A construção social das práticas alimentares: o consumidor de produtos orgânicos e a constituição de identidades

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Resumo: O atual paradigma do estilo de vida da sociedade brasileira vem massificando a preocupação com a qualidade dos alimentos consumidos, realidade esta constatada pela inter-relação dos fatores culturais e sociais que condicionam os hábitos e escolhas de determinados grupos específicos de consumidores, como os de produtos orgânicos, cujas práticas alimentares apresentam-se como verdadeiros instrumentos para análise de identidades sociais. Para tanto, se realizou uma pesquisa bibliográfica em referência ao levantamento teórico do tema sobre as práticas alimentares analisadas por Santos (2006), do consumo desenvolvido por Mary Douglas (2004); o estilo de vida tratado por Bourdieu (1994), e sociedade moderna tratado por Lipovetsky (2007) e Giddens (1996). Tal abordagem permitiu constatar que as construções sociais das práticas alimentares dos grupos observados interferem na identificação e determinação de identidade.


Palavra-chaves: Práticas Alimentares, Consumidor, Produtos Orgânicos, Identidades.


Sumário: 1. Introdução. 2. As ciências sociais e a análise dos hábitos alimentares. 3. Consumidores de produtos orgânicos. 4. Considerações Finais. 5 Referências


1. Introdução


O debate sobre a problemática do desenvolvimento sustentável tem promovido transformações não apenas nas formas de produção como nas práticas de consumo. De um lado, há iniciativas que pretendem instaurar formas mais sustentáveis de produção a partir da pressão de consumidores com preocupações ecológicas, utilizando-se instrumentos de certificação ambiental. De outro, movimentos sociais que pregam mudanças no estilo de vida contemporâneo, com forte ênfase na crítica às práticas de consumo modernas ou capitalistas. Nos dois casos, os hábitos alimentares são colocados em evidência, num discurso que combina ainda apelos estéticos e relativos à saúde.


Para a concretização desse trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica das obras referentes ao tema tendo como objetivo central analisar as práticas alimentares como um objeto em si e essencialmente transdiciplinar, construtoras de identidades culturais


2. As ciências sociais e a análise dos hábitos alimentares


Nos produtos orgânicos como os procedimentos empregados são isentos da utilização de agroquímicos (pesticidas ou fertilizantes sintéticos), a produção se torna de qualidade. O termo “orgânico” vem do inglês (organic) e foi criado por um agricultor britânico nos anos de 1950. Na Europa os produtos orgânicos também são chamados de “biológicos”, “bio” ou de “ecológicos”.


A agroecologia é um sistema de produção que procura evitar romper o equilíbrio ecológico que dá a estabilidade aos ecossistemas naturais, e desenvolve novos valores nas relações dos agricultores familiares com o mercado, que requer dos produtores estratégia de organização e comercialização consolidado na ética. A agroecologia é uma ciência das interações positivas (ALTIERI, 2002), isto é, ajuda os produtores na comercialização e principalmente preservação da natureza.


O impacto desse consumo é visível em toda sociedade, pois é dentro dela que ocorrem a produção, as transformações e as trocas que são provocadas pelo consumo. No Brasil, existem vários tipos e marcas de produtos orgânicos para serem consumidos como, café, soja, leite, legumes, verduras e muitos outros, esses produtos são produzidos sem agredir o meio ambiente, por isso, existe grandes investimentos de capital para que os produtos orgânicos sejam selados ou certificados na condição de orgânicos e ecológicos (agro-eco-negócios), com isso se objetiva garantir uma sociedade ecologicamente sustentável.


 As práticas de consumo estabelecem as relações sociais, uma vez que a comunicação estabelecida pelos grupos sócio-culturais deseja possuir determinadas mercadorias que atuam em uma sociedade moderna e consumista que busca sempre atender suas necessidades. Para a antropóloga Mary Douglas (2006), o consumo é uma questão cultural e simbólica que determina as práticas sociais da modernidade e deve fazer sentido na hora da compra, e não assegurada em uma superficialidade do consumismo.


Segundo a autora as escolhas de consumo refletem, nos julgamentos morais, culturais e nas relações familiares, ou seja, consumir é um processo onde todas as categorias sociais estão definidas, afirmadas ou redefinidas.


O consumidor de alimentos orgânicos busca bem-estar, saúde e o prazer para si mesmo. Lipovestsky (1989) enfatiza que tudo que consumimos estão enfatizados no materialismo que é freqüente e presente em nossa sociedade com grande demanda de troca de bens. Ele diz que “no império do valor de uso, não nos ligamos mais as coisas, muda-se facilmente de casa, de carro, de mobilidade, a era que sacraliza socialmente as mercadorias e aquela na qual nos separamos sem dor de nossos objetos” (LIPOVESTSKY, 1989, p. 175).


O consumidor de produto orgânico se desapega dos alimentos convencionais, buscando inovação na qualidade de vida. Nesse sentido, Lipovestsky aponta que, “jamais se consome um objeto por ele mesmo ou por seu valor de uso, mas em razão de seu ‘valor de troca signo’, isto é, em razão do prestígio, do status da posição social que confere”. (LIPOVESTSKY, 1989, p. 171).


É nesse contexto que inserimos a proposta do nosso estudo, uma vez que a sociedade contemporânea sugere variadas formas de interação social, nas idéias e atitudes dos consumidores que vem se transformando nos últimos tempos. Os hábitos de consumo podem ser alterados seja por meio da inovação no uso dos recursos, ou de uma modificação do módulo das satisfações (Campbell, 2001). Segundo Neves e Castro (2003), os consumidores de alimentos orgânicos procuram qualidades encontradas apenas nestes produtos, sendo esta característica um exemplo típico da expressão das práticas alimentares desenvolvidas pelos grupos de consumidores de produtos orgânicos, assim, deste modo, o foco da presente pesquisa consiste na análise social destas práticas alimentares próprias de um segmento específico da sociedade que viabiliza a determinação de identidades próprias e diferenciais.


3. Consumidores de produtos orgânicos


O consumidor de produtos orgânicos estabelece valores referencias para com o consumo, como também para seu estilo de vida. Podemos dizer que isso reflete em uma mudança no comportamento em relação à alimentação, o que levanta o questionamento da existência de perfis diferenciados de consumidores, sobretudo aquele relativo à produção saudável, influenciado por um estilo de vida focado na qualidade substancial dos produtos, sendo justamente este tipo de consumidor orgânico que precisa ser melhor estudado pelas ciências sociais.


É importante conhecer as características do consumidor, suas necessidades e valores, avaliando de forma mais profunda os aspectos e características determinantes da compra de produtos orgânicos sob uma perspectiva sociológica, levando-se em consideração as relações sociais que moldam hábitos alimentares entre consumidores das feiras e mercados orgânicos, buscando identificar o comportamento destes consumidores diante das diferentes sociedades e culturas englobadas pelo dinâmico mercado de produtos orgânicos.


Tal característica está presente no perfil do consumidor e na sua construção da subjetividade. Castels (1999) diz que esse consumidor participa do embate de classes sociais “através da distribuição e apropriação de bens”. Neste contexto, segundo Canclini (1999), consumir é participar deste embate “por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo”.


Os alimentos orgânicos estão cada vez mais ganhando espaço devido ao estilo comportamental que os indivíduos vêm tendo frente à agricultura industrial. O referencial adotado passa pela qualificação do valor nutritivo e não pela aparência dos produtos alimentares, o que expressa uma postura diferenciada deste grupo consumidor, tornando-se um ponto significativo para se analisar o quanto esses consumidores se diferenciam do padrão de consumo convencional e o quanto contribuem para a valorização da produção orgânica e mesmo da manutenção da sustentabilidade ambiental e equidade social, já que há a valorização do produtor orgânico porque empregaria na atividade conhecimentos tradicionais até pouco tempo desvalorizados pelo saber técnico-científico.


A noção de preservação do meio ambiente natural e a preocupação com a saúde vem sendo um dos assuntos mais discutidos na atualidade. A saúde como vetor da qualidade de vida dos seres humanos incide diretamente no comportamento dos consumidores que se voltam para os produtos com apelo ambiental, ou seja, aqueles oriundos de um manejo sustentável dos recursos naturais, relacionados com um estilo de vida saudável e garantidor da segurança alimentar, daí o crescimento do mercado de produtos orgânicos.


4. Considerações Finais


Tendo como premissa que o consumidor inserido no mercado de produtos orgânicos detém hábitos e práticas alimentares diferenciadas, a pesquisa busca analisar numa perspectiva social a relação destas práticas na determinação de grupos sociais específicos e suas identidades


As principais razões que explicam o aumento da produção orgânica são o valor nutricional, o sabor diferenciado de certos produtos, aliadas as técnicas que ajudam a preservação do meio ambiente, o que possibilita a inferência de que esse tipo de atividade constitui uma forma de produção ecologicamente sustentável, socialmente justa e economicamente viável em suas escalas de produção.


Em relação aos consumidores de produtos orgânicos e ao comércio que vende estes produtos é relevante a proposta desta pesquisa uma vez que se propõem analisar os atributos e os aspectos e variáveis, que influenciam a decisão de compra de produtos orgânicos e como o mercado interferem e atuam nessa preferência.


 


Referências

ALTIERI, Miguel. Agroecologia Bases científicas para uma agricultura sustentável. Guaíba/RS: Editora Agropecuária, 2002.

CAMPBELL, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Tradução por Mauro Gama. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

CANCLINI, N, Garcia. Consumidores e Cidadãos: Conflitos Multiculturais na Globalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1999.

CARVALHO, Marcelo P. Perspectivas brasileiras no comércio mundial de lácteos. Artigo publicado no ANUALPEC – Anuário da Pecuária Brasileira, 2004.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede: a era da informação. São Paulo, Paz e Terra, vol.I, 1999.

BOURDIEU, Pierre. Esprits d’État. Genèse et Structure du Champ Bureaucratique in Raisons Pratiques : sur la Théorie de l’Action, Paris, Éditions du Seuil, 1994.

DOUGLAS, Mary & BARON, Isherwood. O Mundo dos Bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2004.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MINAYO, M. C. de S. Ciência, técnica e arte: o desafio da pesquisa social. In: MINAYO, M. C. de S. (Orgs.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. http://www.agricultura.gov.br/, acessado em 25/08/2010.

NEVES, M.F.; CASTRO, L.T. Marketing e estratégia em agronegócios e alimentos. São Paulo: Atlas, 2003.

NETO, Belarmino Mariano. Abordagem territorial e enfoques agroecológicos no Agreste/Brejo paraibano: desenhos, arranjos e relações. Tese (Programa Institucional de Doutorado em Sociológia) – Universidade Federal da Paraíba, Campina Grande – Paraíba. 2006.

RETONDAR, Anderson Moebus. Sociedade de consumo, modernidade e globalização. São Paulo: Annablume; Campina Grande: EDUFCG, 2007.

ZYLBERSTAJN, D.; NEVES, M. F. Economia e gestão dos negócios agroalimentares: indústria de alimentos, indústria de insumos, produção agropecuária e distribuição. São Paulo: Pioneira, 2000.

Informações Sobre o Autor

Rosangela Nascimento de Souza

Graduada em Sociologia pela Universidade Federal de Campina Grande-PB


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