Ética na modernidade: uma questão de reflexão

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Resumo: O objetivo deste ensaio é realizar reflexões acerca da ética desde a Antiguidade com destaque para a modernidade. A relevância da análise se dá pela necessidade de reconhecer as transformações e uma nova dinâmica em torno dos valores éticos e normas norteadoras da conduta humana. Discute a formação da ética moderna e as suas características peculiares, mostrando algumas das fases de seu desenvolvimento, aborda também sua relação com o relativismo cultural, sua aplicabilidade na área jurídica e os ideais éticos. Faz-se perceptível a fragilidade da ética não apenas na modernidade, mas em todo o decorrer da história. [1]

Palavras–chave: Modernidade. Ética. Reflexões. Fragilidade. Ideais.

Abstract: The purpose of this test is to conduct reflections on ethics since antiquity especially modernity . The relevance of the analysis is given by the need to recognize the changes and a new dynamic around the ethical values ​​and guiding norms of human conduct . Discusses the formation of modern ethics and its peculiar characteristics , showing some of the stages of its development, also discusses his relationship with cultural relativism , its applicability in the legal and ethical ideals. The fragility of ethics is made visible not only in modern times , but throughout the course of history .Keywords: Modernity. Ethics. Reflections . Weakness . Ideals. Sumário: Introdução.1. Referencial Teórico.1.1 A ética da Grécia Antiga a Modernidade.1.2 Da aplicabilidade da ética no Direito. 1.3 Ética e relativismo cultural. 1.4 O ato ético. 1.5 Revoluções éticas. 1.6 A crise ética na modernidade. 1.7 Racionalidade Instrumental. 1.8 O Método da Complexidade. 1.9 Sonhos éticos. 2. Considerações finais. Referências

Introdução

A ética faz parte da filosofia responsável por investigar os princípios que motivam, disciplinam, distorcem ou orientam o comportamento do homem, refletindo sobre a sua essência, valores, as normas, preceitos e exortações presentes em qualquer meio social. Na história humana, a reflexão sobre a ética sempre esteve presente em todas as sociedades, mesmo que de forma desorganizada e não racionalizada.

Esse saber ético, inicialmente tradicional, foi o responsável pelos fundamentos da ética filosófica. Ela estendeu sua reflexão axiológica ao se direcionar as ciências particulares e técnicas, que hoje são fundamentais para conceder um melhor convívio entre grupos sociais. A ética se faz importante por guiar o pensar e o agir do homem em todos os tempos.

Além de expressar as vontades e problemas de cada época, expressa também as formas de organização política, social e religiosa de uma comunidade. Com isso, o estudo da ética, fundamentado na filosofia, proporciona o conhecimento sobre o ser humano, como ser de ação, racional e social. A Ética filosófica sempre procurou orientar e encontrar soluções para os problemas básicos das relações entre os homens.

 Desde a Grécia Antiga à Contemporaneidade a ética também esta intimamente ligada ao Direito. Ao contrário da ciência do Direito a ética não estabelece regras, todavia ela busca justificativas para as regras pertencentes ao âmbito jurídico. O Direito tem por objetivo promover a justiça, para tanto é necessário que haja um mínimo ético a ser cumprido para a segurança das relações sociais e profissionais.

1 Referencial teórico

1.1 A Ética da Grécia Antiga a modernidade

Desde o gênesis da civilização, a ética sempre se fez presente em todas as sociedades. Evidente que não de forma racionalizada e estudada como contemporaneamente, era encontrada através dos princípios morais, conjunto de regras adquiridas através da cultura, da educação, da tradição e do cotidiano, e que orientam o comportamento humano dentro de uma coletividade (CANABRAVA, 2009).

A ciência da moral sempre buscou intermediar e encontrar soluções para as problemáticas humanas. Desde a Grécia Antiga, a ética sempre foi amplamente discutida por diversos filósofos e estudiosos. Para Sócrates, a ética estava associada à ideia do bem e do mal e ligados a virtude de forma racional.  Responsável pela sistematização da ética, Aristóteles, considerado o fundador desta ciência, a ética encontra-se atrelada à virtude, visto que a última divide-se em: virtudes éticas e virtudes dianoéticas. Virtudes éticas são consideradas por Aristóteles como a equidade do meio-justo, subjetivas, ligadas a escolha e responsabilidade. Sendo a justiça a principal virtude ética. Em contrapartida, as virtudes intelectuais são as artes, filosofia e sabedoria prática (RAMOS, 2012).

Com o declínio da Grécia Clássica, a amplitude da ética filosófica rompeu a barreira das polis e transformou-se em universal, passando a moral a ter referências na natureza física. Duas correntes de pensamento opostas se fizeram presentes de forma forte, sendo elas: O estoicismo e o epicurismo (CANABRAVA, 2009).

Para o estoicismo de Sêneca e Epitelo, Deus é a razão da existência do homem. É a razão derradeira do Cosmo. Portanto o ser humano deve dedicar sua existência para ele, vivendo de forma natural, de acordo com a razão, pois todo indivíduo é destinado a Deus. Segundo os epicuristas representados por Epicuro e Tito, sendo o átomo a partícula base para a vida, é o responsável pela ordem de toda a existência terrestre. Não existem divindades a qual o homem deva viver em prol, portanto, o ser humano é unicamente o dono da conduta de sua vida, procurando e almejando sempre o prazer espiritual, tão remoto de sua essência (CÂMARA, 2014).

Na Idade Média, entre o século IV e o século XV, ocorreram grandes mutações de pensamentos e assertivas sobre a ética. Uma nova ética considerada absoluta, identificada como a única e verídica fonte de justiça e do bem.  A moral cristã, assim conhecida, era ponderada a unidade social e o único caminho a ser seguido em meio às crises existentes na Idade Média (CANABRAVA, 2009).

A filosofia cristã se baseia em verdades reveladas para estabelecer seus preceitos éticos. Imposta pelas Igrejas Cristãs exercia um domínio ideológico em relação a seus fies, em vista que, não possuíam outras formas permitidas de conhecimentos que não fossem os advindos da moral religiosa. O universo transpõe o lugar a Deus, sendo está à nova fonte de suprema veracidade, moral e perfeição. Todavia, ainda que a filosofia estivesse a ‘’serviço’’ da Teologia (CANABRAVA, 2009).

  Agostinho resgata a filosofia grega e submete-a cristianização. De acordo com a ética de Agostinho, se faz necessária uma ordem para chegar ao determinado fim. A ordem é a trajetória constituída de forma ética, onde a vida comum e a busca constante de Deus são realizadas servindo aos demais, esforços esses com finalidade de alcançar o fim último: a plena realização. A corrente racionalista é o pilar da ética na modernidade. O antropocentrismo passa a imperar enquanto a religiosidade perde força e prestígio diante das novas ciências. Como as ciências naturais, desenvolvidas na modernidade, sobretudo por Galileu e Newton (NOSELLA, 2008).

O termo modernidade se faz presente em diversas épocas, pois certamente todas já foram consideradas inovações para o seu tempo, entretanto, interligado a razão, o termo só foi empregado no século XVII, com as revoluções científicas de Galileu e evoluções da filosofia (NOSELLA, 2008).

Segundo Descartes, pai da ética moderna, a ética é racionalizada por um sujeito pensante. Em seu livro Discurso do Método, expõem a necessidade de todos os homens utilizarem a razão, inclusive os de senso comum. A razão seria a norteadora ética, era o parâmetro para todas as coisas (KUJAWSKI, 1969).

A filosofia ética moderna tem seu apogeu em Immanuel Kant, em que utiliza a concepção de moralidade. O homem é livre e autônomo e goza do hiperativo categórico, em que os seres humanos devem agir de acordo com seus princípios, como se fossem aplicados a todos, tornando-se lei da natureza (CANABRAVA, 2009).

Infere-se que, a ética sofreu diversas modificações ao longo das eras históricas, em que os primeiros estudos e reflexões acerca do tema foram elaborados pelos filósofos socráticos e sua evolução continua a ser largamente e profundamente explorada para a melhor compreensão das acepções da ética moderna e estudo da sociedade construída pelo ser humano, analisando assim a moral e os valores empregados na coletividade (CANABRAVA, 2009).

1.2 Da aplicabilidade da ética no Direito

Direito é uma palavra com origem do latim directum, oriundo do verbo dirigere que significa ordenar. De sua etimologia Direito é ‘’aquilo que é reto’’, condizente com os preceitos de justiça e equidade. Portanto, a ciência do Direito é responsável por originar normas a serem notadas pela sociedade que designam direitos e deveres. Como instrumento de controle social, o Direito é o mediador entre o homem e a sociedade e trabalha no sentido da aplicabilidade das leis e princípios morais na solução de conflitos (BERNARDES, 2009).

     Sendo o Direito uma área das Ciências Humanas que tem por objetivo a manutenção da justiça e da moralidade social, o caráter normativo da Ética está intimamente ligado ao Direito, visto que, surge com o ideal grego de justa medida, que busca o agir humano de forma equilibrada e sensata para o bem comum (BERNARDES, 2009).

Os profissionais do Direito devem se fundamentar nos valores éticos e morais, possibilitando o exercício da ética profissional. O ser humano deve estar penetrado de princípios e valores próprios para aplicá-los em sua profissão. A ética profissional, por um lado exige a deontologia, que é o estudo dos deveres específicos de cada área profissional, por outro lado, exige também a diciologia, que são os direitos que o profissional possui por desempenhar determinada profissão. Ou seja, seus deveres e direitos (CAMARGO, 1999).

Do ponto de vista cultural, o Direito abrange uma realidade norteada de valores, pois tem como objetivo a busca pela segurança jurídica e a justiça. Objetivos esses que são comuns a ética, contudo a ética não impõem uma obrigatoriedade, não sendo possível assim, a atribuição do valor imperativo da norma jurídica para a norma ética, todavia, a validade da norma jurídica só é verificável quando está protegida pelos princípios da ética (BERNARDES, 2009).

A ética pode ser compreendida como uma escolha baseada em princípios e valores de uma determinada sociedade, qual culminam na seleção de uma diretriz avaliada obrigatória em uma coletividade, já que, toda norma ética expressa um juízo de valor a qual é ligada a uma sanção. Na teoria do mínimo ético o Direito é o representante mínimo de Moral necessária para a sobrevivência da sociedade, estando o Direito relacionado também a Moral, pois como pertencentes ao mundo ético, o viver conforme a ética consiste no ato de junção de uma regra moral e uma norma jurídica em situações usuais (REALE, 2002).

É perceptível a complementação entre direito e ética, onde a segunda corresponde ao conjunto de princípios valorativos de um determinado grupo ou sociedade identificável, de modo que restringe e orienta as ações a serem adotadas perante o grupo. E o Direito é o artifício criado pelo Estado para cristalizar os parâmetros morais e éticos e definir punições quando necessárias, mediante a estrutura políticas criadas para essa intenção (JR ZANON, 2014).

O Direito se verdadeiramente aplicado, efetivamente cumpre a consolidação dos desígnios sociais e da pessoa humana, firma progressos normativos e teóricos que, se bem abrangidos e aplicados pelos operadores jurídicos, estabelece a segurança jurídica. Daí a ideia de recomendar à ciência do Direito esse infindável regresso às reflexões morais não para tomá-las de forma mística ou metafísica como os jurisnaturalistas, mas para que homens de hoje, possam ter em vista um horizonte de justiça nas sociedades (MACEDO; REZENDE, 2008).

1.3 Ética e relativismo cultural

Práticas culturais são relações comportamentais aprendidas advindas de dois ou mais indivíduos com o passar das gerações, selecionadas devido ao seu impacto no grupo praticante ou em outras práticas. Portanto, são variáveis independentes que controlam o comportamento humano individual e são ao mesmo tempo dependentes por originarem-se do comportamento individual (ANDERY, 2007).

O relativismo cultural é defensor de que os conceitos de bem e mal são variantes de cada cultura. Em uma determinada cultura o bem é considerado como o que é socialmente aceitável. Os princípios e regras morais são estabelecidos de acordo com as normas sociais das sociedades (GENSLER, 2004).

Nesse relativismo não há um padrão objetivo, os pontos de vistas são relativos á culturas dos indivíduos pertencentes. Quando dito o contrário, faz-se uma imposição de uma cultura sobre outra, como verdades objetivas. O conceito de mal é também relativo, para o relativismo cultural o mal não é absoluto, o que se pode considerar mal em determinado grupo social pode ser bem noutra (GENSLER, 2004).

Os adeptos ao relativismo cultural tornam-se mais propícios a aceitarem as diferenças entre sociedades, fazendo a percepção de que outras culturas não são ‘’erradas’’ e sim diferentes. O mundo para o relativismo cultural está dividido em diversas sociedades diferenciadas. São sociedades em que não existem desacordos, visto que o bem e o mal são estabelecidos pela maioria, assertiva nem sempre coerente (GENSLER, 2004).

 Se o relativismo cultural representasse uma verdade não seria possível discordância dos valores de nossa sociedade. Pois é possível a afirmativa de que algo é aprovado e aceito pela sociedade, contudo pode não representar um bem (GENSLER, 2004).

Existem duas formas básicas de relativismo ético: subjetivo e cultural. Os dois pontos de vista negam a existência de verdades morais absolutas e objetivas. Discordam ao de que dependem os juízos de valor e os princípios morais. Levando em conta o relativismo ético subjetivo, o correto é tudo aquilo que é moralmente válido, a ética é uma questão individualista, o que o sujeito acredita como certo não pode ser considerado como incorreto por indivíduo algum. Já segundo o relativismo cultural o que é correto para ti depende do que consiste em aceito ou considerado moralmente correto pelo grupo social ou cultura a que tu pertences (HARRYS, 2002).

Uma questão falha do relativismo cultural é referente ao racismo. Os preceitos relativistas divergem com os preceitos éticos. Uma perspectiva ética satisfatória tem que demonstrar meios efetivos para combater atos racistas, entretanto, o relativismo prega que se o racismo for aceito por determinada sociedade ele considerado é bom (GENSLER, 2004).

Uma das justificativas para atitudes relativistas culturais é que não existem padrões comuns entre sociedades diferentes e consequentemente entendimento entre valores considerados aceitáveis e não aceitáveis. A antropologia, pelo contrário, diz que o entendimento entre os homens é sempre possível e se faz através da comunicação. Notoriamente que o entendimento e consenso entre indivíduos da mesma sociedade se faz de forma mais fácil, mas o núcleo mínimo de valores e traços que não variam está em todos os indivíduos, ainda que não se faça de forma tão perceptiva (ROUANET, 1990).

Apesar de no primeiro momento fazer sentido, a ideia de relativismo cultural deixa implícito a hipótese da falta de contato com sociedades mais desenvolvidas. Obviamente que não se pode cobrar de sociedades antigas padrões morais modernos. É de suma importância ressaltar que o relativismo cultural não se aplica a sociedades que possuem contatos, pois a partir do contato entre tais sociedades há troca de conjuntos de valores e fica a critério de cada sociedade qual padrão seguir (SACHSIDA, 2012).

Outra questão que enfraquece o relativismo cultural é a globalização.  Esse movimento se faz presente nos discursos acerca do respeito ás diferenças culturais, e está ligado ao ‘’multiculturalismo’’, que em primeira instância parece fazer referência a diversidade das culturas e sua importância em meio ao mundo. Mas esse é um conceito que está ligado ao inconstante processo social, sendo uma solução para as classes influentes e possuidoras do poder político, deixando assim a sociedade sem saber que valores culturais devem seguir em meio a tantas modificações e incertezas (BAUMAN, 2013).

1.4 O ato ético

 A existência da ética não se faz de forma isolada do mundo, de forma geral, deve-se associar a ética ao conhecimento, tanto quanto ciência, política, economia e etc. O ser humano movido pela exigência da moral é composto pela ligação entre indivíduo, sociedade e espécie, ou seja, por seus meios biológicos, seu ser individual e social. Portanto, toda visão acerca da ética deve levar em consideração a dimensão egocêntrica e a potencialidade do desenvolvimento do altruísmo, pois mesmo que indiretamente, o sujeito vive para si e para o outro. (SILVA, JORGE, 2013)

Todo ato ético é um ato de religação. Um ato moral é um ato individual de religação. Um ato moral é um ato individual de religação, seja um com o outro, entre uma comunidade, com uma sociedade, ou seja, a religação do ser humano com a sua espécie (SILVA, 2013).

A religação cósmica se consegue através da religação biológica, que ocorre por meio da religação antropológica, que é perceptível através da solidariedade, amizade, fraternidade e no amor, que é a religação antropológica soberana. O amor é a demonstração máxima da ética (MORIN, 2006).

Há uma necessidade vital, social e ética de amizade e companheirismo entre os seres, de afeição e amor para a realização plena da espécie humana. O sentimento do amor é a experiência essencial para a religação humana. Dependendo do nível de religação humana, se for muito complexa, só poderá ocorrer se for através do amor (MORIN, 2006).

O homem sem a religação se prende a si, se fecha em seu individualismo. Destarte, o fechamento o que é o princípio de abertura ao outro: o altruísmo, no lugar de fazer se abrir, pode nos levar a um fechamento maior ainda, é o caso do egoísmo extremo, o homem sendo seu próprio lobo, onde o individualismo suplanta a coletividade e o ideal de bem comum. Em que o problema central passa ser a barbárie gigantesca interior do homem. Por isso, é necessário que o homem realize uma análise de pensamento, compreenda-se e se corrija afim de ao menos amenizar sua barbárie interior e agir de acordo com a ética (HORVATH, 2011).

A ética complexa precisa do que é mais individual do ser humano, a sua autonomia de consciência e sua noção de responsabilidade. Necessita do seu potencial reflexivo de espírito em relação à análise do seu eu e de suas ações. O progresso da ética pode se realizar pelo seu profundo enraizar, pela interação das consciências intelectual e moral (SANTOS; HAMMERSCHIMIDT, 2012).

O pensamento complexo é o pensamento que se religa. E a ética complexa é fruto desta religação. É de suma importância salientar que a religação inclui o processo de separação, pois só o separado pode ser religado, portanto, a ética humana, deve se realizar através da fraternidade, amor, união na separação (SANTOS; HAMMERSCHIMIDT, 2012).

As últimas expressões da Ética são consagradas ao amor. Ele não pode ser irracional; por isso, cabe à Ética resguardar a racionalidade no íntimo do amor. Vivendo no amor, conseguimos lidar com a insegurança e a inquietude, porque ele é o remédio para a angústia, para os males (QUEIROZ, 2008).

1.5 Revoluções éticas

A modernidade é o nosso habitat peculiar. Não nos notamos como os velhos se viam, pois nenhum deles refletia em questionar a naturalidade das afinidades entre o homem e a sociedade. E a modernidade aprece precisamente quando o homem começa a se ajuizar desconexo da comunidade que ele integra (COSTA, 2010).

Os seres modernos não atribuem a origem mítica da coletividade a um vinculo orgânico. Para eles, é errônea a afirmação de que somos descendentes de Abraão, Rômulo, nem de Eva. Não somos unidos por tradições, não pertencemos à mesma família, nem religião e costumes. Para os modernistas, o que nos une é a nossa vontade individual, guiada pela razão. O racionalismo clássico é oposto a tradições mitológicas e religiosas com base em uma razão natural, que explica a ordem natural do mundo e os seus aspectos (COSTA, 2010).

A crença de que a razão poderia explicar todos os feitios do mundo, foi colocada em suspeita no pensamento medieval, de maneira especial, porque muitos dos elementos essenciais do cristianismo não eram franqueados pela razão, mas pela fé. Seria muita ambição do homem aspirar que a sua razão abrangesse o mundo criado por um deus onipotente, cuja grandeza não poderia ser nunca compreendida por nossa restringida racionalidade. Assim, mesmo que as compreensões cristãs tenham sustentado a ideia de que a razão pode nos transportar a muitas verdades, não se podia acreditar que ela nos desvendasse toda a verdade (PESTANA, 2012).

Assim, o pensamento medieval é bastante cético diante aos limites de uma racionalidade individual.  A razão é vista como algo que nos expõe a relações naturais, constituídas independente dos homens. Portanto, é o critério de racionalidade que nos permite separar os ditames da lei humana e lei natural (PESTANA, 2012).

Foi contra esta tradição, que naturalizava os seus valores tradicionais para garantir a sua legitimidade, que elevou o pensamento moderno. Descartes foi pioneiro reconhecendo que, entre o que ele ponderava natural, existia muito de convencionalismos difundidos pela sua cultura. Mas ele já não mais podia converter em natural tudo o que lhe era familiar. Assim, a razão moderna não se distanciou da noção de naturalidade, mas a reafirmou, especialmente Porque a sua principal função era diferenciar o aparentemente natural do verdadeiramente natural (SCREMIN, 2004).

As teorias dos contratualistas não articularam de maneira muito inovadora o direito natural e o direito positivo, Porém, o campo da naturalidade foi redefinido, pois muita coisa passou do campo da naturalidade para o campo da artificialidade. E foi justamente com esse trânsito que a modernidade pôde criticar a tradição, da qual vários elementos passaram a ser vistos como construções artificiais ilegítimas (ARANHA; 2009).

A saída encontrada para harmonizar essa fragmentação de moralidades coexistentes foi justamente remeter a moralidade para o campo do privado, em que nenhuma validade objetiva seria admissível. Mais do que isso, a privatização da moralidade era uma garantia da liberdade de crença, especialmente da liberdade de religião, que era um dos pilares das modernas sociedades européias. Assim, a regulação da vida pública deixa de ser um papel da moralidade de inspiração religiosa, e passa a ser monopólio de um direito pretensamente laico. Porém, nem toda a moralidade foi remetida ao campo do privado, pois restava a moralidade natural, cuja validade seria objetiva (CHAUÍ, 2004).

Por isso mesmo, a ética moderna não se volta a uma catalogação das virtudes dominantes em uma tradição, pois isso é deixado aos moralistas de cada crença, aos missionários e catequistas de todos os gêneros. Esse gênero de educação moral não deixa de existir, mas ele migra da reflexão filosófica para a pregação teológica. Todavia, restava aos filósofos definir aquele núcleo da moralidade cuja validade universal poderia ser demonstrada. Nesse sentido, a busca da moralidade se aproxima imensamente da busca pelo direito natural, pois ambas se fundem na idéia de que existem valores justos por natureza, que podem ser identificados a partir de um uso adequado da razão. Portanto, os primeiros filósofos modernos da ética, da política e do direito continuavam a velha tradição platônica, em sua busca pela identificação do bem em si (CHAUÍ, 2004).

1.6 A Crise ética na modernidade

A ética moderna traz a tona o conceito de que os seres humanos sempre devem ser o fim de uma ação e nunca um meio parar alcançar determinado interesse, pois o homem é visto no centro e tudo está ao seu serviço. Essa é uma ideia defendida por Kant, um dos principais filósofos da modernidade, que acreditava na ideia de o que o homem é um ser egoísta, destrutivo, ambicioso, cruel e agressivo (GREIK, 2002).

As crises históricas determinam as mudanças históricas que acontecem e mudam a realidade da sociedade de forma radicalmente. É uma questão bastante relevante para filosofia, visto que o desenvolvimento da história e as suas crises cabem a filosofia, ela não pode ficar estática a situações vividas pelo homem moderno. A função da filosofia é elucidar o homem em seu ser total (MATOS, 1992).

A ética tornou-se uma problemática fundamental no ocidente do século XX. Durante os anos 50 e 60 chegou-se a utilizar o termo reabilitação ética. A mentalidade técnico-científica se tornou cada vez mais dominante na civilização ocidental, menosprezando a ética e a reduzindo apenas aos problemas individuais. A ética não faz parte do âmbito racional, pois racionalidade é ligada a ciência, e tudo que não é pertencente a ciência é resultado do livre arbítrio de cada um. A ética está no centro da vida humana, pois a tarefa fundamental e primordial do homem é a construção do seu eu (OLIVEIRA, 1989).

O problema se faz presente, sobretudo, no pensamento europeu, ainda por uma oposição que vem desde Kant, com um enorme empecilho a qualquer ontologia. Não se faz mais uma teoria do mundo. A filosofia virou apenas uma teoria do nosso conhecimento do mundo. Enquanto não suplantarmos a dicotomia entre ser humano e mundo, entre sujeito e objeto, entre teoria e realidade, que é a legado deixado pela modernidade, ainda majoritária no pensamento atual, nós não teremos saídas. Teremos saídas, no máximo que não são capazes de dizer o que devemos fazer frente às questões que cada um deve enfrentar. A questão fundamental da filosofia hoje é voltar a ser uma teoria da realidade, é voltar a falar do legítimo. A partir dos valores, em primeiro lugar, ontológicos, pode-se perguntar o que a realidade pode dizer enquanto exigência ética  (OLIVEIRA, 2004).

Podemos pensar em uma ótica de entender a ética da vida coletiva. E uma idéia fundamental que se destaca como uma ética alternativa é aquela onde o homem não é em primeiro lugar só indivíduo, mas um ser fundamentalmente de relações e que só conquista o seu ser através do outro (CUNHA, 2012).

 Somente uma sociedade que pudesse ser articulada de tal maneira, onde cada ser humano possa ser respeitado e respeitar os outros, seria uma sociedade capaz de criar condições para realização do ser humano. Esta é a idéia do reconhecimento mútuo, da dignidade igual de todos os seres humanos. É um princípio ético fundamental para organizar a vida coletiva. Isto é, não há seres humanos especiais e a eles não se destinam os bens da Terra. Mas todos os seres humanos são portadores da mesma igualdade. É por isso que a participação, naquilo que é comum, e nas decisões da vida coletiva, é um direito fundamental de cada um, uma vez que cada um é igual (RAMOS, 2012).

1.7 Racionalidade instrumental

A modernidade, desde suas origens, desenvolveu-se lutando pela busca da emancipação do sujeito em nome da ciência, rejeitando toda a herança judaico-cristã, o dualismo cristão e as teorias do direito natural que haviam provocado o nascimento das Declarações dos Direitos do Homem e do Cidadão (ROESLER, 2012).

Da superação da fé e do sagrado para a certeza das ciências, de submissão ao dogma à razão. No propósito renascentista ressurgia imponente a razão como referência única do saber. Neste novo paradigma, o conhecimento somente tem sentido se provado, se aprovado pela ciência com seus métodos, ritos e instâncias de validação. Com a modernidade, a única resposta para o homem está condicionada ao discurso científico (TOURAINE, 1994).

A profundeza da crise que a modernidade causou ao propor novos referenciais e novos paradigmas de fundamento para a humanidade baseados na adoração da ciência. O desafio posto é de retirar o mais sagrado construto da humanidade que por séculos justificou práticas políticas e religiosas, arrebanhou multidões, suplantando-o por um conhecimento que é pura razão (NIETZSCHE, 2002).

As grandes promessas da modernidade, na ânsia de responder às necessidades humanas, concentram-se nas conquistas da ciência e da tecnologia, impondo um processo crescente de valoração de todas as coisas, num sentido materializado. Inicialmente na linguagem marxista, atribuindo valor econômico às coisas pelo tempo de trabalho humano necessário à produção do bem; posteriormente, esvaziando-se deste sentido, à medida que se fundamentava na tecnologia e na ciência, em substituição ao trabalho humano, passando a valorar exclusivamente pela produtividade. (ROUANET, 1993)

Depois de mais de três séculos de discussão sobre o triunfo da razão e o esboroamento das tradições, agora, o esgotamento da modernidade transforma-se em sentimento de angústia e desencantamento do mundo (GAUCHET, 2004).

1.8 O método da complexidade

O método de complexidade é um meio de consolidar a reforma do pensamento, pois rearticula, contextualiza, permitindo um pensamento racional complexo, capaz de conduzir ações complexas. Esse método é proposto por Morin, ao mesmo tempo em que ultrapassa o método cartesiano, deverá se resguardar a inspiração primeira e suas conquistas (FORTIN, 2007).

O método da complexidade é o caminho, estratégia e perseguição ao conhecimento. Faz as sinapses entre os saberes, entre o ser e o objeto, entre o sujeito e o conhecimento. Leva-nos a compreender e a repreender, a organizar de forma mental e estruturar o raciocínio (FORTIN, 2007).

Portanto, esse reaprender, na perspectiva da complexidade, é a reforma do pensamento, num pensar que possa articular e contextualizar o conhecimento. Objetivou-se no desafio de encontrar e elaborar operadores do conhecimento que permitissem abordar a complexidade do mundo. Esses instrumentos mentais são sistematizados, no método de complexidade, em princípios que subsidiam a construção do conhecimento complexo. São esses princípios que conduzem à reforma das estruturas de pensamento, levando a outra compreensão da realidade por operar com outras categorias de análise (MORIN, 2006).

 Diferente dos princípios cartesianos, das ideias claras e distintas, da análise, da ordenação e da quantificação os princípios da complexidade, operam a contextualização, a ligação, a complementaridade, a incerteza e a recursividade. Em sua obra, Morin tece princípios para um pensamento complexo, colocando-os como complementares e interdependentes. Dentre esses, se destacam três, considerados fundamentais: o dialógico, o hologramático e o elo recursivo (GRZECA, 2010).

 Há, porém, outros princípios e categorias com origem em diferentes ciências e que colaboram com a construção do pensamento complexo que, no entendimento que são: o Princípio da Complementaridade, o Princípio da Incerteza e o Princípio da Autopoiése (MARTINAZZO, 2009).

Pode-se promover a reforma do pensamento, constituindo, como forma de pensamento, o pensar complexo. Essa reforma de pensamento tem desdobramentos para além do campo cognitivo, para o campo da ação do homem, ou seja, desdobramentos éticos e políticos (ALMEIDA, 2002).

1.9 Sonhos éticos

A ética da vida não se prende apenas ao caráter biológico, mas transcende para poder desejar a vida com graça e paixão. Ao referir-se a poder, fala da atitude de mudança de pensamento em relação à ética da vida. A ética é responsável por recriar o sentido da vida, para que tudo volte a fazer sentido, para que a razão se reconecte com a paixão e o pensamento com o sentimento (LEFF, 2001).

 Dessa forma, a ética da vida é o caráter do ser, do eu, do indivíduo ao contrário do pensamento dominante de separação do conhecimento e da vida. Reafirmando que a mudança passa pelo retorno à essência da vida, pois toda ética tem como tema central a vida, mesmo havendo outras éticas, a ética deve ser uma ética criativa, capaz de reestruturar pensamentos e sentimentos para a boa vida (BAUDRILLARD, 1990).

 A ética da vida trata de sonhos, desejos, vontades, mundo de sentidos, vontades compartilhadas e diálogo de saberes. A ética da vida é contrária ao processo científico de validação e refutação, pois vai a busca de uma verdade comum. É a busca pela felicidade, o esforço para atingir a excelência e a virtude (PHILIPPE, 2002).

 A ciência tradicional separa a razão e o sentimento e busca produzir verdades para conduzir a vida humana. O conhecimento tornou-se instrumento de poder, esquecendo-se do ser, do sentido da vida, da ética da vida. Hoje, para pensar o mundo, para está inserido na vida de forma verdadeira, é necessário superar a ética que vem da ciência, como a que emana o mercado (MARCHIONNI, 2008).

2 Considerações finais

No presente trabalho procurou-se discutir como a ética sofreu modificações desde a antiguidade até a modernidade e sua importância para a organização das relações humanas. Entende-se por ética como o ramo da Filosofia dedicado aos assuntos morais, significa aquilo que pertence ao caráter.

 Sobre sua relação com o relativismo cultural, fica claro que o que pode ser considerado ético para uma determinada sociedade ou grupo não condiz com uma prática ética em outro, contudo, fica perceptível que o conceito de relativismo cultural é frágil, pois como defensor de que tudo que é considerado bom é socialmente aceitável, entretanto a fragilidade está presente no fato de que nem tudo que é aceitável pela sociedade é considero bom.

A ética moderna é marcada por transformações e embates, embora não seja fácil sistematizar todas as doutrinas éticas que se desenvolveram nesse período, podemos dizer que em oposição à ética teocêntrica religiosa, a ética moderna segue a tendência antropocêntrica. Temos rompimento entre fé e razão, ciência e religião, estado e igreja, o homem e deus.

É importante finalizar a reflexão sobre as questões éticas, frisando os aspectos da crise ética. Sempre haverá crise, quando a tradição se encontrar em conflito com o progresso, ou vive-versa. Assim sendo, a ética entra em crise quando as particularidades de seu ethos cultural e histórico não encontram mais uma justificação racional na tradição que as vinha sustentando e legitimando.

Assim concebida, a crise é um processo que naturalmente acontece em todas as áreas e civilizações, cujo dinamismo está sujeito às altos e baixos da história. A crise não tem necessariamente um sentido negativo, pois, no seu dinamismo, pode significar não apenas o final dos valores de uma determinada civilização, mas também o inicio de novos valores. Pois bem, se formos capazes de repensar um novo ethos para nossa civilização, a crise ética pode também significar uma crise de esperança.

Referências
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Nota:
[1]Artigo científico apresentado a Faculdade de Imperatriz no Curso de Direito, no semestre 2015.1, como requisito obrigatório para obtenção da segunda nota na Disciplina de Introdução a Filosofia geral, orientado pelo Prof. Wanderson Wendel Noronha Lô, Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília. Especialista em Didática Universitária e em Gestão Escolar; Licenciado em Filosofia; Pedagogia e Teologia.

Informações Sobre o Autor

Yanka Maria Rodrigues Carvalho

Acadêmica de Direito da Faculdade de Imperatriz – FACIMP


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Yanka Maria Rodrigues Carvalho
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