Demora na perícia: o que fazer

Quando há demora na perícia, o segurado ou parte em processo judicial não é obrigado a apenas “esperar”: é possível reclamar administrativamente, registrar ouvidoria, buscar o Ministério Público, ajuizar ação para obrigar a realização da perícia, pedir tutela de urgência, pleitear mandado de segurança e, ao mesmo tempo, preparar a documentação médica para evitar prejuízos quando a avaliação finalmente ocorrer. A demora excessiva viola o direito à razoável duração do processo e pode, em algumas situações, gerar inclusive responsabilização do Estado e pagamento retroativo de valores.

A seguir, veremos de forma detalhada que tipos de demora são comuns, quais os efeitos disso na vida prática do segurado ou do autor da ação e quais caminhos podem ser adotados na esfera administrativa e judicial.

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Entendendo o que é “demora na perícia” e por que ela é tão grave

Demora na perícia é o atraso excessivo entre o pedido do benefício ou ato processual e a realização da avaliação pericial. Esse atraso pode acontecer em diferentes contextos:

  • perícia do INSS para concessão ou prorrogação de benefício por incapacidade

  • perícia judicial em ações previdenciárias, trabalhistas, cíveis, securitárias ou de responsabilidade civil

  • perícias complementares (por exemplo, perícia psiquiátrica após perícia ortopédica, perícia em especialidade diversa, etc.)

Essa demora é grave porque:

  • o segurado frequentemente está sem renda, justamente por alegar incapacidade para o trabalho

  • despesas médicas e familiares continuam a existir e muitas vezes aumentam

  • há risco de agravamento da doença pela falta de tratamento adequado ou pela necessidade de continuar trabalhando mesmo doente

  • a própria prova pode se prejudicar, já que a demora pode alterar o quadro clínico e dificultar a reconstituição do momento exato em que a incapacidade se iniciou

Em outras palavras, o tempo é um elemento jurídico relevante: demora em perícias não é apenas um incômodo, mas pode significar violação ao direito fundamental de acesso à justiça e de proteção previdenciária e trabalhista.

Diferença entre perícia administrativa e perícia judicial

Antes de pensar no que fazer, é fundamental distinguir dois cenários:

Perícia administrativa (INSS e outros órgãos):

  • é a avaliação feita pelo próprio Instituto (ou outro órgão público) para analisar pedidos de benefícios, como auxílio por incapacidade temporária, aposentadoria por incapacidade permanente, auxílio-acidente, BPC em alguns casos, entre outros

  • costuma ser marcada após o agendamento pelo segurado, seja pelo portal, telefone ou presencialmente

  • o atraso pode ocorrer na marcação (datas muito distantes) ou na remarcação constante de agendamentos

Perícia judicial:

  • é a avaliação feita por perito nomeado pelo juiz em um processo judicial (previdenciário, trabalhista, civil, securitário, etc.)

  • o atraso pode surgir na nomeação do perito, na entrega de quesitos, na marcação da data, na realização do exame ou na apresentação do laudo

A distinção é importante porque as medidas cabíveis variam conforme se trata de demora na esfera administrativa (INSS) ou no Judiciário.

Impactos da demora na perícia na vida do segurado e da família

Enquanto a perícia não acontece, quem pede benefício por incapacidade ou discute indenização por dano à saúde costuma estar em uma situação de alta vulnerabilidade. Os impactos mais comuns são:

  • ausência de renda: o trabalhador está afastado ou desempregado, sem salário e sem benefício

  • aumento de dívidas: contas básicas como aluguel, água, luz, alimentação e medicamentos se acumulam

  • risco de interrupção de tratamento: sem dinheiro, o paciente reduz consultas, terapias e remédios

  • piora da saúde mental: ansiedade, depressão, sensação de injustiça e impotência aumentam

  • conflitos familiares: a falta de renda e o estresse geram desentendimentos e desgaste emocional

Por isso é tão importante compreender que a demora não é “apenas burocracia”, mas um fator que precisa ser enfrentado com medidas concretas.

Por que há tanta demora nas perícias

A demora na perícia decorre de vários fatores, entre eles:

  • falta de peritos suficientes

  • excesso de demandas em determinadas regiões ou especialidades (como psiquiatria, ortopedia, reumatologia)

  • problemas de gestão e organização interna dos órgãos

  • reestruturações administrativas, greves, mudanças em sistemas internos

  • complexidade de alguns processos, que exigem mais de um tipo de perícia

Embora esses motivos sejam reais, eles não afastam a responsabilidade do Estado de garantir a razoável duração do processo administrativo e judicial. O segurado não pode ser sacrificado pelas falhas estruturais do sistema.

O que fazer na demora da perícia administrativa do INSS

Quando a demora ocorre na perícia do INSS, existem alguns passos práticos que o segurado pode adotar.

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  1. Verificar o status do agendamento

É importante acompanhar pelo portal, aplicativo ou telefone se a perícia realmente está marcada, se houve remarcação automática ou se o pedido está parado sem qualquer previsão. Às vezes, o sistema muda a data e o segurado só percebe em cima da hora.

  1. Reunir e manter atualizada a documentação médica

Independentemente do atraso, é fundamental que o segurado continue:

  • consultando médicos de confiança

  • realizando exames necessários

  • guardando atestados, laudos e receitas

  • registrando internações, fisioterapias, terapias e outros tratamentos

Essas provas serão essenciais para demonstrar que, durante o período de espera, a incapacidade existiu e, muitas vezes, se manteve ou até se agravou.

  1. Registrar reclamação e contato com o INSS

O segurado pode:

  • registrar reclamação pelos canais de atendimento

  • buscar orientação presencial em agência, quando possível

  • anotar protocolos de atendimento, datas, nomes e informações recebidas

Embora isso nem sempre resolva de imediato, serve como demonstração de que o segurado tentou, por via administrativa, resolver a demora. Isso é útil em eventual ação judicial.

  1. Recorrer à ouvidoria e defender a urgência do caso

Em casos mais graves (doença severa, ausência total de renda, risco social), o segurado pode acionar a ouvidoria do órgão para relatar a demora e a situação de vulnerabilidade, pedindo prioridade ou solução célere.

  1. Buscar apoio jurídico para medidas judiciais

Se a demora for abusiva e o órgão não der previsão razoável, é possível recorrer ao Judiciário para obrigar a realização da perícia, como veremos mais à frente. Nesses casos, o advogado pode ajuizar ação específica, muitas vezes com pedido de tutela de urgência, para que seja fixado prazo para o INSS agendar e realizar o exame pericial.

O que fazer na demora da perícia judicial

Na esfera judicial, a demora pode ocorrer em várias etapas: juiz demora a nomear o perito, o perito demora a responder, há dificuldade para marcar data ou atraso na entrega do laudo.

Algumas medidas importantes:

  1. Acompanhar de perto o andamento do processo

O advogado deve monitorar o sistema eletrônico do tribunal para verificar:

  • se o perito foi nomeado

  • se houve intimação para apresentação de quesitos

  • se a data da perícia já foi designada

  • se o perito apresentou o laudo ou se está em atraso

  1. Peticionar pedindo celeridade

Diante de demora injustificada, o advogado pode peticionar, justificando:

  • a urgência do caso (ausência de renda, doença grave, necessidade de tratamento)

  • a razoável duração do processo como direito fundamental

  • a necessidade de designação da perícia ou de apresentação do laudo em prazo determinado

  1. Requerer substituição do perito em casos extremos

Se o perito não atende às determinações do juízo, não apresenta o laudo mesmo após intimação ou não cumpre prazos, o advogado pode requerer sua substituição, demonstrando ao juiz que a conduta está prejudicando gravemente a parte.

  1. Pedir tutela de urgência mesmo antes da perícia

Em algumas situações, os documentos médicos são tão robustos e a situação de vulnerabilidade é tão clara que o advogado pode pleitear tutela de urgência, pedindo a concessão provisória do benefício ou de parte dele antes mesmo da perícia, com base na probabilidade do direito e no perigo de dano.

Embora o juiz normalmente prefira aguardar a prova pericial, há situações em que a tutela é concedida, especialmente quando estão em jogo necessidades essenciais de subsistência.

A possibilidade de mandado de segurança para enfrentar a demora

Quando a demora em realizar a perícia configura omissão administrativa ou judicial sem justificativa razoável, o mandado de segurança pode ser um instrumento adequado, desde que preenchidos os requisitos legais.

No contexto administrativo:

  • o mandado de segurança pode ser impetrado para obrigar o órgão a realizar a perícia em prazo certo, quando há prova de direito líquido e certo à análise do pedido em tempo razoável

  • é especialmente utilizado quando o segurado já tentou administrativamente resolver a questão (reclamações, ouvidoria) e nada foi feito

No contexto judicial:

  • em regra, o mandado de segurança não é usado contra atos jurisdicionais típicos, mas, em algumas hipóteses de demora flagrante e injustificada, pode ser manejado em instância superior para fazer o processo andar

  • cada caso deve ser analisado com cuidado, pois há limites rígidos para o uso do mandado contra decisões e omissões judiciais

Em todos os casos, é essencial haver prova documental clara da demora, como protocolos, certidões nos autos, cópias de petições e decisões.

Quando cabe ação judicial específica para obrigar a realização da perícia

Além das ações de concessão de benefício ou indenização, pode ser necessário ajuizar ação autônoma para atacar diretamente a demora do órgão em realizar a perícia. Nessa ação, em geral, o pedido central é:

  • que o juiz determine ao INSS (ou outro órgão) a realização da perícia em prazo determinado

  • que, em caso de descumprimento, seja aplicada multa diária

  • eventualmente, que seja reconhecido o direito de receber o benefício desde a data do requerimento, uma vez que a demora foi culpa da Administração

Essa via é especialmente útil quando:

  • o segurado ainda está na fase administrativa, sem ação principal ajuizada

  • a demora é totalmente desproporcional, com meses ou até mais de ano sem qualquer agendamento

  • há prova de que o segurado preenche os requisitos formais e apenas depende da perícia para ver seu pedido analisado

Como se preparar juridicamente durante a espera

Enquanto tenta resolver a demora, o segurado e seu advogado não devem ficar passivos. Esse período pode ser usado estrategicamente para fortalecer o futuro resultado da perícia, seja ela administrativa ou judicial.

Algumas medidas:

  • manter acompanhamento médico regular

  • coletar laudos detalhados, explicando incapacidade, limitações e evolução da doença

  • guardar receitas e comprovantes de compra de medicamentos

  • documentar internações, emergências e tratamentos complementares (fisioterapia, psicoterapia, terapia ocupacional)

  • organizar tudo em ordem cronológica, para facilitar a análise do perito

Essa preparação é decisiva. Uma perícia rápida, mas mal instruída, pode ser mais prejudicial do que uma perícia demorada com boa documentação.

Planejamento financeiro e social diante da demora

Embora não seja um aspecto estritamente jurídico, o planejamento financeiro e social é parte importante do que “fazer” diante da demora na perícia. Alguns pontos:

  • reorganizar despesas para priorizar alimentação e tratamentos essenciais

  • buscar programas sociais e benefícios assistenciais (municipais, estaduais ou federais) que possam auxiliar temporariamente

  • negociar dívidas, evitando juros excessivos e medidas mais drásticas como corte de serviços essenciais

  • buscar apoio familiar e comunitário, entendendo que esse período de vulnerabilidade não será permanente, especialmente se as medidas jurídicas estiverem sendo adotadas

O advogado pode orientar de forma geral sobre esses caminhos e, em alguns casos, indicar órgãos de assistência social que ajudem a família enquanto a demanda jurídica não se resolve.

Tabela com principais cenários de demora na perícia e possíveis medidas

A tabela a seguir resume alguns cenários comuns e as medidas que podem ser consideradas:

Situação de demora na perícia Possíveis medidas imediatas Objetivos principais
INSS demora meses para marcar a primeira perícia Reclamação administrativa, ouvidoria, busca de apoio jurídico, ação judicial para obrigar a realização da perícia Forçar o agendamento em prazo razoável
Perícia do INSS é desmarcada diversas vezes sem justificativa Registrar todas as remarcações, protocolar reclamações, avaliar ação com tutela de urgência para fixar prazo Evitar remarcações sucessivas e indefinidas
Processo judicial com perito nomeado, mas sem data marcada Peticionar pedindo celeridade, alegando urgência e razoável duração do processo Fazer o juiz pressionar o perito e agendar data
Perito judicial não entrega laudo no prazo Peticionar requerendo intimação do perito, eventual substituição, aplicação de prazo improrrogável Obter o laudo ou substituí-lo por outro profissional
Caso gravíssimo com ausência total de renda Pedido de tutela de urgência para antecipar benefício, mesmo antes da perícia, com base em forte prova documental Garantir subsistência mínima até a prova pericial
Órgão administrativo ignora repetidos pedidos de agendamento Mandado de segurança ou ação específica de obrigação de fazer Compelir a Administração a agir em prazo certo

Perguntas e respostas sobre demora na perícia

Fiquei meses esperando a perícia do INSS e não tenho nenhuma previsão. Isso é normal?

Infelizmente, atrasos são comuns, mas não devem ser aceitos como algo “normal”. O órgão tem o dever de analisar os pedidos em prazo razoável. Se a demora é excessiva, o segurado pode reclamar administrativamente e até buscar o Judiciário para que a perícia seja marcada em tempo certo, especialmente quando a falta de benefício compromete a subsistência.

Posso processar o INSS apenas pela demora na perícia?

É possível ajuizar ação não apenas para obter o benefício, mas também para obrigar o órgão a realizar a perícia e concluir a análise do pedido. Em algumas situações, também se discute eventual responsabilização por danos quando a demora gera prejuízo grave, embora isso dependa de prova robusta e seja analisado caso a caso.

Enquanto aguardo a perícia, devo continuar consultando médicos e fazendo exames?

Sim. A continuidade do tratamento e a atualização dos exames são essenciais. Isso protege sua saúde e fortalece a prova de incapacidade. Quando a perícia ocorrer, o perito terá acesso a um conjunto consistente de documentos, o que aumenta a chance de um laudo mais favorável e fiel à realidade.

A demora da perícia judicial pode ser contestada diretamente ao juiz?

Sim. O advogado pode e deve peticionar ao juiz quando houver demora excessiva na nomeação do perito, na marcação da perícia ou na entrega do laudo. O magistrado é responsável por conduzir o processo e assegurar a razoável duração, podendo cobrar do perito e, em último caso, substituí-lo.

Se a perícia demorar e, depois, eu ganhar o benefício, recebo os valores desde quando pedi?

Em regra, sim: o benefício costuma ser devido desde a data do requerimento administrativo ou da citação judicial, conforme o tipo de ação, salvo particularidades do caso concreto. Isso significa que a demora na perícia, embora cause sofrimento imediato, não impede, em tese, o pagamento retroativo. O problema é sobreviver até lá, razão pela qual medidas de urgência são tão importantes.

Em caso de doença grave, há alguma prioridade para a perícia?

Doenças graves e situações de vulnerabilidade podem justificar pedidos de prioridade tanto na esfera administrativa quanto judicial. Embora nem sempre exista um “canal mágico” para resolver tudo rapidamente, demonstrar a gravidade do quadro e o risco de dano irreparável é argumento forte para acelerar o agendamento da perícia ou para obter tutela provisória.

O advogado pode pedir que a perícia seja feita por determinado especialista ou em outra área?

Sim. O advogado pode argumentar que, em razão da natureza da doença, é indispensável que a perícia seja realizada por médico de determinada especialidade (por exemplo, psiquiatria, reumatologia, neurologia). Isso é relevante, especialmente em quadros complexos, para evitar avaliações superficiais ou inadequadas.

Se eu não comparecer à perícia após tanta demora, posso remarcar?

Faltar à perícia, mesmo diante de demora, é arriscado. Em geral, a falta é interpretada como desinteresse e pode levar ao indeferimento do pedido. Se houver motivo de força maior (internação, acidente, problemas comprovados de transporte), é importante comunicar com antecedência e apresentar documentos para justificar a ausência, pedindo remarcação o quanto antes.

Posso ter perícia por telemedicina ou domiciliar em casos de dificuldade de locomoção?

Em algumas situações, e dependendo da regulamentação vigente e das condições do órgão ou do tribunal, pode ser possível perícia domiciliar ou, excepcionalmente, por telemedicina. Nesses casos, é preciso comprovar que o deslocamento até o local da perícia é inviável ou muito arriscado. O advogado pode formular esse pedido, anexando laudos que demonstrem a limitação de locomoção.

Demora na perícia pode gerar direito à indenização por danos morais?

Há discussões sobre isso. Em certos contextos, quando a demora é absurda e causa sofrimento excepcionalmente intenso, alguns tribunais admitem a discussão de danos morais. No entanto, não é algo automático: depende da demonstração de que o atraso foi abusivo, injustificado e que causou dano concreto além do mero aborrecimento. Em geral, o primeiro foco é garantir a realização da perícia e a concessão do benefício ou direito material em si.

Conclusão

A demora na perícia não é um problema menor ou inevitável: é um ponto crítico na proteção jurídica de quem busca benefício por incapacidade, indenização por dano à saúde ou reconhecimento de direitos trabalhistas e civis. O tempo da perícia é o tempo da vida do segurado – e, quando esse tempo se alonga demais, compromete a subsistência, o tratamento médico e a dignidade da pessoa.

Diante disso, não cabe a postura de simples resignação. É possível e recomendável agir: acompanhar o pedido, registrar reclamações, buscar ouvidorias, organizar a documentação médica, planejar minimamente a parte financeira e, sobretudo, recorrer ao Judiciário com ações específicas, pedidos de tutela de urgência e até mandado de segurança nos casos mais graves.

O advogado tem papel central nessa caminhada: transformar a angústia difusa da demora em pedidos concretos, fundamentados e bem instruídos, capazes de pressionar a máquina administrativa ou judicial a se mover. Já o segurado, ao manter tratamento, reunir provas e comunicar-se de forma ativa com seu advogado, torna-se protagonista da defesa de seus direitos, mesmo em um cenário marcado por filas, sobrecarga e burocracia.

Em última análise, enfrentar a demora na perícia é exigir que o direito à saúde, à previdência e à razoável duração do processo deixe o papel e alcance a realidade, garantindo que quem está doente não seja também punido pela lentidão do sistema que deveria protegê-lo.

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