Chico Pena de Ouro Morreu


A Faculdade de Direito de Santos completou meio século há alguns meses. Chamavam-na “A Casa Amarela”. Fui às comemorações. Havia escassos sobreviventes. O bonde passava bem em frente. Fazíamos greve por qualquer coisa. Jogávamos xadrez sobre os trilhos, paralisando o tráfego. O “XI de Agosto” era festejado com requintes de satisfação. É lembrar, por exemplo, de um longínquo ano em que me hospedei, pendurando a conta, no hotel “Parque Balneário”, não aquele plantado presentemente no  Gonzaga, mas outro, um que oferecia ao mar seus jardins, a linda piscina repleta, nos verões, de turistas encantados. Bonito pedaço de vida, sim, veleiros muito brancos bordejando as praias entre ondas tentadoras, embora perigosas para os mais afoitos. Eu tinha uma barca. Chamava-se “Graziela”, mesmo nome daquela que me embala hoje, mansamente, nas águas da represa de Ibiúna. Faz meio século, sim. Para se ter idéia, freqüentei, iniciando a advocacia criminal, a cadeia – hoje museu – construída pertinho do túnel, edificado depois, que liga o centro da cidade aos bairros grã-finos.


Aquela Faculdade de Direito formou muita gente importante. Mantinha-se solitariamente, diferente das sete ou oito que lhe fazem a corte hoje, escolas sem origem, sem meio e sem fim. A Casa Amarela gerou vários desembargadores, promotores públicos categorizados, um ministro do Supremo Tribunal Federal e quejandos, alguns vivos, outros já mortos. Produziu “Chico Pena de Ouro”. A morte é fatal. Ceifa aqui e acolá, constituindo surpresa para os não convocados, mas não falta. No dia 8 de julho, logo ali, sem que muitos amigos soubessem, a grande harpia carregou Francisco Carlos Rocha de Barros, o “Pena de Ouro”, assim chamado por ter vencido, enquanto acadêmico de Direito, um concurso literário de mesmo nome. Vitoriou-se facilmente. Obteve, igualmente, o primeiro lugar na disputa a orador da turma. Poeta, pintor qualificado, homem bonito (assim diziam as mulheres), apaixonado pela vida, excelente advogado, grandes qualidades, grandes defeitos também, porque, afinal, um homem perfeito é um chato. A cidade o homenageou (Era cidadão emérito). A certa altura, Chico Barros resolveu ser juiz. Foi guindado ao Tribunal sem tropeços. Escreveu lindos poemas e obras jurídicas. Sempre gostei de seus versos. Amarguei a leitura de questões sobre a locação de imóveis. Das rimas deixou saudade. Nos despejos fez seguidores entre os civilistas.


Foi-se, o “Chico Pena de Ouro”, aos sessenta e sete anos de idade. Aqui, relembro minha infância. Os sexagenários da época eram velhos. Vestiam pijamas no trajeto à padaria, arrastando as chinelas enquanto buscavam pão e leite para o café da manhã. Agora é diferente. Eu disse a uma atendente, no aeroporto, furando a fila, que tinha a prerrogativa de atenção prioritária, pois envelhecera. Ela respondeu, com um sorriso maroto: – Do jeito que me olhou, você não é velho. É só usado!…


Chico Pena de Ouro não era velho e não era usado. Estivemos brigados durante um quarto de século. Estávamos jantando. “Chico” empunhou o garfo e cobiçou a batata frita que me sobrava. Eu disse: “- Larga a minha batata!” Chico me olhou com aqueles visores verdes e fisgou, resoluto, o fim do meu manjar. Em razão disso, na eleição seguinte à OAB, pusemos 40.000 advogados em conflito. Éramos muito moços mas já conhecíamos a importância daquele vegetal, tanto assim que Machado de Assis afirmara: “- Ao vencedor, as batatas!”. Aos sessenta anos, Francisco Carlos Rocha de Barros se mantinha compulsivamente teimoso, reeditando um quadrante em que pretendia ser cortador no vôlei, praticando infindavelmente até obter resultados aceitáveis. Quando queria, queria. Há pouco, entretanto, decidiu parar de querer. Um golpe sujo do destino o pegou no trança-pé. Deixou-se ir. Fechou-se para o mundo. Não valeria a pena continuar daquele jeito.


Não fui ao enterro. Ninguém me avisou. Também não sei se haverá missa de sétimo dia. E não sei se vou. Prefiro um velejar suave, renitente, mas esgotado marujo levado por brisa macia, religado ao passado na “Graziela dos anos dourados”. É uma forma de oração Sempre foi, a extravagância, nossa maneira de rezar. Chico Pena de Ouro há de entender. Na chegança do horizonte, a bóia de sino balança, tão triste, no meio do mar. Delém, delém… a morte é coisa esquisita mas é batalha a enfrentar, tudo a seu tempo, tudo a tempo certo. Provisoriamente, resta-me a batata.



Informações Sobre o Autor

Paulo Sérgio Leite Fernandes

Advogado criminalista em São Paulo e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.


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