Multa de 40% do FGTS é depositada onde?
Publicado em · Atualizado em
A multa de 40% é recolhida pelo empregador à conta vinculada do contrato encerrado no FGTS, e não diretamente à conta corrente do empregado. Depois, quando o saque estiver autorizado, o valor pode ser transferido pela CAIXA para a conta bancária indicada pelo trabalhador. Depósito, liberação e crédito bancário são etapas diferentes; o saque-aniversário não libera automaticamente o saldo inteiro na demissão.
Neste artigo, vamos explicar em detalhes onde exatamente é depositada a multa de 40%, quando ela é devida, quem tem direito, como é feito o cálculo, qual a legislação aplicável, como o trabalhador pode sacar o valor, e ainda abordaremos questões como a multa nos casos de acordo de demissão, falência da empresa, e fraudes ou omissões no pagamento. Ao final, traremos uma seção com perguntas e respostas e uma conclusão com as principais orientações para empregadores e empregados.
O que é a multa de 40% do FGTS
A multa de 40% é a indenização rescisória prevista no art. 18, §1º, da Lei 8.036/1990 para a dispensa sem justa causa. A base considera os valores do vínculo encerrado, com atualização e juros aplicáveis. Não é, necessariamente, o saldo que aparece disponível para saque no aplicativo, nem a soma das contas de todos os empregos.
A indenização protege o trabalhador na perda imotivada do emprego. Para apurá-la, o histórico do vínculo precisa estar completo, inclusive quanto a depósitos devidos e não recolhidos. Não se deve concluir que todos os afastamentos geram FGTS: o recolhimento em cada período depende da hipótese legal e das remunerações devidas.
A regra está prevista no artigo 18, §1º da Lei nº 8.036/1990, e consolidada pela Constituição Federal de 1988, no artigo 7º, inciso I.
Nesta página
Quando a multa de 40% do FGTS é devida
A hipótese mais comum de multa de 40% é a dispensa sem justa causa. Ela também pode decorrer de rescisão indireta reconhecida. Não confunda o motivo que permite sacar o FGTS com o percentual de indenização devido em cada modalidade de desligamento.
Para enquadrar outras situações, verifique o motivo efetivo da rescisão:
-
Rescisão indireta (quando o empregado rescinde o contrato por falta grave do empregador)
-
Extinção da empresa
-
Encerramento das atividades
-
Falecimento do empregador individual com encerramento do contrato: exige exame da hipótese e do regime aplicável; o direito de saque não dispensa essa análise.
-
Culpa recíproca ou força maior reconhecida pela Justiça do Trabalho: a indenização é de 20%, nos termos do art. 18, §2º, da Lei 8.036/1990. Alegar crise financeira ou fechamento não autoriza reduzir a multa por conta própria.
Não se paga a multa de 40% nestas situações, observadas as particularidades de cada contrato:
-
Pedido de demissão pelo empregado
-
Dispensa por justa causa
-
Término de contrato por prazo determinado (salvo exceções)
-
Acordo de rescisão entre as partes (nesse caso, a multa é de 20%)
Onde a multa de 40% do FGTS é depositada
Na regra geral aqui tratada, o empregador recolhe a multa à conta vinculada do vínculo encerrado no FGTS, administrada pela CAIXA. Isso é diferente da conta corrente ou poupança indicada posteriormente pelo trabalhador para receber um saque autorizado.
A conta do FGTS é administrada pela Caixa Econômica Federal, e cada contrato de trabalho gera uma conta vinculada individual para o trabalhador. Quando ocorre a rescisão sem justa causa, o empregador deve:
-
Informar corretamente o desligamento no eSocial. Para os empregadores abrangidos, as rescisões a partir de 01/03/2024 são recolhidas pelo FGTS Digital, não por uma escolha livre entre sistemas antigos.
-
Conferir as remunerações de todo o vínculo e a base para fins rescisórios; completar ou corrigir informações faltantes antes de emitir a guia no sistema aplicável.
-
Pagar a guia que inclui os valores rescisórios devidos e guardar o comprovante de quitação. Guia emitida, sem pagamento, não comprova depósito.
-
Acompanhar o processamento e a individualização na conta vinculada. A CAIXA continua responsável pelo extrato e pelo saque; a informação de desligamento não substitui o recolhimento.
O recolhimento não é substituído por um Pix da empresa ao empregado. Depois da liberação do saque, porém, a CAIXA pode transferir o valor para a conta bancária de titularidade do trabalhador indicada no aplicativo. O acesso ao restante do saldo depende da modalidade de saque e de bloqueios aplicáveis.
Como é feito o cálculo da multa de 40% do FGTS
A base é a do contrato encerrado, com os depósitos devidos, atualização monetária e juros aplicáveis. Não use a soma de todas as contas de empregos diferentes nem apenas o saldo disponível no aplicativo: saques anteriores não apagam a base histórica e a distribuição de resultados do Fundo não integra essa base.
O cálculo básico é:
Multa de 40% = 0,40 × base do FGTS para fins rescisórios. A atualização e os juros que compõem essa base entram antes de aplicar os 40%; não se soma toda a correção depois da multiplicação.
Exemplo prático
Exemplo simplificado: se a base correta para fins rescisórios do vínculo, já atualizada, for R$ 20.000,00, a multa será:
40% de R$ 20.000,00 = R$ 8.000,00
No exemplo, R$ 8.000,00 é a indenização, não o saldo total disponível para saque. O depósito e a liberação devem ser conferidos separadamente; saque-aniversário e garantias contratuais podem afetar o que estará disponível ao trabalhador.
Como o trabalhador saca a multa de 40% do FGTS
Na regra geral, o FGTS rescisório vence em até dez dias contados do desligamento (D+10). Esse prazo é do empregador para recolher, não uma garantia de que o dinheiro cairá na conta bancária no mesmo dia. Não confunda com o vencimento do FGTS mensal.
Para acompanhar a liberação e solicitar o saque, utilize os canais oficiais da CAIXA, principalmente o aplicativo FGTS:
-
Comparecimento a uma agência da Caixa Econômica Federal
-
Utilização do aplicativo FGTS
-
Saque automático (se autorizado via aplicativo)
Se houver solicitação de documentos, confira no aplicativo ou na CAIXA a lista para seu motivo de desligamento. Podem ser necessários:
-
Documento de identidade com foto
-
Carteira de trabalho (física ou digital)
-
Termo de rescisão de contrato de trabalho
-
Comprovação do motivo de desligamento, quando solicitada. Homologação sindical não é requisito geral para toda rescisão.
Caso o saque seja autorizado pelo aplicativo do FGTS, o trabalhador pode transferir os valores para uma conta bancária de sua titularidade em qualquer instituição financeira.
O que acontece se o empregador não pagar a multa
Se o empregador não efetuar o pagamento da multa de 40% do FGTS, ou se pagar com atraso, o trabalhador pode:
-
Reclamar junto ao sindicato da categoria
-
Ingressar com ação trabalhista
-
Solicitar fiscalização junto ao Ministério do Trabalho
-
Apresentar documentos à assistência jurídica para avaliar medidas judiciais adequadas. Bloqueio de valores exige decisão e requisitos próprios; não é consequência automática da reclamação.
Além disso, o não pagamento da multa pode gerar:
-
Multa por atraso no pagamento das verbas rescisórias (artigo 477 da CLT)
-
Juros e correções sobre o valor devido
-
Responsabilização pessoal dos sócios (em certos casos)
-
Necessidade de regularizar informações e documentos da rescisão. A assistência sindical pode ser útil, mas não se deve presumir homologação obrigatória de todo contrato.
Portanto, é dever do empregador efetuar o pagamento dentro do prazo legal, sob pena de penalidades judiciais e administrativas.
O que ocorre nos casos de acordo entre as partes
Desde a Reforma Trabalhista de 2017, passou a ser possível a rescisão do contrato por acordo entre empregado e empregador, prevista no artigo 484-A da CLT.
Neste caso:
-
O aviso-prévio é devido pela metade se for indenizado; a redução não se aplica indistintamente ao aviso trabalhado.
-
A multa do FGTS é de 20% sobre os depósitos
-
Na sistemática de saque-rescisão, o acordo permite movimentar até 80% dos depósitos. Não aplique esse limite como autorização universal de saque ao optante pelo saque-aniversário.
-
Não tem direito ao seguro-desemprego
A indenização de 20% é recolhida ao FGTS. A possibilidade de movimentar valores deve ser examinada conforme o motivo de desligamento, a modalidade de saque vigente e eventuais garantias ou bloqueios.
O valor da multa é recolhido ao INSS ou ao FGTS?
A multa de 40% é recolhida exclusivamente ao FGTS, e não ao INSS. Ela não representa salário, não sofre descontos previdenciários ou tributários e não incide sobre férias, 13º ou outras verbas.
A multa tem natureza indenizatória, não salarial. Isso não dispensa conferir os valores recebidos e o informe de rendimentos, nem autoriza tratar todas as demais parcelas da rescisão como isentas.
Multa de 40% em caso de falência ou encerramento da empresa
Mesmo em casos de falência ou encerramento de atividades, a multa de 40% continua sendo devida se o contrato for rescindido sem justa causa. Nestes casos, o trabalhador pode:
-
Habilitar o crédito trabalhista no processo de falência ou recuperação judicial
-
Avaliar a cobrança e eventuais medidas patrimoniais no juízo competente. Falência ou inadimplência não tornam automaticamente os sócios responsáveis pela dívida.
-
Na falência, a classificação do crédito trabalhista observa o art. 83 da Lei 11.101/2005, inclusive o limite de 150 salários-mínimos por credor para essa classe. A preferência não garante recebimento integral nem imediato.
A responsabilização de sócios ou administradores exige fundamento e procedimento próprios. Na falência, a desconsideração da personalidade jurídica segue o art. 82-A da Lei 11.101/2005 e depende do juízo falimentar; não decorre apenas do não pagamento.
A multa de 40% do FGTS é tributável?
A multa legal de 40% do FGTS é indenizatória e isenta de imposto de renda. Não é salário nem contribuição ao INSS. Essa natureza não torna isentas todas as parcelas do acerto e não garante que toda a multa estará livre para saque quando houver garantia de crédito validamente contratada.
Isenção de imposto não significa dispensa de informação. Se houver obrigação de entregar a declaração anual, os valores recebidos devem ser informados na categoria de rendimentos isentos e não tributáveis, conforme as instruções da Receita e o informe aplicável.
Como saber se a multa foi depositada corretamente
O trabalhador pode consultar se a multa de 40% foi corretamente depositada utilizando:
-
Aplicativo FGTS (Caixa)
-
Atendimento oficial da CAIXA para esclarecer divergências no extrato ou na liberação.
-
Agência física da Caixa Econômica Federal
-
Identificação pelo CPF/NIS nos canais oficiais, sem compartilhar senha ou código de acesso com terceiros.
Se não houver registro do depósito da multa, o trabalhador deve procurar:
-
O setor de recursos humanos da empresa
-
O sindicato da categoria
-
Um advogado trabalhista para ajuizar ação de cobrança
Seção de perguntas e respostas
A multa vai direto à conta corrente?
O empregador deve recolhê-la ao FGTS. Uma vez autorizado o saque, a CAIXA pode creditar os valores na conta bancária de titularidade do trabalhador cadastrada no aplicativo. São duas etapas diferentes.
É possível sacar a multa sem sacar o restante do FGTS?
Sim. Na dispensa sem justa causa de optante pelo saque-aniversário, a regra geral permite movimentar a multa, não todo o saldo por esse motivo. Verifique bloqueios e garantias que possam afetar o valor disponível.
Os 40% incidem sobre todo o saldo do aplicativo?
Não necessariamente. Considere a base rescisória do vínculo encerrado, incluindo os ajustes devidos. Saldo disponível, saques anteriores, contas de outros empregadores e distribuição de resultados não podem ser confundidos com essa base.
O empregador pode pagar a multa de 40% em dinheiro diretamente para o trabalhador?
Não. O depósito deve ser feito na conta do FGTS, conforme exige a legislação. O pagamento direto ao empregado é irregular.
A multa de 40% é paga em todas as demissões?
Não. Apenas nas demissões sem justa causa ou em casos específicos como rescisão indireta. Em acordos, a multa é de 20%.
Como calcular a multa?
Multiplique a base correta para fins rescisórios por 0,40. Em acordo do art. 484-A, a indenização é de 20% dessa base. Uma estimativa não substitui a conferência do histórico e do recolhimento.
E se o empregador não pagar a multa?
O trabalhador pode ingressar com ação trabalhista ou acionar os órgãos fiscalizadores. O empregador pode ser multado e obrigado a pagar com juros.
A multa entra no imposto de renda?
A multa legal de 40% é isenta. Se você estiver obrigado a declarar, informe o recebimento como rendimento isento e não tributável, de acordo com as instruções da Receita; não confunda isenção com omissão do valor.
Depósito, saque e crédito no banco: como conferir cada etapa
| Etapa | O que conferir | O que não comprova |
|---|---|---|
| Recolhimento pelo empregador | Guia quitada, identificação do trabalhador e vínculo, valores mensais e indenização rescisória. | O TRCT ou uma guia apenas emitida não prova que a multa foi recolhida. |
| Conta vinculada no FGTS | Extrato do vínculo encerrado, crédito da multa e informações de desligamento. | Saldo baixo não prova, sozinho, cálculo errado: pode haver saques anteriores ou bloqueios. |
| Transferência para o banco | Saque autorizado e conta de sua titularidade cadastrada no aplicativo FGTS. | O prazo do empregador não é o mesmo do crédito bancário. A CAIXA informa até cinco dias úteis após o débito da conta do FGTS, nas condições indicadas em seu serviço. |
Por que a base pode ser maior que o saldo disponível?
Imagine uma base rescisória correta e atualizada de R$ 20.000,00 e um saque anterior que reduziu o saldo disponível para R$ 12.000,00. Na dispensa sem justa causa, a conta simplificada continua sendo 0,40 × R$ 20.000,00 = R$ 8.000,00, e não 40% dos R$ 12.000,00. A apuração real exige conferir os ajustes; a distribuição de resultados do FGTS e sua atualização não entram na base da multa.
Se você mantém mais de um vínculo, a rescisão de um emprego não transforma o saldo dos demais em base daquela multa. Veja também as particularidades de manter dois empregos com carteira assinada.
Saque-aniversário e garantias de empréstimo
Na regra geral do saque-aniversário, a dispensa sem justa causa permite movimentar a multa, mas não libera todo o saldo por esse motivo. As liberações excepcionais divulgadas em 2025/2026 tiveram público e datas delimitados; não se aplicam automaticamente a uma demissão nova.
Confira também contratos de crédito: a multa pode ter sido oferecida como garantia no Crédito do Trabalhador e ser utilizada para amortizar a dívida nas condições contratadas e legais. Isso é diferente da antecipação do saque-aniversário. Não presuma que toda a multa estará livre para transferência; peça ao banco a identificação da garantia e a memória da amortização se houver utilização do valor.
Emprego doméstico tem uma regra própria
No regime da LC 150/2015, a indenização é formada pelo depósito mensal de 3,2% em variação distinta da conta, além do FGTS mensal de 8%. Não se deve simplesmente cobrar de novo 40% sobre esses mesmos períodos como se fosse a regra geral de uma empresa. Recolhimentos anteriores ao Simples Doméstico exigem conferência específica.
Se o valor não aparecer ou parecer incorreto
Salve o extrato, o TRCT, a data e o motivo do desligamento e peça ao empregador o comprovante de pagamento e a base usada. Se o recolhimento foi feito, mas a conta ou o saque apresentam divergência, procure a CAIXA. Se faltam depósitos ou existem diferenças, busque orientação sindical ou jurídica. Não pague uma “taxa de liberação” nem entregue sua senha a intermediários.
Fontes oficiais para consultar
- Lei 8.036/1990: arts. 13, §7º; 18; 20-A a 20-D.
- CLT: arts. 477 e 484-A.
- MTE: perguntas frequentes do FGTS Digital e CAIXA: recolhimento mensal e rescisório.
- CAIXA: saque por dispensa sem justa causa e liberação excepcional de 2025/2026.
- MTE: garantias no Crédito do Trabalhador.
- LC 150/2015, art. 22 e CAIXA: rescisão do empregado doméstico.
- Receita Federal: verbas isentas da rescisão e preenchimento da declaração.
- Lei 11.101/2005: arts. 82-A e 83, sobre falência e classificação dos créditos.
Conclusão
O ponto central é separar a obrigação do empregador e o recebimento pelo trabalhador: a multa é recolhida ao FGTS; a transferência bancária ocorre após a liberação do saque. Confira o vínculo, a base histórica, o comprovante de pagamento, o extrato e a modalidade de saque antes de concluir que houve falta de depósito ou que todo o saldo está liberado.
É essencial que tanto trabalhadores quanto empregadores compreendam o funcionamento dessa indenização, respeitando os prazos, a legislação vigente e os meios adequados para sua execução. Em caso de dúvidas, divergências de valores ou não pagamento da multa, o trabalhador deve buscar imediatamente assistência jurídica ou sindical para garantir seus direitos.
Cumprir com os deveres legais não é apenas uma obrigação, mas também uma demonstração de respeito à dignidade do trabalhador e à justiça nas relações de trabalho.
Textos oficiais mencionados no artigo
- Consolidação das Leis do Trabalho — CLT — consulte o documento no portal do Planalto.
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — consulte o documento no portal do Planalto.
Guia relacionado: FGTS na relação de trabalho: depósitos, saque e multa rescisória