Frio em Bonn, esperança em Cabul

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Nesta época do ano faz frio em Bonn. A
temperatura está situada na faixa dos 3ºC, o céu é cinza e uma chuva fina cai
incansavelmente na antiga capital alemã. Nos arredores deste cenário, mais
precisamente na residência oficial de hóspedes Petersberg,
os líderes das principais etnias que formam a população do Afeganistão se
reuniram para decidir o futuro de seu país. A Alemanha recebeu tadjiques, uzbeques, hazaras, pashtuns, além de
facções exiladas que formam estas etnias, como os grupos de Roma, Chipre e Peshawar. Cada um dos grupos étnicos tem sua própria língua
e costumes. O primeiro objetivo foi alcançado com a formação de um governo
provisório comum que tomará posse no dia 22 de dezembro. Contudo, ainda há
muito que fazer.

O Afeganistão é uma colcha de retalhos,
pois é formado por pessoas de diferentes culturas e costumes, oriundos de
centenas de tribos. O trabalho do novo chefe da administração interina, o pashtun Hamid Karzai,
será o de estabelecer uma convivência harmônica entre estes povos até a convocação
de uma reunião tribal intitulada “Loya Jirga”, quando será decidido o verdadeiro futuro político
do país.

Esse emaranhado de tribos e culturas é
dominado por certas etnias, onde a pashtun é maioria,
com 38% da população. Logo após, vem os tadjiques,
principais líderes da Aliança do Norte, próximos de Moscou, e chefiados pelo
antigo mandatário afegão Burhanuddin Rabbani com 25%. Em terceiro lugar vem
os hazaras com 19%, de origem mongólica e xiitas,
logo, próximos do governo de Teerã. Na seqüência encontram-se os uzbeques com 8%, residentes em sua maioria no noroeste do
país e que tem como líder o General Dostum. Por
último, são encontrados os 10% restantes formados por diversas outras etnias e
orientações.

O governo provisório foi entregue a um pashtun contrário ao regime talibã
e próximo do ex-rei Mohammad Zahir
Shah. A família do novo chefe interino é famosa no
Afeganistão. Seu avô foi presidente do Conselho Nacional na época em que a
monarquia governava o país. Seu pai, antigo deputado, foi assassinado em Quetta, no Paquistão. Em 1982, Hamid
Karzai ingressou na luta contra a dominação soviética
e dez anos mais tarde assumiu o Ministério das Relações Exteriores. Em 1996
rejeitou o convite do talibã para ser Embaixador nas
Nações Unidas. Portanto, um pashtun, natural de Candahar, líder da tribo polpazai
e ligado ao ex-rei, Karzai foi a melhor opção para
conduzir o país durante este crítico momento de transição.

As sofridas mulheres afegãs também
foram prestigiadas em
Bonn. Sima Samar e Suhaila
Seddiqi farão parte do governo. A primeira ocupará um
dos cargos de vice-primeiro ministro, enquanto a
segunda enfrentará a difícil tarefa de conduzir a pasta da saúde. A principal
preocupação internacional residiu no fato de estabelecer um governo de caráter
plural neste momento. Para isto, foram criadas 30 pastas, e as principais foram
divididas entre a Aliança do Norte e o grupo do ex-rei Zahir
Shah. Enquanto a AN ficará responsável pela defesa,
relações exteriores e interior, o outro grupo ocupará
postos de comando nas finanças, educação e reconstrução.

O resultado das conversas em Petersberg foi de formar um governo provisório que
representasse a grande maioria das etnias afegãs. Contudo, já existem
contestações, como a do controverso General uzbeque Rashid Dostum. Os líderes das
mais diversas etnias devem entender que este é apenas um governo provisório que
tem o objetivo de propiciar um ambiente seguro para as diversas mudanças que
ainda estão por vir, inclusive a reconstrução de um país arrasado por conflitos
étnicos. Caberá principalmente aos líderes dos pashtuns,
tadjiques, uzbeques e hazaras deixar que as sensatas decisões tomadas durante o
frio alemão, possam levar esperança para as milhares
de pessoas que enfrentam o rigoroso inverno vivenciado em Cabul.

 


 

Informações Sobre o Autor

 

Márcio C. Coimbra

 

advogado, sócio da Governale – Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Mestrando em Relações Internacionais pela UnB.
Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE – Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese – IOB Thomson (www.sintese.com).

 


 

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