Pular para o conteúdo
Âmbito Jurídico

Se pedir demissão perde o que?

Publicado em · Atualizado em

Ao pedir demissão, o empregado normalmente recebe saldo de salário, 13º proporcional e férias adquiridas e proporcionais com 1/3. Em contrapartida, a saída voluntária não gera a multa de 40% do FGTS, o saque-rescisão por esse motivo nem seguro-desemprego; o aviso prévio não cumprido também pode ser descontado. O acerto depende da data de saída, da existência de férias já adquiridas, do aviso, do tipo de contrato e de eventual garantia de emprego. Neste artigo, explicamos em detalhes o que o trabalhador perde ao pedir demissão, o que continua tendo direito a receber, como funciona o aviso prévio, o saque do FGTS, o seguro-desemprego e o que fazer para não ser prejudicado.

O que é o pedido de demissão

Pedir demissão é o ato pelo qual o empregado manifesta, de forma livre e consciente, sua vontade de encerrar o contrato de trabalho. Isso pode ocorrer por diversos motivos, como:

  • Insatisfação com o ambiente de trabalho

  • Proposta mais vantajosa em outra empresa

  • Desejo de empreender ou estudar

  • Mudança de cidade

  • Problemas pessoais ou de saúde

Independentemente do motivo, o pedido de demissão precisa ser formalizado, preferencialmente por escrito, para que produza efeitos legais. A partir desse momento, inicia-se o processo de desligamento, com impacto direto sobre os direitos trabalhistas.

Direitos garantidos ao trabalhador que pede demissão

Apesar de perder alguns benefícios em comparação com quem é demitido sem justa causa, o trabalhador que pede demissão não sai de mãos vazias. Ele continua tendo direito a:

Saldo de salário

O trabalhador recebe o valor proporcional aos dias trabalhados no mês da demissão. Por exemplo, se trabalhou 10 dias de um mês com 30 dias, terá direito a 10/30 do salário.

Férias vencidas

Ao completar o período aquisitivo, o empregado passa a ter férias adquiridas. Se o empregador também deixar vencer o período concessivo de 12 meses sem concedê-las, a remuneração é devida em dobro, além do terço constitucional, nos termos dos artigos 137 e 146 da CLT:

  • Valor das férias vencidas

  • Adicional de 1/3 constitucional

Férias proporcionais

No período aquisitivo incompleto, são devidas férias proporcionais. Conta-se 1/12 por mês de serviço ou fração superior a 14 dias, com acréscimo de 1/3:

  • Proporcional aos meses trabalhados desde o último período aquisitivo

  • Com adicional de 1/3

13º salário proporcional

O 13º proporcional corresponde a 1/12 da remuneração por mês computável no ano. Fração igual ou superior a 15 dias conta como mês integral, conforme a Lei 4.090/1962.

Depósito do FGTS do mês da rescisão

A empresa deve recolher os depósitos de FGTS ainda devidos, inclusive os incidentes sobre as parcelas salariais cabíveis na rescisão. O recolhimento não autoriza, por si só, o saque por causa do pedido de demissão.

Direitos que o trabalhador perde ao pedir demissão

Ao pedir demissão, o trabalhador abre mão de certos direitos que estariam garantidos caso fosse dispensado sem justa causa. Entre os direitos perdidos estão:

Saque do FGTS

O pedido de demissão, isoladamente, não é hipótese de saque-rescisão. O saldo permanece na conta vinculada e poderá ser movimentado se ocorrer outra hipótese prevista no artigo 20 da Lei 8.036/1990, como aposentadoria, aquisição de moradia nas condições legais ou três anos ininterruptos fora do regime do FGTS:

  • Aposentadoria

  • Doenças graves

  • Compra de imóvel

  • Permanência de 3 anos fora do regime do FGTS

Multa de 40% sobre o FGTS

A multa de 40% sobre o saldo do FGTS é devida apenas nos casos de dispensa sem justa causa. Quando o trabalhador pede demissão, essa multa não é paga pela empresa.

Seguro-desemprego

Ao pedir demissão, o trabalhador perde o direito de requerer o seguro-desemprego, benefício concedido ao empregado dispensado involuntariamente e que atende aos requisitos legais (tempo de trabalho, registro, etc.).

Aviso prévio indenizado

No pedido de demissão de quem recebe por mês, o aviso é, em regra, de 30 dias. Se o empregado não cumprir o período e a empresa não o dispensar, o artigo 487, § 2º, da CLT autoriza o desconto dos salários correspondentes. A compensação no acerto não pode exceder uma remuneração mensal, conforme o artigo 477, § 5º, e norma coletiva mais favorável deve ser observada.

Aviso prévio no pedido de demissão

O que é o aviso prévio

O aviso prévio é o prazo de 30 dias concedido por lei para que o empregador ou o empregado manifeste, com antecedência, a intenção de encerrar o contrato. O objetivo é permitir que ambas as partes se preparem para o desligamento.

Como funciona no pedido de demissão

Quando o trabalhador pede demissão, ele tem duas opções:

  1. Cumprir os 30 dias de aviso: trabalha normalmente e recebe o salário correspondente.

  2. Não cumprir todo ou parte do aviso: pode haver desconto do período não trabalhado, salvo dispensa expressa da empresa ou regra coletiva mais favorável. A redução de duas horas diárias ou sete dias prevista no artigo 488 da CLT é própria do aviso dado pelo empregador, não do pedido de demissão.

A empresa, por sua vez, pode:

  • Dispensar o trabalhador do cumprimento do aviso (nesse caso, não pode cobrar o valor)

  • Exigir o cumprimento integral ou parcial

Tudo deve ser registrado por escrito, no termo de rescisão do contrato de trabalho.

Pedido de demissão durante o contrato de experiência

O pedido de demissão também pode ocorrer durante o período de experiência. Nesses casos, as regras são específicas:

  • Sem cláusula que assegure rescisão antecipada, o artigo 480 da CLT admite indenização ao empregador apenas pelos prejuízos comprovados, limitada ao valor que o empregado receberia em situação equivalente; não existe multa automática de metade do período restante

  • Se houver cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão antes do termo, aplicam-se as regras dos contratos por prazo indeterminado, inclusive aviso prévio, conforme o artigo 481 da CLT

Por isso, é essencial ler com atenção o contrato de experiência antes de pedir demissão.

Pedido de demissão durante estabilidade provisória

Alguns trabalhadores têm estabilidade provisória no emprego, como:

  • Gestantes

  • Cipeiros (membros da CIPA)

  • Trabalhadores acidentados

  • Dirigentes sindicais

O artigo 500 da CLT condiciona a validade do pedido de demissão do empregado estável à assistência do sindicato ou, na falta dele, da autoridade competente. Em 2025, o Pleno do TST fixou tese vinculante de que essa assistência também é necessária no pedido de demissão da gestante com garantia provisória de emprego.

A consequência da falta de assistência e o alcance da garantia dependem do tipo de estabilidade e dos fatos. No caso da gestante, a tese vinculante do TST reconhece a invalidade do pedido sem a assistência exigida; em outras hipóteses, é preciso examinar a norma legal, coletiva ou jurisprudencial aplicável.

Pedido de demissão durante afastamento médico

O afastamento com benefício previdenciário pode suspender efeitos do contrato, mas não cria proibição automática e absoluta de pedir demissão. A validade depende de vontade livre e consciente; benefício acidentário, estabilidade, incapacidade para compreender o ato ou coação podem alterar a análise.

Se, ainda assim, for registrado o pedido durante esse período:

  • O pedido pode ser questionado se houver vício de consentimento, coação ou descumprimento de assistência legalmente exigida

  • Reintegração ou indenização não são automáticas: dependem da invalidade do desligamento e da proteção existente no caso concreto

  • Antes de assinar, é prudente confirmar a espécie do benefício, eventual nexo ocupacional, a capacidade para o ato e a existência de estabilidade

Formas de formalizar o pedido de demissão

Para evitar problemas futuros, o pedido de demissão deve ser feito:

  • Por escrito e assinado

  • Preferencialmente em duas vias, com protocolo de recebimento pela empresa

  • Informando a data de saída e a decisão de cumprir ou não o aviso prévio

A empresa pode solicitar que o pedido seja manuscrito, mas isso não é obrigatório por lei. O mais importante é que haja prova da manifestação de vontade do trabalhador.

Documentos a receber ao pedir demissão

O trabalhador que pede demissão deve receber:

  • Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho (TRCT)

  • Comprovante de pagamento das verbas rescisórias

  • Comprovante de depósito do FGTS do mês

  • CTPS atualizada (física ou digital) com a data de saída

  • Atestado de Saúde Ocupacional (ASO), quando houver exame demissional; pela NR-7, o exame clínico ocorre em até 10 dias do término e pode ser dispensado se o exame ocupacional mais recente estiver dentro dos prazos de 135 ou 90 dias, conforme o grau de risco

  • Demonstrativo discriminado do acerto e documentos que comprovem a comunicação da extinção aos órgãos competentes, além de outros documentos previstos em norma coletiva

Prazo para pagamento das verbas rescisórias

O artigo 477, § 6º, da CLT estabelece um prazo único: pagamento das verbas e entrega dos documentos rescisórios em até 10 dias corridos contados do término do contrato, seja o aviso trabalhado, seja dispensado ou descontado.

  • Prazo: até 10 dias corridos contados do fim do contrato

  • Aviso trabalhado: também segue o prazo de 10 dias; a regra antiga do primeiro dia útil não está mais vigente

O descumprimento desses prazos pode gerar a multa prevista no art. 477, §8º da CLT, no valor de um salário mensal do empregado.

Quando o pedido de demissão pode ser revertido

É possível que o trabalhador se arrependa do pedido de demissão. Nesse caso, a reversão só será válida se:

  • A empresa aceitar formalmente o cancelamento do pedido

  • A reconsideração for apresentada antes do término do aviso e a outra parte a aceitar, conforme o artigo 489 da CLT

  • O contrato ainda não tiver sido efetivamente encerrado

Caso contrário, o contrato será considerado rescindido e não haverá direito de voltar automaticamente.

Pedido de demissão x rescisão por acordo

Desde a Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), existe a rescisão por acordo entre empregado e empregador. Nessa modalidade:

  • O aviso prévio indenizado é devido pela metade e a indenização do FGTS cai de 40% para 20%; saldo salarial, 13º e férias devidas não são reduzidos pela metade

  • Pode sacar até 80% do saldo do FGTS

  • Não tem direito ao seguro-desemprego

O acordo do artigo 484-A da CLT depende de consentimento real das duas partes. Não pode ser imposto nem usado para mascarar dispensa sem justa causa; nessa modalidade há saque de até 80% do FGTS e não há seguro-desemprego.

Perguntas e respostas

Se eu pedir demissão, perco todos os meus direitos?

Não. Você mantém direitos como saldo de salário, férias vencidas e proporcionais, e 13º proporcional. O que perde é o saque do FGTS, a multa de 40% e o seguro-desemprego.

Tenho que cumprir aviso prévio ao pedir demissão?

Sim. O aviso prévio de 30 dias deve ser cumprido ou será descontado do acerto final, salvo se a empresa dispensar.

Posso pedir demissão durante o contrato de experiência?

Sim, mas poderá haver multa contratual. Verifique as cláusulas do contrato.

Recebo a multa de 40% do FGTS se pedir demissão?

Não há multa de 40% no pedido de demissão. Na dispensa sem justa causa, a indenização é de 40%; no acordo do artigo 484-A, é de 20%.

Posso sacar o FGTS se pedir demissão?

Não, salvo em casos específicos como aposentadoria, doença grave ou após 3 anos fora do regime do FGTS.

Posso pedir demissão mesmo com estabilidade?

Pode ser possível, mas a validade exige análise da garantia. O artigo 500 prevê assistência para empregado estável, e a tese vinculante do TST a exige expressamente para a gestante com garantia provisória.

A empresa pode me proibir de pedir demissão?

Não. O pedido é um direito do trabalhador. Qualquer forma de coação pode ser denunciada e judicialmente anulada.

Conclusão

Pedir demissão não elimina saldo salarial, 13º proporcional nem férias devidas, mas afasta as parcelas ligadas à dispensa involuntária. Por isso, é essencial avaliar com cuidado a decisão, conhecer todos os seus direitos e obrigações, entender o impacto do aviso prévio e formalizar corretamente o pedido.

Caso tenha dúvidas ou enfrente dificuldades no processo de desligamento, procure orientação do sindicato da categoria ou de um advogado trabalhista. Um pedido de demissão bem conduzido pode garantir que o encerramento do vínculo seja feito de maneira tranquila, sem prejuízos para nenhuma das partes.

Resumo prático do pedido de demissão

Parcela Regra geral O que conferir
Saldo de salário Devido pelos dias trabalhados no mês Dias, adicionais, horas extras e descontos
13º proporcional 1/12 por mês com ao menos 15 dias computáveis Avos do ano e remuneração-base
Férias Adquiridas e proporcionais com 1/3; podem ser em dobro se vencido o período concessivo Períodos aquisitivos e concessivos
FGTS Depósitos devidos continuam obrigatórios, mas o pedido não libera saque-rescisão Extrato da conta vinculada e competências faltantes
Multa do FGTS Não há 40% no pedido de demissão Não confundir com dispensa sem justa causa ou acordo de 20%
Seguro-desemprego Não é devido na saída voluntária O benefício pressupõe dispensa involuntária e demais requisitos legais
Aviso prévio Pode ser trabalhado, dispensado ou descontado se não cumprido Carta, resposta da empresa e norma coletiva

Checklist antes de entregar a carta

  1. Confirme se o contrato é por prazo indeterminado, de experiência ou outro contrato a termo.
  2. Verifique se existe estabilidade, afastamento previdenciário ou norma coletiva aplicável.
  3. Defina por escrito a data do pedido e se pretende cumprir o aviso.
  4. Guarde a carta protocolada e a resposta da empresa sobre dispensa ou desconto do aviso.
  5. Compare o TRCT com holerites, períodos de férias, 13º e extrato do FGTS.
  6. Cobre pagamento e documentos em até 10 dias corridos do término do contrato.

Leituras relacionadas

Fontes oficiais


Textos oficiais mencionados no artigo