O problema gnosiológico na visão realista de Aristóteles

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Resumo: A teoria do conhecimento ou problema gnosiológico visa saber a relação entre o sujeito que conhece e o objeto do conhecimento. Existem três grandes escolas gnosiológicas, as quais buscam analisar a relação entre o sujeito e o objeto, quais sejam: a racionalista, representada por Platão e Kant, a empirista e, por fim, a realista, que surgiu com Aristóteles. O Realismo é objeto de estudo de poucos autores, apesar de ser considerado como escola sintética que reúne o racionalismo e o empirismo em uma única doutrina. É notado por sua longevidade que remonta à Filosofia Grega de Aristóteles, seu maior expoente.

Palavras-chave: Teoria do conhecimento. Realismo. Aristóteles.

Abstract: The theory of knowledge or gnosiologic problem try to identify the relationship between the knower and the object of knowledge. There are three major gnosiologic schools, which seek to examine the relationship between subject and object, namely: the rationalist, represented by Plato and Kant, the empiricist and Finally, the realistic, which began with Aristotle. Realism is object of study of a few authors, despite being considered as a school that has the digested rationalism and empiricism into a single doctrine. It is noted for its longevity that goes back to Greek philosophy of Aristotle, its major exponent.

Palavras-chave: Gnosiologic. Realism. Aristotle.

Sumário: 1. O problema gnosiológico; 2. A escola realista; 3. Expoente: Aristóteles; 4. Conclusão. 5. Referências.

1. O problema gnosiológico

A teoria do conhecimento ou problema gnosiológico visa saber a relação entre o sujeito que conhece e o objeto do conhecimento. Trata-se de um dos problemas de suma importância da Filosofia, senão o mais estratégico para compreender a diversidade de opiniões e posicionamentos no Direito Público.

Existem três grandes escolas gnosiológicas, as quais buscam analisar a relação entre o sujeito e o objeto, quais sejam: a racionalista, representada por Platão e Kant, a empirista, inspirada no livro O nome da Rosa de Humberto Eco e inspiradora do conhecimento científico, e, por fim, a realista, que surgiu com Aristóteles.

O Realismo é objeto de estudo de poucos autores, apesar de ser considerado como escola sintética que reúne o racionalismo e o empirismo em uma única doutrina. É notado por sua longevidade que remonta à Filosofia Grega de Aristóteles. Trata-se o Realismo uma teoria visada e alvo de uma única crítica: a de ser a teoria menos criticada, a mais racional de todas, ou seja, a menos radical, pois é equilibrada sendo importante averiguar seus postulados.

2. A escola Realista

O Realismo é uma das teorias para explicar a origem do conhecimento[1], sendo que busca analisar a relação sujeito e objeto para explicitar a raiz do saber humano. A teoria realista é uma interseção entre a teoria racionalista, cujo foco é o sujeito, e a teoria empirista, a qual evidencia o objeto. Logo, o Realismo é uma teoria mista, que contempla a importância do sujeito e do objeto simultaneamente.

De acordo com a teoria Realista o ato do conhecimento é extremamente complexo, pois germina de impressões que a realidade produz no sujeito. O ato de conhecer passa por duas fases: na primeira, o homem, por meio dos sentidos, capta sensações, que são levadas à inteligência; na segunda, o sujeito trabalha os dados experimentados, sendo capaz de chegar a uma informação aprofundada do objeto.

A origem do conhecimento, na verdade, trata-se de uma relação recíproca, que parte do objeto para sujeito e, por sua vez, do sujeito para objeto, onde a informação sentida se transforma em conhecimento aprofundado.

Dessa forma, o conhecimento profundo não é perceptível da maneira que é mostrado ao sujeito, mas sim após a transformação no intelecto. Portanto a elaboração do conhecimento percebido pelo sujeito o torna capaz de transcender as sensações passadas pelo objeto aos seus sentidos e chegar à própria essência.  

Isto significa que o sujeito é capaz de penetrar abaixo da carapaça da realidade que envolve o objeto, nesse movimento de fluxo e refluxo em que o objeto atua sobre o sujeito e o sujeito atua sobre o objeto.

O conhecimento é uma tarefa complexa da inteligência humana, que penetra no metafísico, pois os sinais do objeto captados pelos sentidos são enviados ao sujeito, que decodifica e adentra abaixo da camada sensorial do objeto, ou seja, a realidade profunda do ser. Essa realidade profunda do ser é a essência que ultrapassa o físico, daí ser o metafísico, criado por Aristóteles.

Conforme o Realismo os cinco sentidos do ser humano captam os sinais da realidade que serão processados pela inteligência humana. Nessa teoria pressupõe-se a inteligência humana, que ao processar os dados coletados da experiência sensorial torna-se capaz de fazer uma representação mental da realidade, a que se chama de ideia.

Nesse sentido, o Realismo convive com duas concepções: o empirismo e o racionalismo. Isto pode ser percebido na máxima “Nada existe no intelecto que antes nos sentidos não tenha estado.” (Nihil est in intellectu quod non fuerit prius in sensu), que pela análise se constatar a coexistência de dois focos, quais sejam o objeto com suas pistas e o sujeito com seu intelecto.

Segundo o Prof. Cezar Saldanha ao capturar sensações da realidade a mente humana apreende aquilo que está atrás das sensações, daquilo que é o coração do ser, da essência do ser. E essa essência do ser foi descoberta por Aristóteles: o ser enquanto ser (ontos).

Ainda, o ontos não físico é metafísico, entretanto, ontos deixa pistas, rastros ou sinais nos sentidos; e a inteligência humana, ao processar as sensações, identifica tais rastros, sinais ou pistas. Dessa forma, com o estudo dos rastros, sinais, pistas ou detalhes, a inteligência pode chegar a desvendar ou começar a desvendar o núcleo da realidade existente no objeto.

Assim, no realismo filosófico a origem do conhecimento significa identificar a essência da realidade. Isto significa que por meio da Metafísica, cujo expoente foi Aristóteles, é possível conhecer o ser enquanto ser.

Portanto, mediante a interpretação de rastros deixados pelo o objeto o sujeito racionaliza as informações captadas pelos sentidos e as internaliza de forma a conhecer a essência do próprio ser, ultrapassando a camada apresentada pela realidade. Logo, o Realismo valoriza tanto o sujeito como o objeto, pois ambos são elementos necessários da relação para se chegar ao conhecimento.

3. Expoente: Aristóteles

Aristóteles de Estagira viveu na Trácia de 384 a 322 a.C, sendo sua visão caracterizada em visualizar a realidade de modo unitário e, ao mesmo tempo, pela tentativa de restituir as causas últimas de tudo aquilo que é mutável e contingente a um princípio único e transcendente.[2]

Em que pese tenha vivido há quase 2.300 anos atrás suas ideias são atuais, isto porque por meio da análise da matéria e da forma Aristóteles busca explicar a estrutura intrínseca das realidades corpóreas. Segundo suas ideias a verdade de qualquer objeto pode ser conhecida somente por dois caminhos: através do intelecto e da ciência.

A ciência enquanto demonstrativa, pode não saber os princípios, que são por natureza abstratos, assim, este conhecimento científico é incapaz de alcançar a verdade; todavia, pelo intelecto, que é mais abstrato que a ciência, é plenamente possível conhecer a verdade das coisas. Nesse sentido, Aristóteles inicia de um exame do sujeito e da finalidade para dizer a origem das coisas e seu dinamismo. Dessa maneira, é com base nessas quatro causas fundamentais que ele investiga o problema da origem do conhecimento.

Aristóteles considera a teoria platônica da origem do conhecimento intelectivo como artificial, arbitrária e não confirmada de maneira alguma pela experiência. Ao contrário da teoria platônica, que parte do método indutivo retirando a informação do mundo das ideias[3] e aplicando este conhecimento sobre o objeto, Aristóteles faz um caminho diferente. Em sua opinião, o conhecimento intelectivo deve-se em larga medida à ação do sujeito (causa eficiente, agente), que é dotado de uma potência particular (o intelecto) pela qual ele elabora os dados oferecidos pela experiência, de tal modo a colher neles o elemento universal, necessário e, portanto, essencial (forma).

Nessa linha, o conhecimento intelectivo é resultado da ação conjunta do sujeito e do objeto, ao passo que o conhecimento sensível deve-se exclusivamente à ação do objeto, que emite sinais, rastros ou pistas da essência. Para Aristóteles, os cinco sentidos são suficientes para conhecer completamente o mundo, por consequência o objeto e sua essência.

Aristóteles compartilha o pensamento de Sócrates e Platão no tocante à validade essencial do conhecimento intelectivo, porém não na explicação dada por Platão que introduziu o mundo das ideias. Segundo Aristóteles, são as próprias coisas que contêm um núcleo fundamental sempre idêntico a si mesmo, a essência, por essa razão o conhecimento sensível está apenas na análise do objeto; diferente do mundo das ideias de Platão onde a essência se encontraria neste imaginário chamado de hiperurano.

Assim, a essência não está fora das coisas, mas nas coisas. Logo, na concepção aristotélica, por exemplo, deve-se procurar no sol a sua razão última de ser, para se concluir a partir de pistas deixadas pelo sol (objeto), como calor e luminosidade, que se trata de estrela, e não planeta.

Dessa maneira, a análise aristotélica não vai buscar no objeto planeta a essência do sol, porque ela não faz parte do objeto. Na verdade, o objeto guiará o sujeito por meio de impressões que são captadas pelos sentidos do agente. Isto é, o intelecto humano do sujeito atinge a essência com a abstração do próprio objeto sol. Ele não busca a essência fora do objeto, mas no próprio objeto.

De fato, para Aristóteles, o problema gnosiológico é: O conhecimento é feito somente através de pistas do objeto sensível (matéria), mas o objeto do conhecimento (núcleo) é universal, já que não pode ser tocado. Nós sabemos através dos sentidos que servem como liame, mas o conhecimento se baseia somente em conceitos elaborados pela inteligência humana, que não tem nada em comum com a experiência.

4. CONCLUSÃO

O Realismo é uma teoria que valoriza tanto o sujeito como o objeto, permitindo dessa forma o equilíbrio da relação necessária para se atingir o conhecimento.

Importa seu estudo para se conhecer o Direito Público não apenas com as informações coletadas da experiência vivenciada nos tribunais e no legislativo, mas também com a elaboração pelo intelecto de tais dados. O intuito é se chegar ao núcleo do Direito Público e oferecer novas respostas à diversidade de opiniões existentes acerca de sua definição: uma ordem de relações humanas em que se vive.

 

Referências
CIULEI, Tomita. Nihil est in intellectu quod non primus fuerit in sensu. The limits of Gnoseologic Paradigm, from Aristotle to Locke. Cultura International Journal of Philosophy of Culture and Axiology, Romania, Issue 11/2009. Disponível em: <http://www.international-journal-of-axiology.net/articole/nr11/art05.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2010.
MONDIN, Battista. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. São Paulo: Paulus, 1980. p. 196.
SOUZA JUNIOR, Cezar Saldanha. A teoria do conhecimento aplicada ao Direito Público, 20-28 de nov. de 2009. 13 f. Notas de Aula. Documento digitado. 

Notas:
[1] Conforme Prof. Cezar Saldanha qualquer especulação filosófica passa por cinco problemas: matéria, forma (ou essência), finalidade, instrumento e causa eficiente. Sendo que o problema mais estratégico da Filosofia é o problema da essência para compreender a diversidade de opiniões, ou seja, o problema da origem do conhecimento ou gnosiológico.
[2] MONDIN, Battista. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. São Paulo: Paulus, 1980. p. 196.
[3] Segundo Platão, o mundo das ideias ou hiperurano é outra dimensão diferente da realidade onde o ser humano imaterial já aprendeu todo o conhecimento do mundo.


Informações Sobre o Autor

Ana Paula Galinatti Schreiber

Advogada. Especialista em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS


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