da percepção empírica. Espaço e tempo se devem à estrutura apriorística do sujeito cognoscente. (…)

Segundo Kant, no entanto, é necessário aquilo que não pode ser de outro modo(B3). Isso acontece com o espaço e o tempo como formas puras da intuição de todo o conhecimento humano. Pois a intuição sensível capta objetos concretos que no caso da percepção externa só podem ser dados como ao lado, atrás ou acima de outros objetos; e no caso da percepção interna, só antes de, junto com ou depois de outros estados internos.”

Em outras palavras, na visão Kantiana a noção de espaço permite intuir que as coisas que se situam na sensibilidade externa estabelecem relações espaciais (ao lado da minha casa; depois da ponte). E o tempo, significa intuir que as impressões meditativas apreendidas internamente se realizam de forma sucessiva (primeiro vou ao teatro, depois vou jantar) em nossa mente. Assim, espaço e tempo são formas “a priori” de conhecimento humano, pelas quais organizamos as impressões sensíveis que recebemos do mundo.

Não obstante a posição metafísica de I. Kant cabe contrapor seu legado com a concepção teórica de G.W. Leibniz[15], que aborda os elementos de espaço e tempo dentro de parâmetros naturais, ao aduzir que:

“Nada é e não é ao mesmo tempo; ou algo é ou não é. Algo que é feito agora, diz respeito a coisas presentes. Mas, encarregar-se agora de algo que é ou passado ou futuro seria o mesmo que estar presente; mas nada é ao mesmo tempo presente e passado, por isso o que está feito não pode ser desfeito, nem algo deixa de ser futuro exceto quando se torna presente.

Não há nada sem uma causa, já que não há nada sem todos os requisitos para que exista. O efeito total é equivalente à causa plena, já que deve haver alguma igualdade entre causa e efeito, que passa de uma para outra. Mas isso consiste nessa equivalência, nem pode uma outra perspectiva ser excogitada. Há apenas um tipo de mundo, ou, não há entidades além dos corpos e mentes, isto é, o que sentimos, nem há quaisquer corpos exceto aqueles que estão a uma certa distância de nós. Pois se houvesse alguns, não se poderia dizer se agora existem ou não existem, o que é contrário ao primeiro princípio. Então, segue-se que nem todos os possíveis existem.

Que o espaço e o tempo são infinitos exige uma demonstração completa. Afirmar que há um tempo sem coisas é nada afirmar, porque a quantidade daquele tempo não pode ser determinada por qualquer sinal. Desde que a causa é equivalente ao efeito, não em perfeição mas em expressão, o encadeamento das criaturas não pode ter começado em algum tempo, mas antes houve sempre algo além de Deus, ou, Deus sempre criou algo[16]. “Meu pai ainda não cessou seu trabalho”. Há uma grande diferença entre um tempo e uma linha. Um intervalo entre dois estados momentâneos, entre o que nada pôde interpor-se, não pode ser determinado de maneira alguma, nem pode ele ser dito como muitas coisas podem estar interpostas; pois por que deveria haver mais? Esse não é o caso do espaço, se por exemplo, um globo está vazio interiormente. Então, aquelas coisas que estão no tempo e entre as quais nada está interferindo, tocam-se. Esse não é o caso do espaço, devido à posição.

Que o espaço é infinito também é provado disto: que qualquer tamanho que seja assumido, não há por que não possa ser feito maior. Mas é evidente que nenhuma razão pode ser dada, já que há no espaço a maior homogeneidade, e sua existência não impede outras coisas. Que alguma coisa era para ser feita é evidente do fato de que alguma coisa foi feita e já que não há razão que determine ou limite seu tamanho, será ela tanto maior quanto possa ser, ou, absolutamente infinita.

O mesmo argumento também prova que não há vácuo, quer intercalado, quer grande, já que é possível para todas as coisas serem preenchidas. Pode-se também dar, de uma outra fonte, uma refutação especial de um grande espaço ultramundano, que é infinito e no qual há um mundo finito; pois essa matéria seria nele dispersa e nunca mais tornaria a ser unida. Admitindo-se a plenitude, os átomos estão demonstrados. Eles também são provados sem a plenitude, da simples consideração do fato de que tudo que é flexível é dividido em pontos. (…)

A melhor prova de que um corpo difere do espaço ou extensão é derivada disso: que não se pode, da extensão unicamente, ou, da noção de comprimento, largura e altura, demonstrar a impenetrabilidade, isto é, demonstrar que duas coisas extensas não podem estar no mesmo lugar, ou, que é impossível para dois sólidos extensos serem congruentes um com o outro, isto é, serem sólidos cujos pontos, dado um deles, não guardam distância de algum ponto do outro.”

Dessarte, com fulcro na conceituação Leibniziana espaço e tempo decorrem de uma perspectiva relacional, onde a espacialidade e a temporalidade têm assento na causalidade entre fenômenos mundanos; independem de serem intuídas transcendentalmente por um sujeito. Espaço e tempo, portanto, não são conhecimentos “a priori”, que precedem os objetos físicos.

Newton C. A. da Costa e Décio Krause[17] esclarecem que Leibniz sustenta sua posição:

“… apregoando que espaço e tempo são ‘certa ordem das coisas’, uma ‘ordem da existência das coisas notadas na simultaneidade delas’, e não existem independentemente das coisas ou, como diz, ‘fora do universo material’. Espaço e tempo, para Leibniz, dependem(são relativos) das coisas; o espaço é feito das relações entre objetos em não pode existir na ausência destes. Da mesma forma, isso acontece com o tempo, e não pode haver tempo anterior ao primeiro evento, à primeira coisa.”

Entrementes, independentemente das concepções filosóficas esposadas, fato é que o ser humano em sua existência ainda desenvolve mentalmente suas simbologias ligadas à noção de espaço como a localidade onde ocorrem os fatos e o tempo como marco do momento em que ocorrem os fenômenos no contexto do passado, presente ou futuro.

Estes elementos embora continuem presentes em nosso cotidiano não mais se encontram aprisionados à realidade dos fenômenos naturais e são relativizados pela tecnologia que invade nossas vidas na sociedade contemporânea, diante do espaço onipresente e o tempo assimétrico que tem vigência nas redes digitais.

3.Espaço e tempo na contemporaneidade

Com relação ao que podemos entender por espaço e tempo nos dias de hoje, Gilvan Luiz Hansen[18] esclarece suas implicações no sentido de que:

“(…) Independentemente de diferenciação quanto à concepção filosófica ou de diversidade cultural, todo e qualquer agrupamento humano organizado tem o conceito de espaço como lugar onde se dá a possibilidade de conhecimento e o conceito de tempo como o momento onde este mesmo conhecimento acontece. As informações são hoje processadas numa velocidade inimaginável em outras épocas; fato vividos num lugar ermo do planeta chegam em milésimos de segundo até nós via satélite; parece já não haver distâncias capazes de deter o conhecimento humano. E tudo isso mexe com nossa percepção de espaço e tempo: vivemos com pressa e o tempo nos foge pelas mãos diante da exiguidade de metas e prazos a cumprir;(…) somos verdadeiramente atropelados por uma torrente de dados e fatos cuja manifestação se nos escapa, pelo simples motivo de que não conseguimos tomar ciência de tanta coisa ao mesmo tempo. (…)

 Conhecimento, espaço e tempo estão, portanto, mutuamente imbricados e indissociavelmente vinculados.(…). A globalização hoje tão propalada e comentada nada mais é do que o efeito de uma caminhada gradativa ocorrida na modernidade, principalmente via desenvolvimento do capitalismo, que tem como pano de fundo a potencial ampliação do espaço de ação humana mediante a otimização do tempo, ou seja, que o ser humano possa produzir e construir cada vez mais seus projetos em um período de tempo o mais reduzido possível. O grande desafio, em  termos políticos, parece ser o de se pensar alternativas de organização político-social capazes de, no menor tempo possível, dar conta de ocupar com qualidade o espaço gerado pelo processo de globalização.(…) Espaço e tempo são elementos a partir dos quais a razão humana organiza o que há; e, embora haja uma ‘naturalidade’ de espaço e tempo em nossa razão, é essa razão quem, em última instância, define o significado do tempo e do espaço não apenas em termos cognitivos, mas principalmente em sua dimensão prática(ética, política, jurídica, estética, educacional (…)”

Constituindo-se em referenciais psíquicos pelos quais nos organizamos, as balizas de tempo e espaço continuam importantes para a sociabilidade e a cultura da sociedade contemporânea e se espraiam para todas as dimensões práticas da vida e muitas vezes passam despercebidas frente à obviedade.

Como exemplo da proximidade com o sentido de tempo utilizamos conceitos como: as estações do ano; o calendário gregoriano; o horário oficial; os fusos horários/Greenwich, jornada de trabalho; a duração do cumprimento das penas; as dimensões de direitos fundamentais[19] etc.. No tocante a construção da concepção de espaço, adotamos referenciais como, por exemplo: propriedade; nacionalidade; país, região, hemisfério norte/sul; local de trabalho; habitação; dimensões de direitos fundamentais etc.

Ou seja, os conceitos de espaço e tempo transbordam suas influências naturalmente para todos os demais subsistemas sociais como a política, as relações jurídica, social, cultural, estética, de trabalho etc..

Assim, estamos vivenciando a construção social de novas noções predominantes de espaço e tempo na contemporaneidade e é importante notar que a visibilidade e velocidade da circulação das informações, conjugada à capacidade de interação comunicativa jamais experimentada pelo homem em sua história, vêm impondo um ‘ritmo’, uma aceleração aos processos desencadeadores das relações econômicas e sociais e, por outro lado, também promovem um desencaixe das manifestações culturais marginalizadas e das localidades renegadas no contexto do sistema de produção econômica capitalista.   

Conforme aduz Anthony Giddens[20]:

“O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termo de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza.  (…)

Por que a separação do entre tempo e espaço é tão crucial para o extremo dinamismo da modernidade? Em primeiro lugar, ela é a condição principal do processo de desencaixe[21] que passo a analisar de maneira breve. A separação entre tempo e espaço e sua formação em dimensões padronizadas, ‘vazias’, penetram as conexões entre a atividade social e seus ‘encaixes’ nas particularidades dos contextos de presença. As instituições desencaixadas dilatam amplamente o escopo do distanciamento tempo-espaço e, para ter este efeito, dependem da coordenação através do tempo e do espaço. Este fenômeno serve para abrir múltiplas possibilidades de mudança liberando das restrições dos hábitos e das práticas locais.

Em segundo lugar, ela proporciona os mecanismos de engrenagem para aquele traço distintivo da vida social moderna, a organização racionalizada. (…)

 As organizações modernas são capazes de conectar o local e o global de formas que seriam impensáveis em sociedades mais tradicionais, e, assim fazendo, afetam rotineiramente a vida de milhões de pessoas.

Em terceiro lugar, a historicidade radical associada à modernidade depende de modos de ‘inserção’ no tempo e no espaço que não eram disponíveis para as civilizações precedentes.(…)

Um sistema de datação padronizado, agora universalmente reconhecido, possibilita uma apropriação de um passado unitário, mas muito de tal ‘história’ pode estar sujeito a interpretações contrastantes. Em acréscimo, dado o mapeamento geral do globo que é hoje tomado como certo, o passado unitário é um passado mundial; tempo e espaço são recombinados para formar uma estrutura histórico-mundial genuína de ação e experiência.  

Na modernidade ocorre uma distensão do tempo e do espaço ínsita à globalização, que é promovida pelas atividades econômicas dominantes conectadas ao redor do mundo e que tem por escopo regrar o cumprimento de tarefas no menor tempo e com o maior retorno possível. Por consequência desta forma de racionalização, impõe-se a desvinculação das atividades às suas localidades –relegadas a ‘espaço vazios’- que sucumbem à influencia ditada pelos centros de poder onde as decisões são tomadas.  

Padronizam-se as relações sociais e econômicas na sociedade contemporânea (supressão de hábitos e práticas locais) para um paradigma globalmente único de espaço e tempo determinado pelos centros de influência ou de poder dominante, impondo uma adaptação espaço-temporal às diversas localidades, suas economias e culturas.

4. Espaço e tempo na sociedade em rede

É no contexto das práticas sociais compartilhadas que Manuel Castells[22] desenvolve sua conceituação de espaço e tempo, a fim de cuidar do tema na sociedade da informação que se comunica em rede:

“Um axioma fundamental da minha investigação é que o tempo e o espaço não podem ser entendidos independentemente da ação social. Dessa forma, temos de definir, em nível geral, o que é espaço do ponto de vista das práticas sociais; depois, deveremos identificar a especificidade histórica das praticas sociais, por exemplo, as da sociedade informacional que é a base do surgimento e consolidação de novas formas e processos espaciais.

Do ponto de vista da teoria social, espaço é o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado. (…) Por praticas sociais de tempo compartilhado, refiro-me ao fato de que o espaço reúne essas praticas que são simultâneas no tempo.(…)

Mas é essencial que separemos o conceito básico de suporte material de práticas simultâneas da noção de contiguidade, a fim de justificar a possível existência de suportes materiais de simultaneidade que não dependam de contiguidade física, visto que é exatamente este o caso das práticas sociais predominantes na era da informação. (…)

Nesse caso, o suporte material dos processos dominantes em nossas sociedades será o conjunto de elementos que sustentam esses fluxos e propiciam a possibilidade material de sua articulação em tempo simultâneo. Assim, proponho a ideia de que há uma nova forma espacial característica das práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede: o espaço de fluxos. O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos. Por fluxos, entendo as sequências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade.”

Logo, importante salientar que aqui o conceito de espaço não está adstrito à noção de localidade geográfica; outrossim, abrange as práticas sociais e de pessoas que se envolvem nas relações sociais e conferem ao espaço cibernético um sentido comunicativo; ou, o espaço na sociedade em rede é o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado e que não dependem da contiguidade física.

E mais especificamente, o “espaço de fluxos” pode-se dizer que são as interações sociais repetitivas e programáveis de informações veiculadas digitalmente e sem a necessidade de contiguidade física, promovida pelos participantes e que se utilizam dos códigos comunicativos ínsitos à sociedade em rede.

5. Espaço de fluxos

Para facilitar a visualização do que é o ‘espaço de fluxos’ na sociedade em rede, Manuel Castells[23] subdivide em 3(três) camadas materiais, respectivamente:

“A primeira camada, o primeiro suporte material do espaço de fluxos, é realmente constituída por um circuito de impulsos eletrônicos(microeletrônica, telecomunicações, processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em alta velocidade – também com base em tecnologias da informação), formando, em conjunto, a base material dos processos que verificamos serem estrategicamente cruciais na rede da sociedade.(…) Portanto, é uma forma espacial do mesmo modo que poderia ser ‘a cidade’ ou a ‘região’ na organização da sociedade mercantil ou da sociedade industrial. (…) Consequentemente, a rede de comunicação é a configuração espacial fundamental: os lugares não desaparecem, mas usa lógica e seu significado são absorvidos na rede. A infra-estrutura tecnológica que constrói a rede define o novo espaço como as ferrovias definiam as ‘regiões econômicas’ e os ‘mercados nacionais’ na economia industrial;(…).

A segunda camada do espaço de fluxos é constituída por seus nós(centros de importantes funções estratégicas) e centros de comunicação. O espaço de fluxos não é desprovido de lugar, embora sua estrutura lógica o seja. Está localizada em uma rede eletrônica, mas essa rede conecta lugares específicos com características sociais, culturais, físicas e funcionais bem definidas. Outros lugares são os nós ou centros da rede, isto é, a localização de funções estratégicas importantes que constroem uma série de atividades e organizações locais em torno de uma função chave na rede. (…)

Cada rede define seus locais de acordo com suas funções e hierarquia de cada local e segundo as características do produto ou serviço a ser processado na rede. Assim, uma das redes mais poderosas de nossa sociedade, a produção e distribuição de narcóticos(inclusive seu componente de lavagem de dinheiro), construiu uma geografia específica que redefiniu o sentido, a estrutura e a cultura das sociedades, regiões e cidades conectadas à rede. Dessa forma, na produção e comércio de cocaína, os locais de produção de coca em Chapare ou Alto Beni, na Bolívia, ou Alto Huallanga, no Peru, estão conectados às refinarias e aos centros de gerenciamento da Colômbia, que até 1995 eram subsidiários das sedes de Medellin ou Cali. E estas últimas, por sua vez, estavam conectadas a centros financeiros como Miami, Panamá, Ilhas Cayman e Luxemburgo e a centros de transporte, a exemplo das redes mexicanas de tráfico de drogas de Tamaulipas ou Tijuana e, finalmente, mantinham conexão com os pontos de distribuição nas principais áreas metropolitanas dos Estados Unidos e da Europa ocidental. Nenhum desses lugares consegue existir por si só na rede. (…)

A terceira camada importante do espaço de fluxos refere-se à organização espacial das elites gerenciais dominantes(e não das classes) que exercem as funções direcionais em torno das quais esse espaço é articulado. A teoria do espaço de fluxos parte da suposição implícita de que as sociedades são organizadas de maneira assimétrica em torno de interesses dominantes específicos a cada estrutura social. (…)

A forma fundamental de dominação de nossa sociedade baseia-se na capacidade organizacional da elite dominante que segue de mãos dadas com sua capacidade de desorganizar os grupos da sociedade que, embora constituam a maioria numérica, vêem(se é que vêem) seus interesses parcialmente representados apenas dentro da estrutura do atendimento dos interesses dominantes. (…) E, resumo: as elites são cosmopolitas, as pessoas são locais. O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história. Portanto, quanto mais uma organização social baseia-se em fluxos aistóricos, substituindo a lógica de qualquer lugar específico, mais a lógica do poder global escapa ao controle sociopolítico das sociedades locais/nacionais historicamente específicas.(…)

… a verdadeira dominação social provém do fato de os códigos culturais estarem embutidos na estrutura social, de tal forma que a posse desses códigos abre o acesso à estrutura do poder sem que a elite precise conspirar para impedir o acesso a suas redes.”

Dessarte, na sociedade em rede além da comunicação social ser parte importante do conceito de espaço, o mesmo deve ser compreendido em 3(três) dimensões: a primeira, como um suporte material de espaço de fluxos de informações mediado por impulsos eletrônicos(comunicação digital); a segunda, por meio de espaço de fluxos contido em seus nós(junções), através de centros estratégicos aglutinadores de comunicação, que estabelecem a divisão geográfica de atuação e influenciam o sentido, a estrutura e a cultura das sociedades, regiões e cidades incluídas na rede; e por terceiro, espaço de fluxos referente à organização espacial das elites dominantes, que estabelecem uma organização social baseada na hierarquia de códigos culturais simbólicos aistóricos, onde as fronteiras interna e externa de sua comunidade são acessados apenas por quem consegue ascender aos códigos de suas redes[24]; passando a fazer parte da identidade espacial cosmopolita.          

Em outras palavras, na sociedade em rede descrita por Manuel Castells, o espaço é compreendido no sentido de espaço da aparência Arendtiano[25]; é onde a comunicação socializante se realiza entre homens, na modalidade da fala, da ação e do discurso. Este ambiente virtual é subdividido em três ordens materiais distintas(espaço de fluxos) que se combinam e se organizam para ocupar globalmente os espaços funcionais da sociedade.     

6. Tempo intemporal

Nas sociedades medievais a noção de tempo era bastante irregular, vez que estava predominantemente associado a eventos importantes para as respectivas culturas nos diversos agrupamentos humanos de antanho, como as comemorações religiosas, festas atribuídas a divindades e entidades da natureza como o sol, a lua, a chegada de estações ligada à colheita, a estiagem etc.

Não se olvide que as manifestações e celebrações destes elementos cumpriam também a função de marcadores temporais nas sociedades antigas, embora o dia-a-dia das pessoas estivesse desvinculado da noção exata de tempo sem maiores consequências.

E na sociedade moderna e predominantemente na contemporânea pode-se dizer que o conceito de tempo cronológico passa a controlar a vida de todas as pessoas nos mais diversos lugares em um paradigma único e global, como elemento vital para o desenvolvimento do sistema econômico capitalista de produção, ínsito à jornada de trabalho mensurada e remunerada em horas.

Na sociedade em rede, embora o tempo (cronológico) continue a racionalizar e determinar nossos afazeres, a tecnologia da informação/comunicação da rede digital busca empreender um processo de controle, de administrar o tempo por meio de práticas econômicas convergentes para o “agora”; para o imediatismo.

Podem ser observados padrões que permitem estabelecer um novo conceito para a relativização da temporalidade, que Manuel Castells[26] denomina como ‘tempo intemporal’; pois:

“Esse tempo linear, irreversível, mensurável e previsível está sendo fragmentado na sociedade em rede, em um movimento de extraordinária importância histórica. No entanto, não estamos apenas testemunhando uma relativização do tempo de acordo com os contextos sociais ou, de forma alternativa, o retorno à reversibilidade temporal, como se a realidade pudesse ser inteiramente captada em mitos cíclicos. A transformação é mais profunda: é a mistura de tempos para criar um universo eterno que não se expande sozinho, mas que mantém por si só, não cíclico, mas aleatório, não recursivo, mas incursor: tempo intemporal, utilizando a tecnologia para fugir dos contextos de sua existência e para apropriar, de maneira seletiva, qualquer valor que cada contexto possa oferecer ao presente eterno. (…)

Comprimir o tempo até o limite equivale a fazer com que a sequência temporal, e por conseguinte, o tempo, desapareça. (…)

O que chamo de tempo intemporal é apenas a forma dominante emergente do tempo social na sociedade em rede porque o espaço de fluxos não anula a existência de lugares. Afirmo que a dominação social é exercida por meio da inclusão seletiva e da exclusão de funções e pessoas em diferentes estruturas temporais e espaciais.”

Assim, como produto do tempo intemporal na sociedade em rede, sua lógica faz convergir diversos tempos (compressão temporal/espacial), para fundir ou alterar seletivamente a sequência natural dos eventos. São realizadas, por exemplo, transações financeiras digitais em frações de segundo que são recombinadas e reinvestidas ininterruptamente nos mercados de capitais sem que haja a alocação física de valores ou necessidade de novas decisões mediadoras; o sistema produtivo já opera mediante temporalidade flexível, para acelerar ou retardar a jornada de trabalho; há  incremento de tempo de trabalho não presencial; promove-se uma cultura virtual globalizada e sentido de instantaneidade de acontecimentos deflagrados durante as 24(vinte e quatro) horas do dia ao redor do mundo. Etc.

Em que pesem estas observações, a posição de Manuel Castells[27] se assenta na conceituação filosófica de Leibniz ao referendar que tempo é a ordem de sucessão entre objetos ou seres, o que possibilita afirmar que sem relacionar as coisas entre si não existiria o sentido de tempo. Vez que:

“O conhecimento atual sobre o conceito de tempo em física, biologia, história e sociologia não parece ter contestado por essa conceitualização sintética e clara. Além disso, podemos entender melhor a transformação atual da temporalidade recorrendo ao conceito leibniziano de tempo. Proponho a ideia de que o tempo intemporal, como chamo a temporalidade dominante de nossa sociedade, ocorre quando as características de um dado contexto, ou seja, o paradigma informacional da sociedade em rede, causam confusão sistêmica na ordem sequencial dos fenômenos sucedidos naquele contexto.(…)

O espaço modela o tempo em nossa sociedade, assim invertendo uma tendência histórica: fluxos induzem tempo intemporal, lugares estão presos ao tempo.”

Dessarte, a lógica da sociedade em rede promove a compressão dos fenômenos para a instantaneidade ou a descontinuidade sequencial de tempo dos acontecimentos relacionados, mudando o paradigma sociocultural.

 Pode ser observada a dissolução do espaço e do tempo cada vez mais aceleradamente ao se verificar o funcionamento da internet e redes sociais (facebook; instagram; whatsapp etc), onde os efeitos da ampla liberdade de comunicação compartilhada globalmente faz surgir desafios para a sociedade remediar a carência por novos direitos, como por exemplo: (i) direito a verdade/faticidade das informações na rede; (ii) direito de não ser incomodado pelo excesso de comunicação deformadora[28]; (iii) direito de não ser induzido ao consumo, mediante análise não autorizada de informações cadastrais[29]; e ainda, (iv) “direito ao esquecimento” na rede, de ser preservado ou não ter exposta informações na rede a seu respeito etc.

Ademais, a sensação de compressão do espaço e tempo também se espraia para a mudança de hábitos com relação à sociabilidade, frente à tendência ao isolamento na comunicação entre indivíduos mediada por computadores; e por outro lado assistamos a um exibicionismo para estar presente na rede(redes sociais). E também ligada à cultura e ao lazer, onde experiências individuais são compartilhadas com anônimos.

Conclusão

A tecnologia ínsita a sociedade ligada em redes digitais de comunicação altera as noções de espaço e tempo da razão humana, promovendo a relativização destas balizas mentais fundamentais e com a qual organizamos o conhecimento, desenvolvemos a cultura, a sociabilidade e nossos projetos de vida.

Na sociedade em rede descrita por Manuel Castells o espaço é compreendido no sentido de espaço público Arendtiano; é onde a comunicação intersubjetiva se realiza entre os homens. Este ambiente é composto por três ordens materiais distintas(espaço de fluxos) que se organizam para ocupar globalmente os espaços funcionais da sociedade.

A sociedade em rede se coaduna com o sistema econômico vigente, pois influencia os fatores de produção capitalista ao estabelecer uma tempo intemporal(temporalidade flexível) para acelerar ou retardar a jornada de trabalho; incrementar o tempo de trabalho não presencial; promover uma cultura virtual globalizada de instantaneidade.

A dissolução do tempo cada vez mais aceleradamente está a acarretar novos desafios para a sociedade em rede, notadamente para regulamentar as demandas decorrentes da ampla liberdade de comunicação compartilhada globalmente, como por exemplo, o direito a verdade das informações veiculadas na rede; direito de não ser induzido ao consumo mediante análise de informações pessoais; o direito ao esquecimento em rede etc.

Há uma mudança de hábitos das pessoas com relação à sociabilidade e a cultura na sociedade em rede, podendo ser observado uma tendência ao isolamento na comunicação socializante entre os indivíduos; e experiências individuais são compartilhadas com anônimos e em tempo real.    

Estas transformações peculiares conduzem-nos a uma necessária reflexão com relação ao redimensionamento dos conceitos de espaço e tempo no contexto da sociedade em rede e de repensar valores culturais como o de “carpe diem”, do poeta Horácio.

 O de viver o hoje (dia-a-dia) e sem preocupações exageradas com o amanhã; desfrutar a vida e os prazeres do momento em que se vive, mas não no sentido de quantidade de experiências acumuladas, mas de qualidade de vivências empreendidas por nós. 

 Perceber neste contexto o enfraquecimento na sociedade do conceito do devir, de realização do Ser ao longo de sua jornada na terra; de resgatar a visão de planejamento que em nossa cultura moldou nossa capacidade de analisar espaço e tempo como integrantes de um processo evolutivo histórico em cujas gerações os acontecimentos tiveram sua contingência e razão ligadas a um lugar em conexão com o seu tempo.

A sociedade em rede desenvolve um tempo próprio no espaço comunicativo e que se replica para os demais subsistemas sociais; é importante ter consciência deste novo paradigma sociocultural, seja para se adaptar, resgatar valores ou construir novos paradigmas como alternativa para o tempo em que vivemos.

 

Referências
AGOSTINHO, Santo. Bispo de Hipona, 354-430. A cidade de Deus(contra os pagãos), Tradução de Oscar Paes Leme, Petrópolis, Rj. Vozes; São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira; Bragança Paulista, SP: Editora Universitaria São Francisco, 2012. Parte II, Capitulo VI, p.35-36.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 11ª edição, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2010. p. 248.
 BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Tradução Carlos Nelson Coutinho; apresentação Celso Lafer. Nova ed., Rio de Janeiro, Elsevier, 2004, 13ª reimpressão. p.33
BORGES, Jorge Luís. O Aleph. É parte integrante da coleção Jorge Luís Borges – obras completas Volume I, Vários tradutores, 1999, Editora Globo S.A, p. 146.:
CANOTILHO. J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 6a. edição, editora Almedina. p. 393.:
CASTELLS, Manuel. Compreender a Transformação Social. p.17/20. Artigo escrito para Conferência de 4 e 5 de Março de 2005, em Portugal-Lisboa, sobre o título: Sociedade em Rede: do Conhecimento à Acção Política, em Conferência promovida pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, organizado por Manuel Castells e Gustavo Cardoso.:
 ________________ . A Sociedade em Rede; tradução Roneide Venacio Majer, atualização para a 6ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999, p.413-414.
COSTA, Newton C.A. KRAUSE, Décio. Espaço e tempo em Filosofia da Ciência. Junho 2011. Conforme: www.cfh.ufsc.br/ndkrause/pg/textos/espaço-tempo.pdf, visitado em 28/05/2014.
FERRAZ JUNIOR. Tercio Sampaio. Estudos de Filosofia do Direito., 3ª ed, São Paulo, 2009, Editora Atlas, p.315/316.
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. Tradução de Raul Filker. São Paulo, editora Unesp, 1991, p.29-31.
  HANSEN, Gilvan Luiz. Espaço e Tempo na Modernidade, Revista Geographia, Vol.2, Nº3, 2000.p.51-65, conforme: www.uff.br/geographia, visitado em 17/04/2014.
HEIDEGGER, Martin. Ontologia (Hermenêutica da facticidade). Tradução de Renato Kirchener, editora Vozes, Petropolis-RJ, 2012. p.43.
HOFFE, Otfried. Immanuel Kant. Tradução Christina Viktor Hamm e Valerio Rohden, São Paulo, Martins Fontes, 2005., p.72-73.
JAPIASSÚ, Hilton. MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia, 3ª ed, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001.
KANT, Emmanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: J. Rodrigues de Merege. Versão eletrônica, créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia),Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/., visitado em 13/06/2014.
LEIBNIZ, G.W. Catena Mirabilium Demonstratiorum De Summa Rerum, nº85 – 12 de dezembro de 1676, nº85, Conforme: http://www.leibnizbrasil.pro.br/leibniz-traducoes/serie-de-maravilhosas-demonstracoes.htm#topo, visitado em 12/06/2014.
 
Notas:
[1]CASTELLS, Manuel. Compreender a Transformação Social. p.17/20. Artigo escrito para Conferência de 4 e 5 de Março de 2005, em Portugal-Lisboa, sobre o título: Sociedade em Rede: do Conhecimento à Acção Política, em Conferência promovida pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, organizado por Manuel Castells e Gustavo Cardoso.: “A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes. A rede é a estrutura formal (vide Monge e Contractor, 2004). As redes são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede.(…) O que a sociedade em rede é actualmente não pode ser decidido fora da observação empírica da organização social e das práticas que dão corpo à lógica da rede”. Conforme: http:www.cies.iscte.pt , visitado em 3 de Setembro de 2013.
[2] CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede; tradução Roneide Venacio Majer, atualização para a 6ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999, p.413-414.
[3]O termo "símbolo", com origem no (grego), designa um tipo de signo em que o significante (realidade concreta) representa algo abstracto (religiões, nações, quantidades de tempo ou matéria, etc.) por força de convenção, semelhança ou contiguidade semântica (como no caso da cruz que representa o Cristianismo, porque ela é uma parte do todo que é imagem do Cristo morto). Charles Sanders Pierce, desenvolveu uma classificação geral dos signos.1 Sendo um signo, "símbolo" é sempre algo que representa outra coisa(para alguém). O "símbolo" é um elemento essencial no processo de comunicação, encontrando-se difundido pelo quotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Embora existam símbolos que são reconhecidos internacionalmente, outros só são compreendidos dentro de um determinado grupo ou contexto (religioso, cultural, etc.). Ele intensifica a relação com o transcendente. A representação específica para cada símbolo pode surgir como resultado de um processo natural ou pode ser convencionada de modo a que o receptor (uma pessoa ou grupo específico de pessoas) consiga fazer a interpretação do seu significado implícito e atribuir-lhe determinada conotação.(…). Conforme http://pt.wikipedia.org/wiki/Símbolo, visitado em 11/06/2014.
[4] Ibid., p. 459-460-461.
[5] BORGES, Jorge Luís. O Aleph. É parte integrante da coleção Jorge Luís Borges – obras completas Volume I, Vários tradutores, 1999, Editora Globo S.A, p. 146.: “Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph que minha temerosa memória mal consegue abarcar? Os místicos, em transe análogo, multiplicam os emblemas: para significar a divindade, um persa fala do pássaro que de alguma forma é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em toda parte a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que ao mesmo tempo se volta para o oriente e para o ocidente, para o norte e para o sul. (Não em vão rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação têm com o Aleph.) Os deuses não me negariam, talvez, o achado de uma imagem equivalente, mas este informa ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Além disso, o problema central é insolúvel: a enumeração, mesmo parcial, de um conjunto infinito. Naquele instante gigantesco, vi milhões de atos deleitáveis ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que meus olhos viram foi simultâneo: o que transcrevi, sucessivo, porque a linguagem o é. Algo, contudo, recuperarei”.
[6]Ibid., CASTELLS, Manuel. p. 443. Nota 89, APUD: Turkle(1995:267) Em um dos primeiros estudos psicanalíticos(na verdade, membros de um grupo Multi Users Dungeons – MUDs) dos usuários da Internet, Sherry Turkle demonstrou que, sim, os usuários interpretavam papéis e criavam identidades on-line. Mas isso gerava uma sensação de comunidade, mesmo que efêmera, e talvez trouxesse algum alívio a pessoas carentes de comunicação e auto-expressão. Contudo, ela conclui que ‘a noção do real contra-ataca. Quem vive vidas paralelas na tela estão, não obstante, ligadas pelos desejos, pela dor e pela mortalidade de suas personalidades físicas. As comunidades virtuais oferecem um contexto novo e impressionante, no qual pensar sobre a identidade humana na era da internet’.
[7] FERRAZ JUNIOR. Tercio Sampaio. Estudos de Filosofia do Direito., 3ª ed, São Paulo, 2009, Editora Atlas, p.315/316.
[8]“Sociabilidade” pode ser entendida como os modos, comportamentos, conduta de quem vive em sociedade.
[9]JAPIASSÚ, Hilton. MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia, 3ª ed, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001. Cultura (lat. cultura) 1. Conceito que serve para designar tanto a formação do espírito humano quanto de toda a personalidade do homem: gosto, sensibilidade, inteligência. 2. Tesouro coletivo de saberes possuído pela humanidade ou por certas civilizações: a cultura helênica, a cultura ocidental etc. 3. Em oposição a (natureza), a cultura possui um duplo sentido antropológico: a) é o conjunto das representações e dos comportamentos adquiridos pelo homem enquanto ser social. Em outras palavras, é o conjunto histórica e geograficamente definido das instituições características de determinada sociedade, designando "não somente as tradições artísticas, científicas, religiosas e filosóficas de uma sociedade. mas também suas técnicas próprias, seus costumes políticos e os mil usos que caracterizam a vida cotidiana" (Margaret Mead): b) o processo dinâmico de socialização pelo qual todos esses fatos de cultura se comunicam e se impõem em determinada sociedade, seja pelos processos educacionais propriamente ditos, seja pela difusão das informações em grande escala, a todas as estruturas sociais, mediante os meios de comunicação de massa. Nesse sentido, a cultura praticamente se identifica com o modo de vida de uma população determinada, vale dizer, com todo o conjunto de regras e comportamentos pelos quais as instituições adquirem um significado para os agentes sociais e através dos quais se encarnam em condutas mais ou menos codificadas.4. Num sentido mais filosófico, a cultura pode ser considerada como um feixe de representações, de símbolos, de imaginário, de atitudes e referências suscetível de irrigar, de modo bastante desigual, mas globalmente, o corpo social. 5. Cultura de massa é uma expressão, de uso ambíguo, freqüentemente utilizada para designar a possibilidade de uma população ter acesso aos bens e obras culturais produzidos no passado e no presente. seja o processo de degradação. Conforme: http://dutracarlito.com/dicionario-de-filosofia-japuassu.pdf, visitado em 18/06/2014.
[10]HEIDEGGER, Martin. Ontologia (Hermenêutica da facticidade). Tradução de Renato Kirchener, editora Vozes, Petropolis-RJ, 2012. p.43.
[11]HEIDEGGER, Martin. Ontologia (Hermenêutica da facticidade). Tradução de Renato Kirchener, editora Vozes, Petrópolis-RJ, 2012. p.43.
[12]KANT, Emmanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: J. Rodrigues de Merege. Versão eletrônica, créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia),Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/., visitado em 13/06/2014. Introdução, p. 3: (…) “Surge desse modo uma questão que não se pode resolver à primeira vista: será possível um conhecimento independente da experiência e das impressões dos sentidos? Tais conhecimentos são denominados “a priori”, e distintos dos empíricos, cuja origem e “a posteriori”, isto é, da experiência. Aquela expressão, no entanto, não abrange todo o significado da questão proposta, porquanto há conhecimentos que derivam indiretamente da experiência, isto é, de uma regra geral obtida pela experiência, e que no entanto não podem ser tachados de conhecimentos “a priori”. Assim, se alguém escava os alicerces de uma casa, “a priori” poderá esperar que ela desabe, sem precisar observar a experiência da sua queda, pois, praticamente, já sabe que todo corpo abandonado no ar sem sustentação cai ao impulso da gravidade. Assim esse conhecimento é nitidamente empírico. Consideraremos, portanto, conhecimento “a priori”, todo aquele que seja adquirido independentemente de qualquer experiência. A ele se opõem os opostos aos empíricos, isto é, àqueles que só o são “a posteriori”, quer dizer, por meio da experiência.
[13]Ibid, p. 16-17 e 19-20.
[14] HOFFE, Otfried. Immanuel Kant. Tradução Christina Viktor Hamm e Valerio Rohden, São Paulo, Martins Fontes, 2005., p.72-73.
[15] LEIBNIZ, G.W. Catena Mirabilium Demonstratiorum De Summa Rerum, nº85 – 12 de dezembro de 1676, nº85, Conforme: http://www.leibnizbrasil.pro.br/leibniz-traducoes/serie-de-maravilhosas-demonstracoes.htm#topo , visitado em 12/06/2014.
[16] AGOSTINHO, Santo. Bispo de Hipona, 354-430. A cidade de Deus(contra os pagãos), Tradução de Oscar Paes Leme, Petrópolis, Rj. Vozes; São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira; Bragança Paulista, SP: Editora Universitaria São Francisco, 2012. Parte II, Capitulo VI, p.35-36. “Se é correta a distinção entre eternidade e tempo, baseada em que o tempo não existe sem alguma modalidade mutável e na eternidade não há mutação alguma, quem não vê que não existiram os tempos, se não existisse a criatura, suscetível de movimento e mutação? Desse movimento e mutação, cedendo e sucedendo uma coisa a outra, por não poderem coexistir, de intervalos mais curtos ou mais longos, resultaria o tempo. Por conseguinte, sendo Deus o ser em cuja eternidade não existe mutação alguma, o criador e ordenador dos tempos, não compreendo a afirmação de que, depois de alguns espaços temporais, criasse o mundo, a não ser que se diga que antes do mundo já existia alguma criatura, cujos movimentos deram começo aos tempos”.
[17]COSTA, Newton C.A. KRAUSE, Décio. Espaço e tempo em Filosofia da Ciência. Junho 2011. Conforme: www.cfh.ufsc.br/ndkrause/pg/textos/espaço-tempo.pdf, visitado em 28/05/2014.
[18] HANSEN, Gilvan Luiz. Espaço e Tempo na Modernidade, Revista Geographia, Vol.2, Nº3, 2000.p.51-65, escrito para a conferência apresentada pelo autor em 29/05/2000, no Curso de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense., conforme: www.uff.br/geographia, visitado em 17/04/2014.
[19] CANOTILHO. J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 6a. edição, editora Almedina. p. 393.: “direitos fundamentais são os direitos do homem, jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espacio-temporalmente”.
[20]GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. Tradução de Raul Filker. São Paulo, editora Unesp, 1991, p.29-31.
[21] Ibid., GIDDENS, Anthony. p.31 “Por desencaixe me refiro ao deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço”.
[22] Ibid, CASTELLS, Manuel. p. 500-501.
[23] Ibid., CASTELLS, Manuel. p. 501-506.
[24] Ibid., CASTELLS, Manuel. p.506: “Uma segunda tendência importante da distinção cultural das elites na sociedade informacional é a de criar um estilo de vida e de projetar formas espaciais para unificar o ambiente simbólico em todo o mundo, consequentemente substituindo a especificidade histórica de cada local. Assim, surge a construção de um espaço(relativamente) segregado no mundo ao longo das linhas conectoras do espaço de fluxos: hotéis internacionais cuja decoração, do design do quarto à cor das toalhas, é semelhante em todo o planeta para criar uma sensação de familiaridade com o mundo interior e induzir à abstração do mundo ao redor; (…) serviços secretarias e hospitalidade recíproca que mantem um círculo fechado da elite empresarial por meio do culto de ritos similares em todos os países. Além disso, há um estilo de vida cada vez mais homogêneo na elite da informação, que transcende as fronteiras culturais de todas as sociedades: o uso regular de spas(mesmo em viagens) e a prática de jogging; a dieta obrigatória do salmão grelhado e salada verde(…) a “cor de camurça clara” da parede como objetivo de criar atmosfera aconchegante do espaço interno; o onipresente laptop; o acesso à internet; a combinação de ternos e roupas esporte; o estilo de vestir unissex(…) Tudo isso são símbolos de uma cultura internacional cuja identidade não está ligada à nenhuma sociedade específica, mas aos membros dos círculos empresariais da economia informacional em âmbito cultural global”.
[25]ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 11ª edição, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2010. p. 248. “Onde quer que vás, serás uma polis: essas famosas palavras não só vieram a ser o lema da colonização grega, mas exprimiam a convicção de que a ação e o discurso criam um espaço entre os participantes capaz de situar-se adequadamente em quase qualquer tempo e lugar. Trata-se do espaço da aparência, no mais amplo sentido da palavra, ou seja, o espaço no qual eu apareço aos outros e os outros a mim;”
[26] CASTELLS, Manuel. Ibid, p.526-527.
[27]CASTELLS, Manuel. Ibid., p.555-557.
[28] BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Tradução Carlos Nelson Coutinho; apresentação Celso Lafer. Nova ed. , Rio de Janeiro, Elsevier, 2004, 13ª reimpressão. p.33.: “(…) a ampliação dos conhecimentos e a intensificação dos meios de comunicação poderão produzir tais mudanças na organização da vida humana e das relações sociais que se criem ocasiões favoráveis para o nascimento de novos carecimentos e, portanto, para novas demandas de liberdade e poderes. Para dar apenas alguns exemplos, lembro que a crescente quantidade e intensidade das informações a que o homem de hoje está submetido faz surgir, com força cada vez maior, a necessidade de não se ser enganado, excitado ou perturbado por uma propaganda maciça e deformadora; começa a se esboçar, contra o direito de expressar as próprias opiniões, o direito à verdade das informações.”
[29] Conforme reportagem Jornal folha de São Paulo, segunda-feira, 21 de abril de 2014, em entrevista com o Andreas Welgend, especialista em análise sobre dados do consumidor: Com um smartphone e seus sistemas de GPS e câmeras, as pessoas vão deixando rastros sobre seus gostos e desejos: os lugares que frequentam, os pratos prediletos, os amigos com os quais conversam. O conjunto desse enorme volume de informações permite que empresas saibam o que um consumidor realimente quer com mais eficácia do que ele mesmo. A opinião é do alemão Andreas Weiggend, 54, especialista em ‘big data’, que é o conjunto de tecnologias que permitem coletar e analisar grandes volumes de dados e tentar tirar conclusões sobre o que eles revelam”.(…).

Informações Sobre o Autor

Caio Sperandéo de Macedo

Doutor em Filosofia do Direito Mestre em Direito Constitucional e Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São PauloPUC/SP Advogado e Professor do UniFMU


Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumiremos que você está ok com isso, mas você pode cancelar se desejar. Aceitar Leia Mais Aceitar Leia mais