Eleições, França e sucessão

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No último dia 18 a
França atravessou mais uma eleição. A análise mais rápida que se observou, foi
sem sombra de dúvida, o avanço dos socialistas, que conquistaram o poder nas
duas maiores cidades daquele país, Paris e Lyon. Como resultado
destas vitórias, principalmente a de Bertrand Delanoë
na capital francesa, começaram as especulações acerca do enfraquecimento
do poder do grupo conservador liderado pelo Presidente Jacques Chirac, inflando
as pretensões presidenciais do atual primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. Entretanto, uma análise mais aprofundada, nos
mostrará que o bloco conservador não sai tão enfraquecido deste pleito como se
imagina, e nem a esquerda sai tão forte como parece em uma primeira leitura.

Paris estava nas mãos do grupo conservador há mais de 20 anos,
mais precisamente desde a chegada de Jacques Chirac ao poder em 1977. A importância
especial da capital francesa neste processo reside no fato de que a passagem de
um político ou de um partido pelo Hôtel de Ville (sede da prefeitura de Paris), pode servir de base
para a construção e consolidação de uma forte candidatura a
presidência, assim como fez Chirac. Olhando sob este prisma, não há dúvidas de
que houve um grande avanço das forças socialistas, pois com a tomada da
prefeitura de Paris, a candidatura dos socialistas sob a liderança de Jospin, começa a tomar contornos mais definidos.

Entretanto as vitórias da esquerda não avançaram além as
fronteiras de Paris e Lyon. Fora das grandes cidades, as vitórias mais
significativas foram asseguradas pelos candidatos conservadores. Os maiores
exemplos das mais importantes derrotas dos socialistas foram nas cidades de
Toulouse (base eleitoral de Jospin), Blois e Estrasburgo, que até esta
eleição eram consideradas importantes núcleos socialistas. Portanto, se a
esquerda conseguiu tomar Paris das mãos do partido de Chirac, os conservadores
conseguiram expressivas vitórias em cidades que até então estavam nas mãos dos
socialistas.

O ponto mais importante destas eleições foi iniciar as conversas
sobre quem ocupará o Elysée após o término do governo
Chirac. A corrida pela sucessão francesa começa a tomar forma, entretanto, o
resultado será uma conseqüência de uma grande articulação política que deve
começar a ser costurada desde já. A tendência do grupo de Jospin
é procurar o apoio do PCF – Partido Comunista Francês, que saiu muito
enfraquecido destas eleições, além do apoio dos verdes, que saíram mais
fortalecidos deste pleito. Já, do lado mais conservador, acredita-se que Chirac
possa compor uma rede composta pelo RPR – Reunião pela República, Democracia
Liberal e a UDF – União pela Democracia Francesa. Vale ressaltar que apesar de
ter saído enfraquecido deste último pleito, a extrema-direita de Le Pen pode influenciar a
sucessão.

Logo, apesar de as pesquisas anteriores a eleições, traçarem um
prognóstico de ampla vitória da esquerda, vemos que na
realidade isto não se concretizou. Apesar da vitória em alguns grandes centros,
a esquerda perdeu em cidades estratégicas, onde tinha uma grande densidade
eleitoral. Portanto, Jospin não saiu tão fortalecido
deste pleito como se imaginava.

As cartas foram colocadas na mesa. Agora a sucessão francesa
dependerá da habilidade política de Jacques Chirac e Lionel Jospin.
As alianças e questões regionais terão importância fundamental. A sucessão
presidencial tem tudo para ser um grande embate eleitoral, um dos maiores da
recente política francesa.


Informações Sobre o Autor

Márcio C. Coimbra

advogado, sócio da Governale – Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Mestrando em Relações Internacionais pela UnB.
Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE – Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese – IOB Thomson (www.sintese.com).


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