Reflexões sobre a solidão e a realidade virtual como arquétipo de uma nova sociedade

Autores: Cláudia Marina Barcasse Moretto Alves, Marcos Antônio Duarte Silva e Oscar Francisco Alves Junior.

Resumo: Os dias atuais têm reproduzido um arquétipo da sensação de não solidão, pela simples ideia virtual de uma companhia que não se reproduz materialmente, vivendo apenas a impressão de magnetismo que as redes sociais produzem; na tangência de impor além desta realidade distorcida há reprodução em sua essência da similaridade perigosa de ausência de solidão, perdendo o que de fato é estar junto; e perigosamente convergindo de uma ilusão do acompanhamento a distância; se dispor a estar na profundidade da angústia existencial de um fragmento eletrônico, em troca de sensações apenas mentais; a existência da possibilidade de convivência sem conviver, tem substituído a convivência; o estar não se faz mais magnânimo, o que se procura é apenas existir, sobre a égide de um simulacro existencial.

Palavras chaves: Solidão. Arquétipo. Realidade. Virtual. Existência.

 

Reflections on loneliness and virtual reality as the archetype of a new society

Abstract: Nowadays it has reproduced an archetype of the feeling of not being alone, due to the simple virtual idea of ​​a company that does not reproduce materially, living only the impression of magnetism that social networks produce; in the tangency of imposing beyond this distorted reality there is reproduction in its essence of the dangerous similarity of absence of loneliness, losing what it really is to be together; and dangerously converging from an illusion of distance monitoring; to be willing to be in the depth of the existential anguish of an electronic fragment, in exchange for only mental sensations; the existence of the possibility of living together without living together has replaced living together; being is no longer magnanimous, what is sought is just to exist, under the aegis of an existential simulacrum.

Keywords: Solitude. Archetype. Reality. Virtual. Existence.

 

Sumário: Introdução; 1.O tangível contra o simulacro; 2.É possível tratar do que venha ser o real? 3.A realidade virtual como arquétipo contemporâneo; 4.A solidão; o isolamento como remédio a pandemia; Considerações Finais.

 

Introdução

A era da digitalização, da internet e das redes sociais, tem trazido à baila questões existenciais profundas, sendo hoje pesquisadas por estudiosos do comportamento humano e filósofos no labirinto existencial frequentado diariamente pelas pessoas que imitam, ou sentem de forma aleatória, a incrível sensação de estar acompanhado, quando estão absolutamente solitárias. Estes catalizadores de uma atenção irreal, têm provocado os mais variados surtos de imagem e prospecções falsas.

É natural nos dias presentes se imaginar e até estar envolvido através das redes de computadores, quando o que se tem é apenas a imagem do possível, porém, inominada solidão.

A pulsão da necessidade de companheirismo rompe a barreira do estar atravessando o córtex cerebral, proporcionando o devaneio de situações ainda não vivenciadas, e com isso, há uma imensa população aprendendo perigosamente a pseudo “arte de estar sozinho”, desprendendo-se de convivência social, comunitária e solidária.

Na prática o que se vai percebendo é o afastamento da humanidade no que diz respeito a um isolamento e, por fim, a ausência de qualquer contato humano. Por mais haver a existência do fascínio, da sensação de estar conectado com todos os outros países, poder estar conversando, ou buscando notícias ou informações dos mais distantes rincões, se pergunta, será este o caminho para a nova geração de seres humanos?

Na confrontação desta vivência virtual com a vivência real, se percebe mudanças drásticas na convivência de outros com os seus pares. Há o abandono do convívio positivo, para apenas a imagem, pelo som, pela transmissão e pelos “chats”, e todos os seus derivados que se antepõem como um novo paradigma, como a linguagem moderna, como a convivência possível.

No contexto desta ideia de forma sútil, surge uma mudança brusca, inevitável, e inegociável, a necessidade de isolamento, de distanciamento entre as pessoas, e pior, a solidão passa a ser a solução para quebrar o ciclo mortal de um vírus que se impõe sobre tudo e todos de forma grave, coletiva, e sem escolher nenhum critério de idade, etnia, cultura, formação acadêmica, ou qualquer outro critério distintivo, todos absolutamente, ficam à mercê caprichosamente de uma iminente devastação. Ou a solidão, ou o perigo de contágio e possível morte; o isolamento, ou a quarentena num hospital para observação.

Frente ao interposto, surgem algumas indagações necessárias de serem respondidas mesmo que de forma retórica.

Há de fato a mínima possibilidade de uma troca de convivência do real pelo “on line”? É possível, sem prejuízo mental, o arquétipo do estar “on line”, substituir o estar presente? Na contingência do necessário, se pode imaginar uma sociedade totalmente virtual, sem necessidade de convivência mínima?

 

  1. O tangível contra o simulacro

Uma sociedade virtual é como uma ficção, na vida real, no mundo de seres humanos vivos e interligados não por uma rede invisível, mas pelas necessidades cotidianas de trabalho, de estudo, de convivência mínima entre outros seres humanos, se precisa mais do que sensações, se precisa de emoções no campo real, palpável para poder se continuar se sentindo vivo, se sentindo humano.

O ser humano é um ser gregário, tendo necessidades naturais de companheirismo, de presença física, de conversa “olho no olho”, de realmente uma sociedade virtual poder ser ficção, na vida real, no mundo de seres humanos vivos e interligados não por uma rede invisível, mas pelas necessidades cotidianas de trabalho, de estudo, de convivência mínima entre outros seres humanos, se precisa mais do que sensações, se precisa de contato mínimo, o chamado toque real, aquele que nos tira da sensação letárgica para poder se continuar se sentindo vivo, se sentindo humano, existente.

Quando esta sintonia é quebrada, quando ela é substituída, ou trocada pela artificialidade de uma “presença virtual”, algo se rompe dentro da mente humana, precisando de forma urgente de reposta; ou então a irrealidade substitui a realidade.

Neste universo paralelo se pode expandir as amostras de quanto se pode dissimular das aparências de convivência, para a vivências de fato e de verdade.

Tem surgido grupos que transitam com a ideia primal de manter a solidão, aquela de estar sozinho, contudo, interligado através de grupos também solitários convictos que usam aplicativos, Facebook, Instagram entre outros, mas este é seu limite máximo de convivência, não se aventurando em hipótese alguma a qualquer contato próximo; inclusive, uso de webcam, ou qualquer mecanismo do gênero que possa trazer o mínimo de proximidade.

Nesta senda, aumenta o número de pessoas que se apercebem que ninguém sentirá falta dela, que ela tem sido um peso para outras pessoas, vai gerando os pensamentos de suicídios que começam a frequentar a mente e tomar conta do desejo. A perda do controle da urbanidade tem trazido questões de como daqui a alguns anos as sociedades se relacionará. Nenhuma tecnologia mesmo a mais avançada consegue trazer situações que o ser humano pode trazer e fazer, mesmo usando a dinâmica do cérebro de forma a sugerir através de estímulos, sensações e reações provocadas por aparelhagens próprias para estes experimentos.

Numa demonstração de como se pode ocasionar situações desta magnitude, há um caso real que despertou o grande vazio que as pessoas vivem.

LONDRES, 13 Abr (AFP) – O corpo de uma mulher morta há três anos foi descoberto em seu apartamento em Londres rodeado de presentes de Natal fechados e diante de uma televisão ligada, informou nesta quinta-feira a polícia da capital britânica. O corpo de Joyce Vincent, de 40 anos, foi encontrado em janeiro passado. A mulher teria morrido de causas naturais no início de 2003, com base, entre outras coisas, no prazo de validade dos alimentos encontrados na casa. (noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2006/04/13/ult34u152283.jhtm)

Durante três anos inteiros esta mulher esteve morta, sem que sequer um familiar, amigo, colega ou até vizinhos notarem ou sequer sentir sua falta.

A distância que se cria entre aqueles que estão neste caminho de ilusão e através desta via se vai transformando num isolamento mental, primeiramente, para depois se transformar em coletivo.

A hipótese de um inconsciente coletivo pertence àquele tipo de conceito que a princípio o público estranho, mas logo dele se apropria, passando a usá-lo como uma representação corrente, tat (sic) como aconteceu com o conceito do inconsciente em geral. A idéia (Sic) filosófica do inconsciente, […] (JUNG, 2000, p.15).

Nesta toada se pode depreender que o inconsciente coletivo posto nesta linha de alienação para solidão é oposta à presença de pessoas, de estar interligado por alguma atividade ou lugar que depreenda da coletividade. É a sensação pura de estar só, e se sentir muito bem nesta condição.

A ideia que se começa a alimentar vem da mente, quando se condiciona a estar aquém de tudo que possa ser considerado socialmente aceito, ou minimamente inserido como pessoa. É a própria mente criando como um ambiente paralelo, a simples ideia de conforto, de bem-estar, sem haver em nenhuma hipótese, um sentimento de incomodo.

Para adentrarmos neste ambiente psíquico é inevitável se buscar em Jung, sua formação que retrata de maneira própria toda a condição de se verificar o funcionamento da pessoa que se isola e como este fator se desencadeia.

Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este, porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são ‘cum grano salis’ os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal (Sic) que existe em cada indivíduo. (JUNG, 2000, p.15).

Na compreensão de Jung, há “à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são ‘cum grano salis’ os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos”. Desta forma é factível entender que o comportamento em certa medida não se distancia de um para outro ser humano, é evidente que no meio de criação, pessoas que convivem, podem mudar; mas as mudanças não são anacrônicas e díspares. Podem ser fatos resultantes de idade, problemas os mais diversos familiares, entre tantos outros.

Destarte o todo traçado se indaga se é tangível o simulacro patente frente ao virtual?

Simulacro é a imitação feita sobre algo ou alguém, uma representação imagética que engana por transmitir determinada coisa como real, sendo na realidade falsa ou incorreta. (https://www.significados.com.br/simulacro/).

O simulacro assume neste tema, a ideia abstrata de substituir o real pela a imitação, o que de fato, leva a uma sensação também falsa de pertencimento. Contudo, como a solidão passou da antiga ausência de convivência social, para a falsa sensação de estar dentro de um ambiente, como se vê nos chats, ou mesmo sites de relacionamento, a impressão de possuir centenas, milhares de amigos, para a dura realidade de principalmente e, em especial no final do ano (ou período de festas Natal e Ano Novo), é quando acontece um fenômeno entre muitas pessoas começarem a perceber que há um esvaziamento nos sites e internet, e aí fica patente a solidão e a distância destes simulacros das redes sociais.

No âmbito da Filosofia, Jean Baudrillard (1929 – 2007) ficou conhecido por desenvolver a ideia do simulacro na sociedade contemporânea. Para Baudrillard, com o avanço nos meios de comunicação, a mídia passou a exercer uma enorme influência sobre as massas. Assim, de acordo com o filósofo, a realidade deixou de existir e as pessoas passaram a viver e dar mais importância às representações sobre a realidade que são disseminadas pela mídia. Os simulacros são estas simulações errôneas sobre o real e que despertam maior atração ao espectador do que o objeto ou situação que está sendo reproduzido. (https://www.significados.com.br/simulacro/).

Outrossim, vislumbra-se ser este pensamento de substituir a realidade pela simulação, representações, e se envolver tanto neste ambiente virtual, dando a impressão de estar nesta esfera, e muito distante do real. Neste ponto não é incomum perceber o afastamento da pessoa, que passa a viver a chamada “vida virtual”, tendo ambientes próprios, espaços inteiros dedicados a sua única e exclusiva presença, e como é dito de forma perigosa, por estes sujeitos, “eu me basto…minha companhia é mais do que suficiente”.

Hoje a abstracção (sic) já não é a do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de uma intenção real sem origem na realidade: hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. E agora o mapa que precede o território — precessão dos simulacros — é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão do mapa. É o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O deserto do próprio real. (BAUDRILLARD, 1991, p. 8).

O filósofo propõe se imaginar como aceitação que se tem de um mapa, entendendo que dentro existem territórios, e seus limites e extensão são abstratas, em assim sendo a abstração torna-se a realidade e, a realidade deixa de ser importante; depreendendo do texto que não é contemporâneo; o filósofo faz sua digressão, apenas baseados nos meios convencionais de comunicações, e sem dúvida sem os avanços atingidos nos anos pós internet, o que estimula muito mais, do que outrora.

A vista do próprio “real”, há de se perguntar, observando de um ponto fixo, se o que se vê a distância, se o longe, se uma descrição é o que se pode chamar de real ou, apenas a imaginação? Ou, se é que está só representa a “realidade”, ou tudo ao nosso redor é a chamada “realidade virtual”.

É possível que nunca houve entre algumas pessoas de estarem acompanhadas, mas sim no arquétipo do que se gostaríamos. A imagem de um trabalho, de um relacionamento, de um título acadêmico, entre outros; muitas vezes é só uma ilusão transformada em pseudo realidade. E neste campo de ordem “ilusória”, “mental”, há um sem número de coisas que podem acontecer, por exemplo, gerar imagens, conversações entre a pessoa sendo ouvinte e falante, e simular, mentalmente, ideias sem conexão no campo da realidade, só virtual.

 

  1. É possível tratar do que venha ser o real?

A realidade não é assunto de fácil exercício mental, para ser conceituada, ao contrário, há algumas ideias que se postam para entender o que é real, geralmente com cuidado, outras fogem do cerne do questionamento e, ainda outros tentam apenas dar um significado, como um dicionário.

Filosoficamente, não se trata este tema de forma tão positivada ou pueril, há uma profundidade que há séculos vem se tratando e continuará sem uma resposta que seja definitiva.

Se postular como apenas ideia, o resultado não alcança sequer o sentido embutido em seu núcleo, aliás, percebe-se uma fuga na intenção de tão somente restringir a discussão ou mesmo o alcance do que se possa construir uma estreita relação com o que se pode ao menos questionar, ou mesmo depurar.

Outrossim, se pode observar nesta linha a ideia de Hume, apud  (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2009000100013) referenciando e tonificando o debate;

Hume inicia o Tratado da natureza humana com uma proposição conceitual que distingue as percepções da mente humana em duas classes fundamentais: impressões e ideias. A rigor, essa distinção não presume uma dicotomia, nem estabelece entre seus termos diferenças antagônicas de natureza. A divisão das percepções entre impressões e ideias é antes intensiva que qualitativa, isto é, diz respeito às variações de intensidade ou aos respectivos graus de vividez e força que se devem atribuir a cada tipo de percepção. As impressões são mais vívidas, penetram mais violentamente em nosso pensamento em sua primeira aparição à alma, e abrangem as sensações e as paixões.

No mundo das sensações, impressões, poderão apresentar uma leve distorção que embasada simplesmente é a ausência do real. Aparentemente, sem efeito, contudo, se esforçar, para ser natural;

 

O real é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando — e pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir daí. Já não tem de ser racional, pois já não se compara com nenhuma instância, ideal ou negativa. É apenas operacional. Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. (BAUDRILLARD, 1991, p.8).

 

Este contraste entre realidade, sensação, irrealidade e percepção, não tem gerado satisfação, embora se perceba que há sem margem de dúvida um elemento desagregador, uma espécie de contraponto, um vácuo entre o material e o abstrato, entre o tangível e o intangível, entre a forma e a disforma.

Pensar na ideia que tudo pode ser só uma ilusão, ou ainda, imagens quem vem de milhares de anos, o encontro destas imagens, destes destaques, que apenas refletem uma espécie de fotografia, produz um aparente desalento.

Desta feita, cumpre lembrar o filme A origem, numa crítica publicada assim é expressa;

A vida em sua linha mestra é assim, o valor que atribuímos a vida vem através de importância, eventos salutares, acontecimentos que pode deslocar a existência de uma pessoa. O ator principal do filme A Origem vive uma situação de repetição constante, como afirma Gilles Deleuze, em seu livro Diferença e Repetição: “A repetição já não é uma repetição de elementos ou de partes exteriores sucessivas, mas de totalidades que coexistem em diferentes níveis e graus.” p. 395. Assim sendo, a repetição assume os elementos ou partes exteriores, coexistindo em diferentes graus. Com isso, tudo que se possa fazer é apenas repetição de algo já feito, numa visão deleuziana, não há nada de novo no dia seguinte que já não se tenha vivido anteriormente. (https://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=4760).

Na ficção reproduzida nas telas, percebe-se que para saírem da realidade é necessário estarem na condição de sono, além de leva-los a adentrar no inconsciente se demonstra ser um espaço de fuga da realidade muitas vezes dura, e conduzi-los a um lugar sem tempo/espaço, como um vazio, sem preocupações e problemas.

A psicossomática evolui de maneira incerta nos confins do princípio da doença. Quanto à psicanálise, ela devolve o sintoma do domínio orgânico ao domínio inconsciente: este é de novo suposto ser «verdadeiro», mais verdadeiro que o outro — mas por que é que a simulação se detém às portas do inconsciente? Por que é que o «trabalho» do inconsciente não há-de poder ser «produzido» do mesmo modo que qualquer sintoma da medicina clássica? Os sonhos já o são. (Idem, 1991, p.10).

A ideia cerne, contudo, traz uma dura realidade, alguns não querem mais sair desta falsa realidade criada, e desejam passar o maior tempo só dormindo, ou em estado de sonho, será que na sociedade complicada, difícil e exigente, muitos estariam usando este expediente para ter momentos de paz?

 

  1. A realidade virtual como arquétipo contemporâneo

É hora de se perguntar se há realmente algum impacto na sociedade esta chamada realidade virtual? Ou é apenas uma forma de olharmos nossa própria sociedade e suas mudanças?

Na base da discussão, no lume do texto se faz necessário, lembrar o que já foi dito;

Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. Nesta passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do real, nem a da verdade, a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais — pior: com a sua ressurreição artificial nos sistemas de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda a álgebra combinatória. Já não se trata de imitação, nem de dobragem, nem mesmo de paródia. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos do real e lhes curto-circuita todas as peripécias. (Op. Cit., 1991, p. 8 e 9).

O imaginário pode ser apenas a substituição do real? Ou o que imaginamos é o real? É importante manter a percepção para entender como é transcrito; e não estar fora da realidade social, adentrando numa realidade gestada pela pessoa, perdendo o senso do real, e se acostumado de tal forma ao irreal, sendo arrastado constantemente ao imaginário, a simulação ao artificial.

O real nunca mais terá oportunidade de se produzir — tal é a função vital do modelo num sistema de morte, ou antes de ressurreição antecipada que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento da morte. Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças. (Ibidem, 1991, p.9).

Outrossim, é de suma importância buscar a compreensão “O real nunca mais terá a oportunidade de se reproduzir”, ou então, o que conhecíamos como sociedade, não voltará a ser desta forma, pelas transformações ocorridas, não só no dia a dia, mas também, por fatos decorrentes de catástrofes naturais, por acontecimentos não esperado e de forma muito agravante ou que atinja não só uma cidade, um país, uma situação que exija uma mudança de paradigma não forçada pelos seres humanos, algo de intervenção, atingindo o mundo todo, os países num todo.

O que antes era comum, andar pelas ruas e se locomover entre pontos equidistantes, de repente passa a ser algo não mais aceitável, proibido, impedido, e restrito a tal envergadura que as pessoas agora sejam confinadas em suas casas como meio de sobrevivência.

Não há a garantia de segurança, se não houver isolamento, se não existir distanciamento, desde simples cumprimentar com as mãos, a um beijo no rosto, até o mínimo afeto do abraço; as pessoas são obrigadas a andarem de máscaras, para proteção de sua saúde, para poder continuar a conviver, contudo, um distante do outro, a essência da sociedade não é mais agregação, a palavra de ordem é se isolar, ficar na profunda solidão, tendo como meio de quebrar este prospecto, a internet, celular, computador e televisão. Então chega-se ao contraponto, do que antes do vírus acontecia, para alcançar a necessidade do isolamento social, quer seja, aqueles que apreciavam muito mais o convívio, e a proximidade como o melhor meio de comunicação, ter que de sobressalto, que viver como os isolados espontâneos, faziam, agora farão, todos por uma obrigação solidária.

Cumpre lembrar um texto que evoca a questão da solidão, buscando no melhor exemplo, a criança e a segurança que a mãe oferece;

A solidão não é, portanto, simples privação, ela é hipersensibilidade à ausente presença do outro […]. Eis o princípio capital que se desenha aqui: a profundidade da solidão mede – tal qual uma sonda – a intensidade do desejo ardente do outro que não responde ao chamado. (Assoun apud Tanis, 2003, pp.108).

Neste momento de isolamento, as redes sociais, os aplicativos a disposição para vídeo conferência, as conversas telefônicas, todos esses mecanismos passam a ser não mais um meio que alguns usam, pelo contrário, se transformam nesta onda gigante de mudanças em algo comum, necessário e indispensável como única forma de desconstruir a solidão que alguns possuíam, passa neste momento a coletividade, e o que era um grupo, muito embora significativo, porém não uma massa social, assume a forma de uma sociedade com um único objetivo, sobreviver ao maior desafio humano que se projeta na vida mundial, nos países, nos estados e nas cidades; todos mesmo morando em uma família, terão que se isolar, para poder por um período sobreviver.

 

  1. A solidão; o isolamento como remédio a pandemia

Por mais incrível que possa parecer, a solidão passa a ser um remédio, que antes era chamado de antissocial, de problema de ordem psicológica, de estranho, é o caminho traçado, para uma sociedade mundial, poder sobreviver. De repente, o que era visto como algo desnecessário e até perigoso, acaba por se tornar o único lenitivo, suficiente aceito para curar o mal chamado pandemia.

Quem, em sã consciência poderia sequer aceitar, a simples menção de ser o isolamento, a solidão uma solução satisfatória para impedir mortes, doença, e hospitais lotados e cemitérios tendo que fazer valas comuns, pela quantidade de mortos, e a redução de espaço. E, ainda com a ausência de poder acompanhar quem está contaminado no hospital, e sobretudo, não haver cortejo fúnebres, nem aquela última homenagem a pessoa querida.

Sim a solidão, criticada, estudada para ser combatida, para ser vencida é o que vai se tornando o método efetivo de controle.

Lacan, vem e trata desta questão de forma a projetar como isso poderia ser possível em algumas situações;

[…] há um certo tempo, forjamos um terceiro ideal sobre o qual não estou certo de que pertença à dimensão original da experiência analítica – o ideal de não-dependência, ou, mais exatamente, de uma espécie de profilaxia da dependência. (Lacan, 1959-60, pp. 21)

Essa “não dependência”, se transformou por motivo de força maior em isolamento em sua forma mais sombria, exsurge como medida protetiva nas sociedades mundiais como meio efetivo de não espalhar ainda mais o vírus que devastou cidades, e alcança a cada dia recordes em sua pior demonstração de poder e descontrole. O ser humano está curvado ante o inevitável. Está desorientado, sem saber ao certo o que fazer.

Nesta perspectiva, parece que as redes sociais, os aplicativos disponíveis têm reestruturado uma nova versão de sociedade, que aprendem aos poucos, não precisar viajar longas distâncias para uma reunião, que é possível se realizar com o mesmo desempenho por vídeo conferência; pessoas distantes aprende o uso da câmera para poder se ver, conversar e controlar a saudade.

Parece ser o fim de uma era, de um modo de vida, de um modelo de sociedade, até porque o choque foi brutal e não deu tempo de adaptação, muito pelo contrário, as mudanças ocorreram junto com a crise, e se adaptar não sair mais em grupo, nem ao menos com amigos, não haver festa que fosse possível chamar os conhecidos, passa a não ser mais possível.

Por mais incrível que possa parecer, Freud, ao tratar de alguns transtornos, expõe a questão da solidão quase como uma forma de segurança para determinados indivíduos se sentirem mais seguros;

Se um indivíduo com medo pânico começa a se preocupar apenas consigo próprio, dá testemunho, ao fazê-lo, do fato de que os laços emocionais, que até então haviam feito o perigo parecer-lhe mínimo, cessaram de existir. Agora que está sozinho, a enfrentar o perigo, pode certamente achá-lo maior. (Freud, 1921, pp. 108).

E desta feita, não havia escolha, era fazer desta maneira ou fazer.

O simulacro existencial, aquele que muitos viviam por livre escolha, povoando as redes sociais, criando até ambientes virtuais próprios deixou de ser uma escolha para ser a única opção entre todos, e aqueles que não tinham este convívio de isolamento, desconheciam o que era solidão de fato, passou a ter uma ideia não mais teórica, porém, uma vivência do que é estar no dia a dia sozinho, semana após semana, mês após mês, e ano após ano.

Adentra-se no limiar do século XXI, imaginado por cineastas, e cientistas num tom de psicodrama, uma vez não ser uma escolha, aduz ser um novo modelo a ser desenvolvido como um novo paradigma social, pessoas aprendendo a solidão, gostando da sensação de estar sozinho e, ainda não desejando voltar a uma sociedade tão exigente, tão mascarada com a ideia do certo e do errado, da aparência, da vida social, das festas, do convívio forçado do romance e da paixão.

Poderia ser a solidão um sentimento? Ou é só mesmo um afastamento daquilo que não se conforma com a sociedade? Há um outro tipo de solidão? Se sim, qual?

Por sentimento de solidão não estou me referindo à situação objetiva de ser privado da companhia externa. Estou me referindo ao sentimento de solidão interior – o sentimento de estar sozinho independentemente das circunstâncias externas; de sentir-se só mesmo quando entre amigos ou recebendo amor (Klein,1971, p.133).

No texto em comento, há a solidão interior, aquela que não importa estar acompanhado ou não, se está até no meio de uma multidão; a pessoa se sente só. Esta é o limite da patologia, pois, querendo ou não o ser humano é um ser gregário, tem até necessidade de companhia, e de pessoas ao seu redor.

A solidão que preocupa os sociólogos, por gerar uma nova geração automatizada, robotizada, fanática por jogos eletrônicos, por internet, por redes sociais e até uma certa dose de abandono dos sentimentos mais humanos e comuns entre os seres iguais.

De repente esta solidão na forma de isolamento bateu a porta de todos, novos, jovens, meia idade e até os idosos, tiveram da noite para o dia de se submeter ao que antes criticavam.

Destarte, não se pode verificar a solidão como algo no todo ruim, afinal, há aspectos a ser considerados, e refletidos quando se propõe a enfrenta-la;

Poderíamos dizer que o mundo todo, com seu tumulto e miséria, está num processo de individuação. Mas as pessoas não se dão conta disso, e esta é a única diferença. Se soubessem disso, não estariam em guerra uns com os outros, pois quem tem a guerra dentro de si, não tem tempo nem prazer de lutar com os outros. A individuação não é uma coisa rara ou luxo de poucos; mas aqueles que sabem que estão nesse processo devem ser considerados felizes. Eles ganham alguma coisa, caso sejam conscientes o bastante. […] A individuação é a vida comum e aquilo de que temos consciência. (JUNG, 2002, p. 48)

Sem jamais imaginar a pandemia alcançando todos os países, o texto parece atualíssimo, uma vez que trata das questões fundamentais, tratando da pobreza e a busca da individualização, uma espécie de rompimento com a sociedade, por aspectos diversos. E como é antigo parece muito mais com uma digressão, contudo, é uma análise até visceral de como será (e veja, que o texto tem várias décadas); a sociedade do futuro. Individualista e, portanto, solitária.

Outrossim, até o modo de comer mudou, “delivery”, passa a ser algo comum, até entre aqueles que talvez nunca usaram, o pensamento de que tudo pode voltar ao normal, a cada dia, a cada notícia, vai nos dando a exata noção, de que não voltaremos a ser quem éramos, a vida mudou, a mente das pessoas mudou, a solidão se aprofundou num repositório tão grande proporcionando um hiato entre a vida em sociedade e a vida em casa.

A pergunta é muito importante, como será a sociedade após a pandemia? Há aqueles mais otimistas que dizem que sairemos melhores, contudo, há os que dizem que gostaria que o mundo voltasse a ser como era antes, leve, livre, solto e com aquele clima fraterno de abraçar, dar as mãos, poder dar beijo, etc.

Não há resposta razoável a esta indagação, o que se deseja, o que se espera é que tudo passe, e a sobrevivência ensine um pouco, como é viver num mundo globalizado, numa sociedade sem fronteiras.

 

Considerações Finais

Não há pretensão de trazer a lume uma solução a este processo que há séculos se tem convivido, a solidão.

Mas é bom pensar que, pode-se refletir sobre o tema, de vários ângulos, inclusive daquelas pessoas que se sentem bem absolutamente sozinhas; daqueles que por motivo de força maior, tiveram que aprender a ficar sozinho, e muitos outros que estão sozinhos, mas preferem a companhia de amigos, da família, ou até de um grande amor.

Há um fato em todo este percurso trilhado que é o isolamento, pior que optar pela solidão é se isolar, pois, este ato em si traz consequências psíquicas inimagináveis, podendo ser perigoso, um isolamento por anos a fio, sem desejar mais se agregar, se juntar, conviver; pode sem dúvida alguma a pessoa reproduzir uma dissociação de identidade, mental e na esfera psíquica um risco para si mesmo.

Por mais que a solidão em muitos momentos seja agradável, de forma alguma deve ser algo que se incorpore a vida e passe dominar a mente e o corpo a estar sempre solitário.

No momento que o mundo passa é impossível não se reconsiderar de forma bem satisfatória, o quanto se faz falta o convívio mínimo, aquele de andar na rua e ver pessoas andando, caminhando, de ver a circulação de carros, de ir a uma feira livre, e poder sem máscara ou o que o valha andar se sentindo absolutamente absorto.

A solidão não deve ser um modo de vida permanente, ao contrário quem só gosta de ficar sozinho, deve, de alguma forma se preocupar e procurar ajuda de um profissional, pois, com absoluta certeza há algo muito errado.

O ser humano é gregário e gosta de estar com pessoas, gosta do convívio e, principalmente, se sente muito bem quando está livre para tal convívio.

O desafio está lançado de encontrar dentro de cada um de nós a ideia, a vocação de viver bem em sociedade. E a solidão, ser apenas um companheiro ou companheira, passageira.

 

Referências bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

 

FREUD, S. (1921). Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

 

JUNG, Carl Gustav. Cartas II. Petrópolis: Vozes, 2002.

 

________________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo – Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

 

Klein, M. O Sentimento de Solidão: nosso mundo adulto e outros ensaios. Rio de Janeiro: Imago, 1971.

 

LACAN, J. (1959-60). Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

 

https://www.significados.com.br/simulacro/

 

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2009000100013

 

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TANIS, B. (2003). Circuitos da solidão: entre a clínica e a cultura. São Paulo: Casa do Psicólogo/FAPESP.

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