Sou do tempo de um PT em que cada panfleto era precedido por uma discussão interminável de “política de finanças”. Quando me filiei, em 1984, o aluguel de uma sede era o mesmo que uma dor de cabeça e campanha não tinha sequer “caixa um”, quanto mais “caixa dois”. Grana mesmo só os 30% descontados dos parlamentares, enquanto nossas bancadas devolviam a remuneração extra das convocações extraordinárias. Ingênuos, simplórios, dogmáticos, radicais? Sim, um pouco de tudo isso mais a virtude de não dever nada. Nossa palavra foi mais áspera do que o necessário e deveríamos ter tido menos certezas. Nossas perguntas, é verdade, nunca foram maiores que nossas respostas. Mas era a nossa palavra, aquela que brotava do nosso peito; do mesmo lugar onde carregávamos uma estrela. Não era uma palavra emprestada, ou calculada para que nenhum conteúdo fosse identificado. Era uma palavra inteira, nunca um sussurro ou um enigma. Uma palavra que nascia livre porque dita por homens e mulheres livres. Uma palavra moral que encantava até parte de nossos adversários. A palavra de um petista jamais precisou de um habeas corpus preventivo.
A minha palavra e a de milhares de outros militantes do PT, loucos de cara, alucinados de bandeiras, roucos de esperança, inquietos, alegres, malditos, nunca precisou de habeas corpus. Por nossa palavra iríamos para a prisão orgulhosos; por ela, saímos país afora em busca de bala perdida, estivemos à frente de todas as lutas por justiça e decência, enquanto reinventávamos as avenidas e derrubávamos muros de preconceitos. Por conta dessa experiência – com tudo o que ela sempre carregou de limitação – trouxemos para a cena política, como protagonistas, centenas de milhares de trabalhadores. Gente humilde e dedicada que nunca acendeu um gran coronas cubano ou andou de Land Rover.
Este partido não existe mais. Ele foi sendo substituído por uma máquina de poder capaz de legitimar silenciosamente práticas tradicionais como o aliciamento e a demagogia, o aparelhamento do Estado e o canibalismo interno. O “modo petista de governar” incorporou, então, sem crise de consciência, a nomeação de notórios incapazes indicados por correntes internas, sem qualquer atenção a critérios republicanos. Este tipo de prática e o engalfinhamento por cargos sempre me causaram asco. Neste ambiente, ao invés dos mais capazes e dos mais inteligentes, selecionamos os mais dóceis e os mais inescrupulosos. E, quando olhamos em volta, estamos cercados por Delúbios e Silvinhos. Nesta história, há conivência e omissão diante de casos evidentes de abuso de poder econômico em campanhas eleitorais e de indícios de enriquecimento ilícito de uma camarilha que, agora, começa a ser apresentada à opinião pública. Essa turma não é composta por delinqüentes comuns e o que fizeram é muito mais grave do que crimes eleitorais. São ladrões de sonhos, isso é o que eles são. Um crime que, parafraseando Hannah Arendt, não se pode punir, nem perdoar.
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Marcos Rolim
Jornalista