A solidariedade e a pandemia

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O mundo já foi mais solidário. Para entender essa afirmação, basta revermos alguns fatos da história recente e poderemos inferir a postura dos EUA logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a implementação do Plano Marshall – conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Europeia. Naquela época, para se ter uma ideia, os EUA deram uma ajuda econômica de 14 bilhões de dólares, o equivalente a cerca de 100 bilhões de dólares em valores atuais, com o intuito de recuperar os países europeus que se juntaram à Organização Europeia para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico.

Muitas são as formas pelas quais a humanidade é testada em termos de solidariedade, e constatamos que nos últimos dez anos houve um declínio mundial do que poderíamos chamar de “consternação com o outro”, provavelmente a questão primordial da valorização do individualismo sobre o coletivismo nos levou a uma percepção dissociativa do egocentrismo em detrimento da solidariedade, haja vista o teor dos discursos da direita, muito embasados nas relações individualistas, talvez oriundas da nova ordem líquida descrita por Bauman, em que a fluidez nas relações interpessoais se depreciou, exercitada no mundo digital em que o eu está acima do coletivo.

Neste contexto, a pandemia do Coronavírus veio corroborar com a percepção à qual me referi anteriormente, uma vez que os EUA comandados por Donald Trump minimizaram o contágio, posteriormente compraram a maior parte dos equipamentos de ventilação ofertados pelo mercado, culparam os chineses e agora consolidam a maior parte da compra de vacinas em desenvolvimento, prejudicando a maioria dos países e imensas populações.

A grande reflexão seria sobre o porquê de uma potência econômica e militar, com um governo de extrema direita, desprezar o passado e o fato de haver sido protagonista de algo tão grandioso como o Plano Marshall.

Apesar de sabermos que essa ajuda não foi totalmente desinteressada, uma vez que um de seus objetivos era conter o socialismo da antiga União Soviética, causa certo espanto perceber que, se fosse hoje a tragédia da guerra na Europa, os EUA virariam as costas para os países europeus, assim como viraram para o mundo.

Iniciativas como as do cientista Albert Sabin, que renunciou aos direitos de patente da vacina que criou contra poliomielite, facilitando a utilização dessa vacina pelo mundo, já não existem mais. Hoje o lucro com as doenças, com as pandemias, é fruto da insensibilidade política ligada ao poder do capital, o que nos remete ao que disse o filósofo norte-americano Noam Chomsky: “Competição para lucrar com vacina é ultrajante”.

No Brasil, muito embora existam opositores do Sistema Único de Saúde (SUS), soubemos dar o devido valor à grandiosidade desse Sistema Estatal nesta pandemia, o que nos faz lembrar das ideias que percorreram a Europa após a Segunda Guerra Mundial: a noção de que o ser humano possui direitos inalienáveis, como a saúde, e que, portanto, devem ser garantidos pelo Estado.

Temos um compromisso com as gerações futuras no alicerçar os conceitos de mútua ajuda entre os povos, retomar o princípio de globalização, de sustentabilidade, de nos rebelarmos com o desmatamento e seu impacto climático, muito mais do que adular países nos quais prevalecem a segregação e a desarmonia entre os povos, o individualismo e a indiferença com os pobres, negros e desalentados. Enfim, é urgente que todo este cenário atual mude.

Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais

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