Ainda a crise do Poder Executivo x o Poder Judiciário
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Fico, às vezes, duas semanas sem
escrever. É uma espécie de desânimo, ou letargia, pela ausência de dados sobre
eventuais leitores. A vida do cronista é assim. Não sabe quantos
o lêem, quantos gostam e quantos divergem. Fica uma espécie de monólogo.
Um círculo vicioso. Começa e acaba na própria crônica. Entretanto, escrever é
espécie de compulsão. O gajo resiste, finge desistência, foge do computador
(Não é como no tempo de Balzac, que deixava sem ponta a pena do cisne) e,
repentinamente, lá vão para a tela outras quarenta linhas.
A provocação, hoje, vem do Advogado-Geral da União. Gilmar Mendes é o nome do colega.
Se faraó houvesse no Brasil, o moço estaria sentado no primeiro degrau do
trono, estilete e lousa na mão, atento às ordens do
barbicha-mor. O sujeito é agressivo, ardido, autoritário, metido e
malcriado. Não sei donde vem a cultura jurídica do moço. É professor. Ou foi.
Se preparado for, pôs seu preparo à disposição de muita medida provisória
imperialista. Se inculto e incapaz é, encomendou-as a alguém. O Brasil não foge
à regra geral. Há sempre uma caneta submissa aguardando as ordens
do imperador.
Acontece que Gilmar anda escorregando
pelas bordas do tinteiro. Agora xinga o Poder Judiciário. Tem má inspiração,
pois a moda é o descumprimento de decisões dos juízes.
Vem o assunto a lume à leitura da
manchete dos matutinos de 20 de novembro: “– Judiciário
reage e abre nova crise com o Poder Executivo”. Gilmar fez outra das suas:
chamou a Justiça de manicômio judiciário. Entusiasmado, Paulo Renato, ministro
da educação e responsável direto pelo horrível abastardamento da advocacia,
resolveu seguir a linha do enfrentamento. E retém, segundo as notícias, a verba
destinada ao pagamento de grevistas nas universidades, apesar de ordem judicial
contrária, provocando uma nova crise entre Judiciário e Executivo e uma
reação em cadeia entre os juízes (textual).
A loucura, na verdade, não se entranha
no Poder Judiciário, mas no manicômio em que se transformou a palaciana equipe
de Fernando I e Único, rei do Brasil. Gilmar é exemplo seguríssimo
do transtorno. Crê numa espécie de missão sagrada a desempenhar enquanto Advogado-Geral da União. Desrespeita o Poder Judiciário.
Instiga à desobediência e envia, com seus atos, mensagens não muito
sofisticadas de autoritarismo. Pior é o péssimo exemplo transmitido por quem,
conforme as fofocas, pretende disputar uma vaga no
Supremo Tribunal Federal, ele, Brindeiro e outros.
Uma briga desesperada, sim, a tomar corpo enquanto o rei procura segurar o
trono crispando as mãos à descoberta do fim, mas buscando forma de continuar.
Um ofende o Judiciário mas cobiça a toga; outro é o
acusador-maior mas também aspira os ares da Suprema Corte. O povo olha mas não enxerga. Há quem goste do prenúncio da
ditadura. Os sinais estão aí. Quando um tribunal inferior descumpre
determinação de outro, sem qualquer castigo, desmoraliza-se a Jurisdição.
Quando um servidor público insulta o Supremo Tribunal Federal, fazendo-o
em nome do presidente, pois este não o desautoriza, há urubus no
horizonte. Finalmente, quando um Ministro resiste anomalamente a mandado
judicial, pior fica a sensação do voejar de abutres beliscando raivosamente a
Constituição. Quanto a Paulo Renato, aliás, é um elefante. Inimigo velho
desta formiga. Tem ódio dos advogados. Resolveu multiplicá-los a ponto de os levar à inanição. Perdeu o controle sobre um monte
de podres Faculdades de Direito plantadas no lamaçal em que se
tornou o ensino universitário no Brasil. E deita falação. Quer,
segundo os taxistas de Brasília, ser candidato a sucessor do rei do Brasil (Os
taxistas de Brasília sabem tudo. Viram o espelho, não
falam e não vêem, mas sabem). Se depender do voto desta formiga, Paulo
Renato não chega a vereador em Jurubeba. Mas vamos lá! Alguém lê o velho
escriba? Uma andorinha não faz verão. Um inseto não derruba um paquiderme. No
entanto, uma coceirinha sempre pode gerar uma irritação qualquer, enquanto
chama a atenção sobre os urubus escondidos atrás das nuvens cinzentas do
arbítrio. Os regimes de força têm sintomas variados. Um destes é a
desobediência ao Juiz. Aqui, quem pretende ser Ministro do Supremo Tribunal
Federal precisa aprender a respeitar a toga. Nesse aprendizado, o Advogado-Geral da União não fez o curso primário. Se não
aprendeu até agora, há de morrer analfabeto.
Informações Sobre o Autor
Paulo Sérgio Leite Fernandes
Advogado criminalista em São Paulo e presidente, no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, da Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas do Advogado.