Na perícia, nunca se deve mentir, exagerar, minimizar sintomas, contradizer documentos, responder de forma vaga, agressiva ou irônica, nem fazer afirmações que passem a impressão de que a limitação não existe ou não interfere no trabalho e na vida diária. O mais importante é falar a verdade com clareza, coerência e objetividade, explicando exatamente o que sente, desde quando sente, como a doença ou incapacidade afeta sua rotina, quais tratamentos já realizou e quais atividades ficaram prejudicadas. A perícia não é o momento de “decorar frases” para convencer o perito, mas sim de apresentar um relato consistente, compatível com os exames, laudos, receitas, histórico profissional e limitações reais.
Muita gente perde a chance de ter o benefício reconhecido não apenas por falta de documentos, mas porque se comunica mal durante a perícia. Em vários casos, o segurado até tem um problema de saúde verdadeiro e relevante, mas usa expressões inadequadas, responde impulsivamente, tenta parecer mais forte do que está, ou fala coisas que enfraquecem o nexo entre a doença e a incapacidade. Em outras situações, por medo de parecer exagerado, a pessoa omite sintomas importantes. Também é comum o nervosismo levar a contradições que acabam sendo registradas no laudo pericial.
Entender o que nunca dizer na perícia é importante porque essa avaliação costuma ter grande peso na concessão ou não de benefícios como auxílio por incapacidade temporária, aposentadoria por incapacidade permanente, benefício por incapacidade decorrente de acidente, benefício acidentário e até discussões relacionadas à reabilitação profissional. A forma como o segurado fala, responde e se posiciona pode influenciar diretamente a percepção do perito sobre a gravidade do quadro, a existência de incapacidade laboral, a duração do afastamento e a compatibilidade entre a doença e a atividade exercida.
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Consultar jurimetria agora →Isso não significa que exista uma “fala certa” pronta para repetir. O que existe é postura adequada. O segurado deve compreender quais erros de comunicação costumam prejudicar a análise e como apresentar sua situação de maneira fiel à realidade. A perícia não avalia apenas o nome da doença. Ela busca compreender se aquele problema produz limitação funcional relevante para o trabalho habitual ou para qualquer atividade compatível, conforme o caso. Por isso, frases mal colocadas podem comprometer todo o pedido.
Ao longo deste artigo, será explicado o que nunca dizer na perícia, por que determinadas falas são perigosas, quais contradições costumam prejudicar o segurado, como responder corretamente sem exagerar nem omitir, qual a diferença entre relatar dor e demonstrar incapacidade, o papel dos documentos médicos e o que fazer antes, durante e depois da avaliação.
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TogglePor que a fala do segurado pesa tanto na perícia
A perícia é um ato técnico, mas também é um ato de escuta e observação. O perito não analisa apenas exames. Ele observa o relato do segurado, compara o que foi dito com os documentos apresentados, verifica o histórico da doença, examina a funcionalidade do corpo e busca entender se existe incapacidade para o trabalho.
Por isso, quando a pessoa fala de forma contraditória, superficial ou impulsiva, cria uma dificuldade probatória. Se ela diz que sente dores intensas, mas em seguida afirma que “faz tudo normalmente”, pode transmitir a ideia de que o problema existe, porém não incapacita. Se diz que está muito mal, mas não soube informar tratamento, medicamentos, restrições ou tempo de afastamento, o relato pode parecer frágil. Se afirma algo incompatível com exames e laudos, abre espaço para desconfiança.
A comunicação durante a perícia deve ser simples e verdadeira. O objetivo não é impressionar o perito, mas permitir que ele compreenda o quadro clínico e funcional. Muitas vezes, o maior erro do segurado é imaginar que a perícia depende de comover ou convencer emocionalmente. Não é isso. O que costuma ter força é coerência entre sintomas, documentos, profissão, limitações e trajetória de tratamento.
O que a perícia realmente quer saber
Antes de entender o que nunca dizer, é fundamental compreender o que o perito normalmente busca identificar. Em regra, a perícia quer saber qual é a doença ou lesão, desde quando ela existe, quais sintomas provoca, quais limitações funcionais gera, quais tratamentos já foram realizados, se há possibilidade de recuperação, e de que forma tudo isso afeta a capacidade de exercer a atividade profissional habitual.
Em muitos casos, o nome da doença, sozinho, não basta. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter níveis muito diferentes de limitação. Uma pode estar trabalhando normalmente, enquanto outra está impedida de exercer funções básicas do cargo. Por isso, a perícia costuma valorizar mais a repercussão concreta do problema na vida laboral do que o simples rótulo médico.
Quando o segurado entende isso, tende a se comunicar melhor. Em vez de apenas repetir o nome da doença, consegue explicar o que acontece na prática. Em vez de fazer afirmações genéricas, descreve limitações reais. Essa mudança de postura já evita vários erros graves.
Nunca diga algo que não corresponda à verdade
Esse é o primeiro e mais importante ponto. Mentir na perícia é um erro grave. Exagerar sintomas também é. O perito está treinado para identificar incoerências, contradições, inconsistências clínicas e incompatibilidades entre o relato e os documentos.
Quando a pessoa inventa informações, aumenta demais a intensidade da dor, afirma limitações que não existem ou tenta representar uma condição mais severa do que a real, ela corre o risco de perder credibilidade. E, uma vez perdida a credibilidade, até fatos verdadeiros podem passar a ser vistos com desconfiança.
Além disso, a mentira pode aparecer de forma indireta. Às vezes o segurado não inventa uma doença, mas afirma que não consegue fazer absolutamente nada, quando na verdade ainda consegue executar algumas tarefas com dificuldade. Esse “tudo ou nada” costuma ser mal recebido, principalmente quando não é compatível com o restante do quadro.
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Falar a verdade não significa diminuir o sofrimento. Significa relatar exatamente o que acontece. Se a pessoa consegue andar, mas sente dor após poucos minutos, deve dizer isso. Se consegue levantar peso leve, mas não pode carregar peso contínuo ou fazer movimentos repetitivos, deve explicar dessa forma. O relato fiel costuma ser mais forte do que o relato dramático.
Nunca diga que está “bem” se não está
Muitas pessoas, por educação, vergonha, nervosismo ou hábito, respondem automaticamente que estão bem. Esse tipo de resposta aparentemente simples pode ser muito prejudicial dentro da perícia.
Quando o perito pergunta como o segurado está, o ideal não é responder por convenção social, mas retratar a realidade clínica. Se o segurado não está bem, não deve dizer “estou bem”, “estou melhor”, “está tudo certo” ou “dá para levar”, se essas expressões não correspondem à real situação funcional.
Essas falas podem ser registradas ou influenciar a percepção de que houve melhora suficiente para retorno ao trabalho. O correto é responder com precisão, por exemplo, informando que continua com dor, limitação de movimento, crises frequentes, falta de força, dificuldade para permanecer sentado, em pé ou concentrado, conforme o caso.
Não se trata de ser pessimista. Trata-se de não minimizar um quadro que está sendo tecnicamente avaliado.
Nunca minimize sintomas por vergonha ou medo
É muito comum a pessoa reduzir a gravidade do que sente para não parecer fraca, preguiçosa ou reclamona. Isso acontece muito em casos de dor crônica, doenças psiquiátricas, transtornos emocionais, fibromialgia, lesões por esforço repetitivo, problemas de coluna, enxaqueca e doenças que os outros não enxergam facilmente.
O segurado pode pensar que precisa demonstrar força e resistência, mas a perícia precisa conhecer a realidade. Se a pessoa omite crises de ansiedade, episódios de pânico, falta de concentração, insônia severa, efeitos colaterais de medicação, travamentos, formigamentos, perda de força ou necessidade frequente de repouso, o quadro parecerá menos incapacitante do que realmente é.
O mesmo vale para situações constrangedoras, como necessidade de ajuda de terceiros, limitações para higiene pessoal, dificuldades cognitivas, lapsos de memória, crises emocionais ou incapacidade de manter rotina. Esses elementos podem ser decisivos. Esconder por vergonha pode enfraquecer o pedido.
Nunca diga que “consegue trabalhar normal” se isso não é verdade
Essa é uma das frases mais perigosas da perícia. Às vezes a pessoa quer dizer apenas que tenta continuar, que faz esforço ou que ainda executa algo com sofrimento. Mas, ao usar a expressão “trabalho normal”, transmite a ideia de ausência de incapacidade.
Quem continua trabalhando por necessidade, medo de perder renda ou falta de alternativa precisa explicar exatamente isso. Dizer simplesmente “ainda estou trabalhando” não encerra a análise, mas afirmar “consigo trabalhar normalmente” pode ser muito prejudicial se o pedido envolve incapacidade laboral.
O melhor é esclarecer a realidade. Por exemplo, a pessoa pode informar que ainda tenta trabalhar, porém com muita dor, redução de produtividade, necessidade de pausas, faltas frequentes, adaptação improvisada, ajuda de colegas, uso constante de medicação ou piora acentuada após a jornada.
Na perícia, a diferença entre “ainda faço com sacrifício” e “faço normalmente” é enorme.
Nunca responda apenas “não sei” para tudo
Nem todo segurado tem obrigação de dominar linguagem médica. É perfeitamente aceitável não saber nome técnico exato, código de doença ou detalhes científicos. O problema é responder “não sei” para tudo, de forma repetida e vazia.
Se o perito pergunta desde quando começaram os sintomas, qual tratamento foi feito, quais remédios usa, qual é sua função no trabalho, o que piora a dor, o que melhora, se já fez fisioterapia ou acompanhamento psiquiátrico, o segurado deve se esforçar para responder com o máximo de precisão possível.
Quando a pessoa não sabe absolutamente nada sobre a própria doença, não lembra de tratamentos, não consegue descrever sintomas nem informar limitações, o caso pode parecer mal documentado ou pouco consistente.
Se realmente não souber um detalhe técnico, pode explicar o que sabe em linguagem comum. Em vez de dizer apenas “não sei”, pode dizer que não lembra o nome exato, mas faz acompanhamento com ortopedista, usa determinada medicação e sente determinada limitação. Isso é muito melhor.
Nunca use frases genéricas demais
Frases como “sinto muita dor”, “estou ruim”, “não consigo mais”, “é difícil”, “me atrapalha bastante” podem ser verdadeiras, mas, sozinhas, são insuficientes. A perícia precisa de descrição concreta.
Dor onde? Desde quando? Em que intensidade? Em quais movimentos? Em que horário? O que acontece no trabalho por causa dela? A pessoa deixa de pegar peso? Não consegue ficar em pé? Precisa interromper a atividade? Perde o foco? Tem crises?
Quanto mais genérico o relato, menor sua força probatória. O ideal é transformar percepções vagas em informações observáveis. Isso não significa dramatizar, mas detalhar. Em vez de apenas dizer que sente muita dor, o segurado pode explicar que a dor lombar piora ao permanecer sentado por mais de vinte minutos, impede levantar caixas, irradia para a perna e exige uso diário de analgésico.
Esse tipo de resposta ajuda o perito a compreender a incapacidade de modo objetivo.
Nunca contradiga os próprios documentos
Outro erro grave é apresentar laudos, exames e atestados em uma direção, mas falar algo muito diferente durante a perícia. Se os documentos mostram afastamento frequente, tratamento contínuo e limitação importante, mas o segurado diz que o problema é pequeno, isso enfraquece o caso. O contrário também é verdadeiro: se a documentação é modesta e a fala descreve incapacidade absoluta e intensa, o perito pode ver exagero.
O relato precisa conversar com os documentos. Não precisa repetir o texto do laudo, mas deve ser compatível com ele. Por isso é importante revisar a documentação antes da perícia, lembrar datas principais, médicos que acompanham o caso, exames relevantes, internações, cirurgias, terapias e restrições recebidas.
Muitas negativas surgem justamente da incoerência entre prova documental e discurso oral. A coerência não garante concessão automática, mas sua falta certamente prejudica.
Nunca trate a perícia como desabafo emocional sem foco
É natural que a pessoa esteja abalada. Quem depende de benefício costuma estar enfrentando dor, medo, endividamento, insegurança e desgaste emocional. Ainda assim, é preciso entender que a perícia não é sessão de terapia nem espaço para contar toda a injustiça da vida sem conexão direta com a incapacidade.
Falas longas, confusas e emocionais demais podem fazer o segurado perder a oportunidade de explicar o que realmente importa. Se a pessoa passa vários minutos falando de conflitos familiares, revolta com a empresa, discussões domésticas ou problemas financeiros, mas não descreve sintomas, limitações e tratamento, o núcleo do caso fica enfraquecido.
Isso não significa que o contexto emocional seja irrelevante. Em doenças psiquiátricas, por exemplo, ele pode ser central. O ponto é manter foco. O relato precisa demonstrar como o quadro afeta funcionalidade e trabalho.
Nunca seja agressivo, irônico ou desrespeitoso
Mesmo quando o segurado se sente injustiçado, a agressividade atrapalha. Respostas ríspidas, ironias, provocações e enfrentamento pessoal com o perito tendem a piorar o ambiente da avaliação e podem prejudicar a clareza da comunicação.
Frases como “vocês sempre negam tudo”, “quero ver você sentir isso”, “você não entende nada”, “se negar eu processo todo mundo” não ajudam a provar incapacidade. Ao contrário, desviam o foco da análise técnica e podem gerar uma impressão negativa.
O segurado não precisa aceitar desrespeito, mas deve manter postura firme e educada. Se houver problema sério na condução da perícia, existem meios adequados para questionamento posterior. No momento da avaliação, o mais útil é preservar a objetividade e registrar corretamente a situação de saúde.
Nunca diga que não faz tratamento se na verdade abandonou por falta de condições sem explicar o motivo
Uma frase perigosa é simplesmente dizer “não faço tratamento”. Dependendo do contexto, isso pode ser interpretado como ausência de gravidade, desinteresse terapêutico ou falta de acompanhamento médico. Mas muitas pessoas não fazem tratamento contínuo por falta de dinheiro, dificuldade de acesso, demora no sistema de saúde, efeitos colaterais importantes ou contraindicação.
Por isso, quando não houver tratamento atual, é importante explicar a razão. A pessoa pode informar que já passou por consultas, tomou medicamentos, fez fisioterapia, tentou acompanhamento psicológico ou aguardou vagas, mas enfrentou obstáculos concretos.
O mesmo vale para medicamentos interrompidos. Dizer apenas “parei de tomar” sem explicar motivo pode ser ruim. Já explicar que o remédio causava sonolência intensa, reações adversas, falta de resposta clínica ou que houve substituição médica torna o relato mais coerente.
Nunca afirme que consegue fazer atividades incompatíveis com a incapacidade alegada
Esse ponto exige atenção. O segurado deve responder honestamente sobre sua vida diária. Porém, precisa ter clareza de que determinadas respostas podem parecer incompatíveis com o grau de incapacidade alegado, especialmente se forem mal explicadas.
Por exemplo, alguém que pede benefício por incapacidade grave da coluna e diz que faz faxina pesada, carrega compras grandes, sobe escadas repetidamente e dirige longas distâncias sem dificuldade pode enfraquecer a tese de limitação laboral, dependendo da profissão exercida. O mesmo vale para transtornos psiquiátricos quando o relato mostra rotina altamente organizada, intensa e sem prejuízo funcional, sem explicação consistente.
Isso não quer dizer que pequenas atividades da vida diária anulam incapacidade laboral. Muitas vezes, a pessoa consegue fazer algo pontual, com dor, ajuda de terceiros, pausas ou adaptação, mas não consegue manter jornada de trabalho regular. O que importa é explicar o contexto. O perigo está em dar respostas simplificadas que aparentem plena aptidão.
Nunca use expressões absolutas sem necessidade
Frases como “não faço nada”, “não saio nunca”, “não durmo nunca”, “não ando nada”, “não mexo o braço de jeito nenhum”, “não tenho nenhum dia bom” podem soar exageradas se não forem literalmente verdadeiras.
A vida real costuma ter variações. Há doenças com crises, períodos de piora e dias relativamente melhores. Há pessoas que conseguem algumas tarefas mínimas, mas não sustentam rotina laboral. O uso de absolutos pode levar o perito a testar a coerência dessas afirmações com observações diretas e documentos.
Em vez de recorrer a extremos, é melhor explicar limites reais. Dizer que consegue sair apenas para consultas, que dorme mal na maioria das noites, que movimenta o braço com forte dor e limitação, ou que tem poucos períodos de melhora, mas insuficientes para voltar ao trabalho, produz relato mais verossímil.
Nunca esconda uso de medicamentos, álcool ou outras substâncias quando isso for relevante
Em certas perícias, especialmente nas ligadas à saúde mental, dor crônica, neurologia ou dependência química, ocultar informações relevantes pode comprometer a análise. O perito precisa entender o quadro completo, inclusive tratamentos em curso, efeitos colaterais e fatores associados.
Se a pessoa faz uso de medicação controlada, precisa mencionar. Se o remédio causa sonolência, lentidão, tontura ou prejuízo de atenção, isso pode ser importante para demonstrar incapacidade laboral. Se há histórico de internação psiquiátrica, tentativa terapêutica frustrada ou uso de substâncias com impacto no quadro, omitir pode gerar inconsistência futura.
Isso não significa abrir margem para julgamentos morais, mas ser tecnicamente honesto sobre fatores ligados à saúde e ao trabalho.
Nunca diga que foi “orientado a falar certas coisas”
Esse é um erro grave. Ainda que o segurado tenha recebido orientação legítima de advogado ou médico sobre quais documentos levar e como relatar a verdade com clareza, ele jamais deve transmitir a ideia de que decorou falas para obter benefício.
Frases como “me mandaram dizer que não consigo levantar o braço”, “o advogado falou para eu falar assim”, “disseram que se eu contar desse jeito fica melhor” destroem a espontaneidade e a credibilidade do relato.
A orientação correta é sempre apresentar fatos reais com organização. O segurado deve falar porque vive aquilo, não porque alguém ensinou um roteiro artificial. A perícia valoriza relato autêntico e compatível com a prova.
Nunca confunda doença com incapacidade sem explicar a ligação
Ter uma doença não significa, automaticamente, ter direito ao benefício. Na perícia, é essencial mostrar como aquela doença interfere no trabalho. Um erro comum é repetir apenas o diagnóstico, como se ele falasse por si.
Por exemplo, dizer “tenho hérnia de disco”, “tenho depressão”, “tenho artrose”, “tenho fibromialgia” ou “tenho ansiedade” pode ser insuficiente se não vier acompanhado da explicação funcional. O perito precisa saber o que isso causa na prática.
O relato deve construir a ponte entre doença e limitação. A hérnia gera dor irradiada e incapacidade de levantar peso? A depressão impede concentração, rotina, convivência e estabilidade emocional no trabalho? A fibromialgia provoca fadiga intensa, dor difusa e redução funcional? É essa conexão que fortalece o pedido.
Como responder corretamente sem parecer ensaiado
A melhor forma de responder é manter três pilares: verdade, concretude e coerência. O segurado deve falar com naturalidade, sem floreios e sem frases teatrais. Deve explicar o que sente, o que consegue fazer, o que não consegue, quais adaptações precisou fazer e desde quando.
É útil pensar em exemplos práticos. Um pedreiro pode explicar que não consegue carregar saco de cimento, subir escadas com peso ou permanecer curvado. Uma auxiliar de limpeza pode relatar dificuldade para torcer pano, varrer, esfregar, agachar e levantar repetidamente. Um motorista pode falar sobre dor para permanecer sentado, uso de medicação que causa sonolência ou limitação de movimentos. Um trabalhador administrativo pode relatar incapacidade de manter atenção, digitação contínua, postura sentada prolongada ou controle emocional.
A resposta boa é aquela que parece vida real, e não argumento decorado.
A importância de alinhar profissão, sintomas e limitações
A incapacidade não é avaliada no vazio. Ela é analisada em relação à atividade profissional. Por isso, o que o segurado diz sobre seu trabalho é fundamental. Não basta informar o cargo. É preciso explicar o que efetivamente fazia na prática.
Muitas profissões têm exigências físicas e mentais próprias. O problema de saúde pode ser totalmente incapacitante para uma função e menos relevante para outra. Assim, se a pessoa não descreve corretamente o trabalho, o perito pode subestimar a limitação.
Um exemplo simples: dizer apenas “trabalho em serviços gerais” é pouco. O ideal é explicar se varre, lava, carrega peso, sobe escadas, limpa vidros, fica em pé o dia inteiro, faz movimentos repetitivos e em qual ritmo. O mesmo raciocínio vale para funções intelectuais, emocionais e de responsabilidade constante.
Tabela prática com exemplos do que evitar e como se expressar melhor
| Fala inadequada | Por que prejudica | Forma mais adequada de explicar |
|---|---|---|
| Estou bem | Minimiza o quadro | Continuo com dores e limitações que me impedem de trabalhar normalmente |
| Consigo trabalhar normal | Pode afastar a incapacidade | Tento trabalhar, mas com muita dor, pausas frequentes e piora ao longo do dia |
| Não sei de nada | Enfraquece o relato | Não lembro o nome técnico, mas faço tratamento desde tal período e tenho estes sintomas |
| Tenho muita dor | É genérico | Tenho dor lombar diária, piora quando fico sentado e não consigo carregar peso |
| Não faço nada | Pode soar exagerado | Consigo poucas atividades leves, com ajuda e muita limitação |
| Parei o tratamento | Sem contexto, parece desinteresse | Interrompi porque o remédio causou efeitos fortes e estou aguardando retorno médico |
| Meu advogado mandou falar isso | Tira credibilidade | Relatar espontaneamente os fatos reais do quadro |
| Tenho a doença X | Diagnóstico sozinho não basta | Tenho a doença X e, por causa dela, perdi força, concentração ou mobilidade para exercer minha função |
O que fazer antes da perícia para não falar errado
A preparação é importante. O segurado deve organizar seus documentos médicos, revisar exames recentes, atestados, laudos, receitas, relatórios de tratamento e histórico laboral. Também é útil relembrar datas aproximadas do início dos sintomas, períodos de afastamento, cirurgias, fisioterapia, terapia, internações e medicações.
Outro ponto importante é pensar previamente em como a doença afeta o trabalho. Muita gente chega sabendo o nome da doença, mas não consegue explicar de forma prática as limitações ocupacionais. Esse exercício ajuda bastante.
Também vale a pena refletir sobre a rotina atual. O que a pessoa deixou de fazer? O que faz com dificuldade? O que depende de ajuda? O que piora os sintomas? O que acontece depois de esforço? Essas respostas costumam ser relevantes.
O que fazer durante a perícia
Durante a perícia, o segurado deve apresentar documentos de forma organizada, responder o que foi perguntado com objetividade e, quando necessário, complementar com informações relevantes. Não deve interromper excessivamente, nem ficar em silêncio absoluto por medo.
Se a pergunta estiver confusa, é melhor pedir que seja repetida. Se a resposta precisar de contexto, o segurado deve fornecê-lo sem se perder em detalhes irrelevantes. Se houver limitação variável, com dias piores e melhores, isso deve ser explicado.
A postura corporal e a forma de agir também devem ser naturais. Não adianta tentar encenar sofrimento, assim como não convém esconder limitações por orgulho. O ideal é autenticidade.
O que fazer se a pessoa percebe que falou algo errado
Às vezes, no nervosismo, o segurado se expressa mal. Nessa situação, o melhor é corrigir imediatamente com calma. Se disser “estou bem”, por hábito, pode em seguida esclarecer que quis dizer que está suportando, mas continua incapacitado. Se usar expressão muito ampla ou imprecisa, pode reformular.
Pequenos ajustes feitos na hora podem evitar interpretações ruins. O problema maior é perceber o erro e não corrigi-lo. Em uma perícia, nuances importam.
Perguntas e respostas sobre o que nunca dizer na perícia
Posso dizer que estou melhorando?
Pode, desde que isso seja verdadeiro e não apague a incapacidade atual. Melhorar não significa, necessariamente, estar apto para voltar ao trabalho. O importante é explicar se ainda existem limitações relevantes.
Dizer que sinto dor é suficiente?
Não. É importante explicar onde dói, quando dói, o que piora, o que melhora e como essa dor interfere nas atividades profissionais e cotidianas.
Posso falar que faço algumas coisas em casa?
Sim. O correto é falar a verdade. Fazer pequenas atividades domésticas não elimina automaticamente a incapacidade laboral. O importante é explicar se faz com dificuldade, ajuda, pausas ou sofrimento.
É errado chorar na perícia?
Chorar não é proibido, especialmente quando a pessoa está fragilizada. O problema não é a emoção em si, mas deixar de explicar os fatos relevantes por causa dela. O foco deve continuar na limitação funcional.
Devo levar respostas decoradas?
Não. O ideal é ir preparado para relatar a realidade com clareza, não para repetir frases prontas. Respostas artificiais costumam prejudicar.
Posso dizer que tentei trabalhar mesmo doente?
Sim, e isso pode ser importante. Mas explique que tentou por necessidade ou esforço pessoal e que não conseguiu manter a atividade adequadamente, se esse for o caso.
Se eu omitir algo por vergonha, isso pode atrapalhar?
Pode muito. Sintomas psiquiátricos, crises de dor, perda de força, necessidade de ajuda, insônia e limitações íntimas podem ser decisivos para o reconhecimento da incapacidade.
O perito analisa só os exames?
Não. A perícia normalmente considera documentos, exame clínico, relato do segurado, histórico do quadro e impacto da doença sobre o trabalho.
Posso falar que não concordo com um perito anterior?
Pode mencionar histórico de divergência, mas sem transformar a perícia em confronto. O mais importante é apresentar os fatos atuais, os documentos e as limitações reais.
Dizer que estou tentando ser forte pode me prejudicar?
Pode, se essa fala vier acompanhada de minimização do quadro. Muitas pessoas tentam demonstrar resistência, mas acabam passando a impressão de aptidão para o trabalho.
Conclusão
Saber o que nunca dizer na perícia é, na prática, saber como não prejudicar o próprio pedido por falhas de comunicação. O maior cuidado deve ser com mentiras, exageros, minimizações, contradições e frases vagas que não explicam a limitação real. A perícia não premia drama nem heroísmo. Ela busca coerência entre doença, sintomas, tratamento, profissão e incapacidade.
O segurado que se comunica de forma clara, honesta e concreta aumenta a qualidade da prova produzida. Isso não significa garantir resultado favorável, porque a decisão depende de vários fatores, mas evita erros que costumam pesar negativamente. Falar a verdade de modo organizado é sempre a melhor estratégia.
Em vez de pensar em “o que preciso dizer para ganhar”, o mais seguro é pensar em “como explicar corretamente minha situação para que ela seja compreendida”. Essa mudança de postura é essencial. A pessoa não deve inventar, nem esconder. Não deve responder no automático, nem adotar extremos. Deve mostrar, com serenidade, como a doença ou lesão afeta sua capacidade laboral e sua vida diária.
Quando a perícia é tratada com seriedade, documentação adequada e relato consistente, o segurado reduz o risco de autossabotagem. E isso, em matéria previdenciária, já representa um passo muito importante para a adequada análise do direito.
