A violência e suas repercussões na mídia: uma aproximação ao tema através de pesquisa realizada no estado do Paraná

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Resumo: O fenômeno da violência tem crescido? Qual a influência da mídia no comportamento social quando se fala a respeito desse fenômeno? Tendo essa discussão como referência é que este artigo objetiva ser um instrumento de reflexão a respeito do tema violência na mídia a partir das matérias sobre violência dos meses de Agosto e Setembro de 2010 num dos veículos de comunicação impresso do estado do Paraná, o jornal “Gazeta do Povo”. Para tanto utilizamos enquanto instrumentais da pesquisa: a pesquisa documental deste referido jornal e a pesquisa bibliográfica. Algumas considerações que chegamos na pesquisa foi que há predominância de matérias sobre violência em determinados dias da semana, que as matérias contra a violência são menos veiculadas, e que há um aumento de matérias sobre outras manifestações de violência que não somente aquelas tradicionais, mas envolvendo direitos humanos.


Palavras-chave: violência, mídia, sociedade.


Abstract: Has the phenomenon of violence grown? What is the influence of media on social behavior when talking about this phenomenon? Having this discussion as reference is what this article aims to be an instrument of reflection on the topic of violence in the media from the materials on violence in the months of August and September 2010 in one of the printed media of the state of Parana, the newspaper “Gazeta do Povo”. For such we use as an instrument of research: documentary research of the newspaper and literature. Some considerations that come in the study were a predominance of stories about violence in certain days of the week, that matters of violence are less publicized, and that there is an increase in stories about other manifestations of violence that not only traditional ones, but involving human rights.


Keywords: violence, media, society


Sumário: 1. Introdução. 2. Breve análise sobre o fenômeno da violência a partir do Mapa da Violência 2010. 3. A violência na mídia. 4. Matérias sobre violência referentes aos meses de Agosto e Setembro de 2010 do jornal “Gazeta do Povo”. 5. Considerações finais. Referências bibliográficas.


1. Introdução


Este artigo tem por objetivo ser um instrumento de reflexão a respeito do tema violência na mídia, a partir das matérias sobre violência de um dos veículos de comunicação impresso do estado do Paraná, o jornal “Gazeta do Povo”.


Conforme já dito acima, o levantamento dos dados foi realizado a partir da leitura do jornal de circulação no estado do Paraná “Gazeta do Povo” nos meses de Agosto e Setembro de 2010. Este jornal foi escolhido por ser de grande circulação estadual, acreditando que assim podia trazer grandes contribuições a pesquisa.


Para melhor organizar o artigo, dividimos o mesmo da seguinte forma: Primeiramente apresentamos discussões mais teóricas a respeito da violência de maneira geral. O que é, como ela se constitui, quais são os tipos de violência. Para tanto, utilizamos como base para nossas discussões, o Mapa da Violência do ano de 2010. Material este que é amplamente conhecido e divulgado, visto sua amplitude e confiabilidade.


Depois falamos a respeito da violência na mídia. Como este fenômeno está sendo tratado pelos canais de comunicação, e qual o impacto dessas informações na vida das pessoas.


Discorremos também, e este é o foco desse artigo, sobre o percorrer metodológico da análise das matérias sobre violência nos meses de Agosto e Setembro de 2010. Apresentamos o processo de sistematização dos dados, demonstrando quais foram os tipos de violência que mais ocorreram nesses meses.


Finalmente, de posse dos dados coletados e embasados teoricamente, chegamos às considerações finais dessa pesquisa, que tem como objetivo ser um instrumento de reflexão sobre a violência nos canais de comunicação.


2. Breve análise sobre o fenômeno da violência a partir do Mapa da Violência 2010


A violência sempre foi um tema muito discutido em nossa sociedade, e sempre esteve na agenda de debates. Porém segundo Waiselfisz


“O contínuo incremento da violência cotidiana configura-se como aspecto representativo e problemático da atual organização da vida social, especialmente nos grandes centros urbanos, manifestando-se nas diversas esferas da vida social. Assistimos, desde o último quartel do século passado, a uma profunda mudança nas formas de manifestação, de percepção e de abordagem de um fenômeno que parece ser uma das características marcantes da nossa época: a violência.” (WAISELFISZ, p. 9)


Ou seja, Waiselfisz inicia o Mapa explicando-nos como o fenômeno da violência vem se tornando uma das características marcantes da nossa sociedade moderna.


“Efetivamente, assistimos, por um lado, a um incremento constante dos indicadores objetivos da violência […] Mas também assistimos, nas últimas décadas, a um alargamento do entendimento da violência, uma reconceitualização, pelas suas peculiaridades atuais e pelos novos significados que o conceito assume, […] como a violência intrafamiliar, contra a mulher ou as crianças, a violência simbólica contra grupos, categorias sociais ou etnias, ofensas contra os direitos humanos etc.” (WAISELFISZ, p. 9)


No momento histórico em que vivemos, o conceito violência assume uma ressignificação, ampliando o seu conceito para ações que antes eram consideradas naturais e/ou culturais. Como exemplo o autor coloca a violência intrafamiliar, contra a mulher ou as crianças, e etc, e que hoje temos instrumentos legais para combatê-los.


Falando a cerca do que é violência, este autor nos diz que esta pode ser considerada como “[…] noção de coerção ou força; dano que se produz em indivíduo ou grupo de indivíduos pertencentes a determinada classe ou categoria social, gênero ou etnia.” (grifo nosso) (WAISELFISZ, p. 9) O autor também nos fala que “…longe de ser resultado de decisões individuais tomadas por indivíduos isolados, estamos perante fenômenos de natureza social, produto de determinantes que se originam na convivência dos grupos e nas estruturas da sociedade.” (WAISELFISZ, p. 11)


Compreendido o que o autor entende por violência, este explica-nos porque utiliza os homícidios enquanto indicador da violência nos centros urbanos.


“[…] a morte revela, de per si, a violência levada a seu grau extremo. Da mesma forma que a virulência de uma epidemia é indicada, frequentemente, pela quantidade de mortes que origina, também a intensidade nos diversos tipos de violência guarda relação com o número de mortes que origina. […] porque não existem muitas alternativas. O registro de queixas à polícia sobre diversas formas de violência […] tem uma notificação extremamente limitada. Já no campo dos óbitos, contamos com um Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) que centraliza informações sobre as mortes em todo o país. Dada a utilização desse Sistema, entenderemos como morte violenta, no contexto do presente estudo, os óbitos acontecidos por homicídios, ou seja, agressões intencionais fatais”. (WAISELFISZ, p. 10)


Ou seja, o autor utiliza a taxa de homicídios enquanto indicador da violência por dois motivos. Primeiro porque a morte provocada através do homicídio revela-nos o grau extremo da violência. E segundo porque obtemos dados mais fidedignos quando utilizamos o homicídio enquanto indicador, pois este é sempre notificado através do SIM, já os casos de violência que não levaram a morte, nem todos são notificados à polícia. Dessa maneira, podemos proceder as análises.


Waiselfisz nos diz que nas décadas de 1997/2007, o número total de homicídios registrados pelo SIM foi de 40.507 para 47.707, o que representa um incremento de 17,8%. O Sul do Brasil também mostra um expressivo aumento (62,9%) no número de homicídios, puxado pelo incremento de 96,2% do Paraná. O autor nos diz que “ […] o que realmente impressiona nesses números são suas magnitudes. No ano de 2007, com todas as quedas havidas, aconteceram acima de 47,7 mil homicídios, o que representa 131 vítimas diárias. Isto representa um número bem maior que um massacre do Carandiru a cada dia desse ano.” (grifo nosso) WAISELFISZ (p. 20) O Mapa ainda nos alerta dizendo que o estado do Paraná e Pará que em 1997 apresentavam índices relativamente baixos, em 2007 passam a ocupar lugares de maior destaque.


Segundo este Mapa da Violência, Curitiba, capital do estado do Paraná, ocupa a 192 posição no ranking dos 300 municípios mais violentos do país, possuindo uma taxa de homicídios de 45,5. Ponta Grossa, município em que fazemos este artigo, não entrou na lista dos 300 munícipios mais violentos.


Dividindo por faixa etária temos como resultados o Paraná ocupando o 6 lugar dos 27 estados, na taxas de homicídio contra a população de 0 a 19 anos. Na população de 15 a 24 anos, e de 15 a 29 anos, esta Unidade Federada continua ocupando o 6 lugar dos 27 estados brasileiros.


Fazendo a divisão por gênero, o que temos no estado do Paraná são 92,2% dos homicídios ocorrendo no sexo masculino, e 7,8% ocorrendo no sexo feminino. O que, por sua vez, acompanha a tendência nacional que nos mostra que o sexo masculino é o mais afetado pelas taxas de homicídio.


Já com relação a questão da raça/cor, temos no ano de 2007 no estado do Paraná, um total de 2409 homícios cometidos em brancos, e 621 homicídios cometidos em negros. Contrariando a tendência nacional, a qual foi de maioria de homicídios contra negros e não brancos. Ou seja, “A única UF com índices negativos de vitimização negra é o Paraná, fato histórico já apontado em nossos estudos anteriores. O Estado, em 2007, apresentou um índice de vitimização negativo de 36,8. Isso significa que morreram, proporcionalmente, 36,8% mais brancos do que negros.” WAISELFISZ (p. 120)


Na década 1997/2007 houve um declínio no número de homicídios no Brasil se comparado a outras décadas. Mas que se comparados com outros países, ainda estamos muito aquém do que poderíamos estar.


“Vemos que o número de mortes anuais por homicídio do Brasil na década 1997/2007 – país sem guerra civil, sem conflitos armados, religiosos, ou raciais, ou de etnias, sem problemas de fronteiras – ultrapassa, e de forma por vezes bem significativa, o número de mortes em muitos dos conflitos acontecidos no mundo.”  WAISELFISZ (p. 145)


Sendo assim, podemos perceber que da análise feita da violência no Brasil, e especificamente no estado do Paraná, a partir do Mapa da Violência 2010, que houve uma diminuição a nível geral do número dos homicídios, porém o que vemos no Paraná é um movimento contrário, haja visto que os números comprovam que houve um aumento significativo dos homicídios nesta Unidade Federada, sendo suficiente para este estado ocupar em sua maioria o 6 lugar no número de homicídios de 27 estados brasileiros.


Dessa forma, devemos atentarnos para a questão da violência no Brasil. Especialmente no estado do Paraná, o qual é foco de nossa pesquisa, além de ter mostrado a relevância da discussão que esse artigo propõe, pelos números crescentes de homicídios nesta Unidade Federada.


3. A violência na mídia


Especificando o tema, gostaríamos de falar sobre a violência na mídia. O autor Marcos Silvio de Santana (2004), em sua obra intitulada “A violência na mídia e seus reflexos na sociedade” traz-nos alguns questionamentos que são importantes para introduzirmos a questão.


“A exploração obsessiva da violência pela mídia seria apenas uma resposta ao público, para satisfazer a sua curiosidade mórbida e saciá-lo no seu apetite pelo trágico? No caso do Brasil, vive-se hoje um “estado de violência”, ou o que existe é uma superexploração de fatos violentos? A exposição do público às freqüentes cenas de violência, reais ou fictícias, pela mídia pode interferir na postura comportamental e nas relações sociais? Se se vive uma escalada da violência, quais seriam as suas verdadeiras causas?” (SANTANA, 2004, p. 1)


Santana (2004) diz-nos que é em busca dessas respostas que cresce um debate em torno dessa temática, sempre no sentido da preocupação em o quê temos gerado de conhecimento e cultura para nossas próximas gerações. O autor ajuda-nos a entender melhor essa temática a partir de diversos olhares.


Citando Émile Durkheim, Santana (2004) diz-nos que este autor entendia a violência como sintoma de funcionamento ineficiente das instituições sociais, ou falha nos processos de socialização das pessoas. Já para Karl Marx, de acordo com Santana (2004), acreditava-se que a violência seria resultante das lutas de classes, fruto das contradições das conquistas da modernidade e do capitalismo. Há ainda outros autores dizendo que “[…] a violência tem causas difusas como racismo, intolerância, desigualdades sociais, processos de exclusão, ineficácia da lei/impunidade, omissão do Estado entre outras” (SANTANA, 2004, p. 1) De acordo com Santana “Ainda há os que acreditam que a mídia, em especial a televisão, gera ou potencializa comportamento agressivo e contribui para o incremento da violência na sociedade.” (SANTANA, 2004, p. 1) Sendo assim, o autor leva-nos a refletir: Diante de tantas opniões diferenciadas, será que a mídia brasileira através de suas mensagens, têm influenciado o comportamento violento das pessoas de diversas faixas etárias? Qual é sua participação nesse processo?


Falando a respeito da regulamentação legal, o autor nos diz que a comunicação social recebeu especial atenção em nossa atual Constituição Federal.


“Capítulo V: Da comunicação Social. Num estado democrático de direito, tudo aquilo que é de interesse social há que ser gerido ou controlado pela sociedade através das suas instituições representativas. As organizações particulares, como os indivíduos, têm os seus direitos assegurados constitucionalmente, ao mesmo tempo em que lhes são atribuídos os correspondentes deveres. Dentre aqueles direitos estão os de liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação (art. 5º, IX – CF); Em seu art. 220, a Constituição assegura a livre manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrendo qualquer restrição, observado o que dispõe, e, no parágrafo primeiro, diz que nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social […]” (SANTANA, 2004, p. 1)


Porém, o autor nos diz que, mesmo os meios de comunicação tendo sua liberdade de expressão assegurada, sem censura, cabe ao Poder Público e à sociedade regular o que é veiculado nos canais midiáticos. Pois, segundo Santana (2004, p. 1) “A plena liberdade de expressão é fundamental, é um pré-requisito do regime democrático. Mas a responsabilidade é o outro lado dessa liberdade.”


E é em conformidade com essa lógica, que temos enquanto instrumento a Portaria 796/00 do Ministério da Justiça, em vigência a partir de setembro/2000, a qual


“[…] representa um avanço com referência à adequação da programação veiculada nos meios de comunicação aos locais, horários e faixas etárias do público alvo e atende aos limites legais estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, que, em seu art. 74 e seguintes, estabelece os limites legais para a classificação indicativa, tornando-a obrigatória, no que diz respeito à proteção do menor.” (SANTANA, 2004, p. 1)


Segundo o autor, a mídia, nos dias atuais e especialmente após o surgimento da televisão,


“[…] tem uma função extremamente delicada e imbuída de máxima responsabilidade diante da sociedade no que se refere à formação do indivíduo, com relação aos valores morais, ao caráter, à dignidade, à cidadania e todas as demais qualidades básicas de comportamento e convivência social”. (SANTANA, 2004, p. 1)


Sendo assim devemos enquanto sociedade estarmos atentos as suas programações e às informações veiculadas, sempre no sentido de defendermos valores e idéias que sejam críticas, de liberdade, democracia, e cidadania, e não à violência, mesmo que velada.


Nesse sentido o autor nos diz que


“[…] a mídia […] deve ser passaporte para a inclusão social, promotora da educação em valores, respeitando a cultura e as crenças de cada comunidade. A mídia detém o privilégio do alcance pleno. Falta-lhe encontrar seu verdadeiro sentido de indutora da cidadania, ou seja, despertar no indivíduo o interesse pelo bem comum, pelo bom funcionamento das instituições, pelo bem-estar da coletividade. Divulgar a idéia de priorização dos valores fundamentais: a vida, a liberdade, a paz, o respeito mútuo. Motivar o indivíduo na busca da auto-realização, da mudança de atitudes que fortaleça o caráter, promova a tolerância em relação à família, aos amigos, aos co-habitantes. Favorecer o desenvolvimento de uma consciência crítica para uma maior justeza na percepção e discernimento do bens comuns da humanidade”. (SANTANA, 2004, p. 1)


Ainda segundo Santana (2004, p. 1)


“Todo esse debate sobre a mídia […] justifica-se, dada a importância consagrada deste veículo como instrumento de conscientização e educação das massas. Necessário se faz o zelo pela sua programação, não a isentando da sua responsabilidade social. Aliás, há que se encaminhar a vigilância civil sobre todos os meios de comunicação. Este é o papel da sociedade, por meio de suas organizações, num sistema verdadeiramente democrático, já que todos os serviços de comunicação são concedidos e autorizados pelo Estado”


O autor afirma em seu artigo, depois de mostrar-nos diferentes opniões de vários autores, que os canais midiáticos podem infuenciar no comportamento violento das pessoas que estão sob sua influência. Em especial acreditamos no poder que esta tem sob o comportamento de crianças e adolescentes, visto que estes estão em processo de formação, e segundo pesquisas estão passando cada vez mais tempo próximos e expostos aos canais de comunicação.


“O público infantil, segundo Andréa Carla Falchi Ferreira Santos, em trabalho citado pela Revista Eletrônica Com Ciência, é o mais vulnerável aos apelos televisivos, sendo facilmente impressionado, em virtude de estar a sua personalidade ainda em formação. Por isso, as informações que recebe pela televisão são entendidas e processadas segundo o universo psíquico da criança, que inclui o ambiente em que vive. Essa influência pode estabelecer padrões de comportamento, acrescenta Santos.” (SANTANA, 2004, p. 2)


Santana (2004) nos fala que o tema sobre a violência na mídia deve ser discutido amplamente, envolvendo um maior número possível de interessados, visto ações isoladas mostram-se improváveis para a solução do assunto. Ou seja, o início para o combate à violência na mídia começa com a discussão sobre o assunto, e as deliberações que partirem deste amplo debate.


Finalizamos com uma citação do autor que nos diz que


“A mídia é um bem da sociedade e, portanto, deve submeter-se às suas vontades. Se a mídia faz parte das circunstâncias formadoras de homens, então que se humanize a mídia. Que os operadores sociais voltem-se para as massas, não apenas usando-as como meio de lucros e de auto-promoção. Porém, para oferecer-lhe reais oportunidades de experiência crítica”. (SANTANA, 2004, p. 3)


Ou seja, a mídia tem que servir aos interesses da sociedade, e não o contrário.


4. Matérias sobre violência referentes aos meses de Agosto e Setembro de 2010 do jornal “Gazeta do Povo”


Chegamos portanto no foco dessa pesquisa, a qual objetiva entender sobre o fenômeno da violência através de matérias do Jornal “Gazeta do Povo” referentes aos meses de Agosto e Setembro de 2010. Como já informado, escolhemos este jornal por ser o de maior circulação no estado do Paraná, e portanto possuir grande reconhecimento.


A coleta diária dessas matérias ocorreu via internet, visto que assim não precisávamos possuir a assinatura do Jornal, e as matérias na web encontravam-se na íntegra para aqueles que desejavam acessá-la.


Esta pesquisa ocorreu nos meses de Agosto e Setembro/2010, pois era o período que tínhamos para coleta dos dados, dentro do tempo que nos foi dado para a pesquisa.


Nestes dois meses do ano de 2010 colhemos todas as matérias relacionadas à violência. Para tanto, dividimos nossa coleta e análise em torno de sete categorias, as quais são: Violência no Brasil, Violência no mundo, Violência no trânsito, Violência envolvendo crianças e adolescentes, Violência envolvendo direitos humanos, Guerra, Contra a violência. Esta divisão de categorias foi feita pelos autores do trabalho, e abre espaço para discussões.


Foram coletadas 135 (centro e trinta e cinco) matérias sobre violência no mês de Agosto/2010. Já no mês de Setembro/2010 foram coletadas 162 (cento e sessenta e duas) matérias relativas à violência. Portanto, coletamos e analisamos um total de 297 (duzentas e noventa e sete) matérias.


Abaixo expomos em um quadro para melhor visualização todas as matérias coletadas divididas por dia e categorias.





TOTAL DAS MATÉRIAS DIVIDIDAS POR CATEGORIAS


 


(Quadro 1 – Pesquisa com o Jornal Gazeta do Povo divido por dias pesquisados versus categorias encontradas – Organizado pelo autor)


Partindo para as análises, expomos que as categorias em torno das quais dividimos  as matérias do jornal Gazeta do Povo, foram sendo percebidas enquanto necessárias no decorrer do trabalho, e não previamente.


Primeiramente analisamos as matérias a partir de seu dia de veiculação. Existe relação entre a quantidade de matérias sobre violência em dias específicos da semana?


Conforme já mencionado acima, o total de matérias sobre violência do mês de Agosto/2010 foram 135 (cento e trinta e cinco). Do mês de Setembro/2010 temos um total de 162 (cento e sessenta e dois) matérias. Somando-as temos um total de 297 (duzentos e noventa e sete) matérias sobre violência nos dois meses.


O número de matérias sobre violência nas segundas-feiras nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 37 (trinta e sete) ou 12,46% do total.


O número de matérias sobre violência nas terças-feiras nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 43 (quarenta e três) ou 14,48% do total.


O número de matérias sobre violência nas quartas-feiras nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 54 (cinquenta e quatro) ou 18,18% do total.


O número de matérias sobre violência nas quintas-feiras nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 55 (cinquenta e cinco) ou 18,52% do total.


O número de matérias sobre violência nas sextas-feiras nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 44 (quarenta e quatro) ou 14,81% do total.


O número de matérias sobre violência nos sábados nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 36 (trinta e seis) ou 12,12% do total.


E o número de matérias sobre violência nos domingos nos meses de Agosto e Setembro/2010 foi de 28 (vinte e oito) ou 9,43% do total.


Abaixo temos um gráfico que exemplifica melhor essas constatações.


Incidência de matérias sobre violência no Jornal Gazeta do Povo a partir dos dias de veiculação



Sendo assim, o que percebemos é que existem nesses dois meses de matérias analisadas, dois dias da semana que mais contêm matérias sobre violência: quartas e quintas-feiras, totalizando 109 matérias (cento e nove), ou 36,7% do total de matérias.


Mas será que existe um propósito do Jornal ao veicular essas matérias mais nesses dias, ou será que é coincidência? Será que nos outros dias existe prioridade de veiculação sobre outros assuntos, e nas quartas e quintas acabam ficando as matérias sobre violência?


Essa pesquisa foi importante para se obter essa constatação: que nesses dois dias há uma predominância de matérias sobre violência. Sabemos que nenhuma informação é passada sem intencionalidade, conforme vimos acima no tópico sobre violência na mídia. Sendo assim, abrimos essa discussão para novas agendas de pesquisa.


Após analisarmos as matérias a partir de seus dias de veiculação, analisamo-as em torno das categorias em que foram divididas.


No início da pesquisa já percebemos a necessidade de separar o trabalho em torno de categorias, que dividissem didaticamente o fenômeno da violência para facilitar o processo de análise. Portanto, como foi visto no trabalho dividimos-o em sete categorias: Violência no Brasil, Violência no mundo, Violência no trânsito, Violência envolvendo crianças e adolescentes, Violência envolvendo direitos humanos, Guerra, Contra a violência.


A categoria “Violência no Brasil” diz respeito a todas as formas de violência que ocorrem no país, envolvendo: violência física, sexual, guerras civis e etc. Seu critério no entanto é ocorrer no Brasil, além de não incluir as outras categorias do trabalho, como: violência contra crianças e adolescentes, violência envolvendo direitos humanos, e etc. Das 297 (duzentos e noventa e sete) matérias dos meses de Agosto e Setembro/2010 96 (noventa e seis) eram referentes à esta categoria.


A categoria “Violência no mundo” diz respeito aos mais diversos tipos de violência, porém seu critério é ocorrer fora do país, além de não envolver outras categorias como guerra, violência envolvendo direitos humanos, e etc. Das 297 (duzentos e noventa e sete) matérias dos meses de Agosto e Setembro/2010 60 (sessenta) eram referentes à esta categoria.


Ambos “Violência no Brasil” e “Violência no mundo” apareceram mais vezes  no decorrer do trabalho por serem mais genéricas.


A categoria “Violência no trânsito”, como o nome já diz, envolve os acidentes de trânsito, que têm sido cada vez mais crescentes, onde há negligência ou intenção de ferir por parte do pedestre ou do condutor do veículo. Das 297 (duzentos e noventa e sete) matérias 19 (dezenove) eram referentes à categoria “Violência no trânsito”.


Já a categoria “Violência contra crianças e adolescentes” apareceu em 15 (quinze) matérias da 297 (duzentos e noventa e sete) analisadas. Esta categoria envolve todos os tipos de violência, seja psicológica, sexual, física, no espaço da escola, desde que ocorram com crianças e adolescentes.


“Violência envolvendo direitos humanos” diz respeito à toda violência praticada contra outro ser humano que lese sua moral, honra, liberdade de expressão, e etc. Das 297 (duzentos e noventa e sete) matérias dos meses de Agosto e Setembro/2010 54 (cinquenta e quatro) eram referentes à categoria “Violência envolvendo direitos humanos”


A categoria “Guerra” neste trabalho em específico envolveu toda violência moral/física e histórica entre países que não compatilham dos mesmos ideais. Das matérias, essa categoria apareceu em 41 (quarenta e um) delas.


E a última, porém não menos importante, a categoria “Contra a violência” apareceu em 12 (doze) matérias do Jornal “Gazeta do Povo” das 297 (duzentos e noventa e sete), e envolve a luta política de líderes políticos e civis para diminuir este fenômeno. O que percebemos no entanto, é que a incidência dessas matérias foi muito pequena em comparação com as matérias que diziam respeito a ocorrência desse fenômeno.


Abaixo exemplificamos as análises em um gráfico para melhor entendimento.


Incidência de matérias sobre violência no Jornal Gazeta do Povo a partir das categorias de trabalho



Como já explicitado acima, tivemos uma maior incidência de matérias nas categorias “Violência no Brasil” e “Violência no mundo” por serem estas mais genéricas, e envolverem diversos fenômenos.


O que nos chama a atenção, no entanto, são as categorias “Violência envolvendo direitos humanos” e “Guerra” pelo seu número expressivo, visto que não são categorias genéricas. Compreendemos que o que tem ocorrido é exatamente o que Waiselfisz coloca no Mapa da Violência 2010. O fenômeno da violência tem admitido outras facetas que não só a da violência física e/ou sexual, mas envolve também desrespeito à direitos como liberdade, igualdade, de expressão, e etc. Ou seja, hoje consideramos ato violento algo que vai muito além da manifestação física. Com relação a categoria “Guerra” é interessante analisarmos que, por mais que não haja guerra explícita mundialmente falando, alguns países/territórios/povos estão em constante conflito, como são os casos de Estados Unidos e Iraque, israelenses e palestinos, e etc, o que acaba acarretando a perda de muitas vidas.


Outro fato importante de ser analisado é falta de matérias “Contra a Violência”. Ou seja, do total de 297 (duzentos e noventa e sete) matérias, 285 (duzentos e oitenta e cinco) falavam sobre a ocorrência da violência, e somente 12 (doze) falavam de matérias contra este fenômeno! Será que Santana (2004) está correto quando coloca em seu artigo que  a exploração obsessiva do tema da violência na mídia é fruto de uma requisição do próprio público para satisfazer sua curiosidade? Será que existe um número muito maior de matérias relacionadas a ocorrência da violência, por ser este o assunto que traz maior popularidade ao jornal? É interessante ver que mesmo repudiando atos violentos, como qualquer pessoa sã faria, de alguma forma o ser humano gosta de vê-los estampados nos meios midiáticos.


Considerações finais


Este artigo intenciou ser um breve instrumento de reflexão do fenômeno da violência na mídia a partir da análise de matérias dos meses de Agosto e Setembro/2010 do Jornal “Gazeta do Povo”. É claro que este recorte da realidade é muito pequeno tendo em vista a imensidão de matérias que são veiculadas diariamente. No entanto, esta pesquisa teve a intenção de nos aproximar desse fenômeno, trazendo indagações importantes, e que são lançadas na prática profissional cotidiana do assistente social.


Para tanto chegamos a algumas considerações que servirão como princípio para novas discussões, como: constatou-se que há predominância de matérias sobre violência em determinados dias da semana, que as matérias contra a violência são menos veiculadas, e que há um aumento de matérias sobre outras manifestações de violência que não somente aquelas tradicionais, mas envolvendo direitos humanos.


 


Referências bibliográficas:

SANTANA, Marcos Sílvio de. A violência na mídia e seus reflexos na sociedade. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 276, 9 abr. 2004. Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/5062>. Acesso em: 14 nov. 2010.

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência 2010: anatomia dos homicídios no Brasil. Instituto Sangari. São Paulo/SP. Disponível em: http://www.institutosangari.org.br/mapadaviolencia/MapaViolencia2010.pdf

Informações Sobre os Autores

Mayara Palma Martin

Acadêmica de Serviço Social da UEPG/PR.

Reidy Rolim de Moura.

Doutora em Sociologia Política (UFSC);Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas e do Núcleo de Pesquisa do Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas intitulado: Estado, Políticas Públicas e Práticas Sociais.


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